“Caíram pedaços de mim”

Por Luzinete R. C. Carvalho ( Psicanalista ) – 10 Agosto 2016 – Visão Clara

O primeiro foi em uma tarde em que estava limpando a casa.

Estava com tanta pressa para fazer o jantar, e, de repente, caiu um pedaço de mim.
Depois deste primeiro primeiro pedaço, nunca mais parou de cair partes de mim.
Em uma noite silenciosa e solitária, depois de finalmente conseguir acalmar o choro do bebê, quando percebi, foram vários pedaços pequeninos que desgrudaram de mim. Até hoje penso que minhas lágrimas acabaram amolecendo aqueles pedaços, e por isso eles caíram todos.
E um outro dia, enquanto dava banho no meu filho, lá foi outro pedaço, literalmente pelo ralo.
Lembro uma outra noite, sem paciência, enquanto eu tentava fazer a criança dormir, eu gritei, neste grito meu filho chorou e eu desmoronei.
Desde que ele nasceu, não para de cair pedaços de mim.
As vezes partes inteiras desgrudam e quebram.
Antes eu pensava que era porque eu ficava triste que os pedaços caíam, mas depois eu entendi que os pedaços caíam e depois é que eu percebia o quanto já estava triste.
A cada pedaço que caía, eu me assustava em ver aquilo no chão.
No começo eu simplesmente colocava de volta, sem olhar muito, sem dar muita atenção, com a pressa de dar conta de todo o resto.
Tentava ignorar que eu estava me desfazendo.
Tentava ignorar que os pedaços representavam sentimentos, acontecimentos, ausências, medos…
Aos poucos fui percebendo que alguns pedaços não ficavam mais no lugar, por mais que eu tentasse recolocar, caíam e deixavam vazios e buracos em seu lugar.
Alguns pedaços insistiam em se esfarelar em público, durante reuniões familiares, festas, encontros com amigos antigos e recentes.
Era devastador, eu estava lá, tentando aproveitar o evento, alguém falava ou fazia algo, e uma parte de mim despencava sem nenhum aviso prévio.
Comecei a ficar com medo de frequentar eventos e encontrar pessoas, com medo que alguém percebesse que me faltava um pedaço, com medo que percebessem que eu não era mais a mesma. Tentei até encontrar outras pessoas, que também estivessem com pedaços caindo, só para me sentir compreendida e menos só.
Lembro de um pedaço que caiu e eu nem sabia que aquilo fazia parte de mim, só notei que existia porque caiu em uma noite que chorei de cansaço, depois de finalmente terminar só metade das coisas que eu precisava fazer.
Olhei para aquilo e estranhei, olhei e acabei percebendo que aquela parte que despencou, e eu nem conhecia, correspondia a memórias de como fui tratada quando eu era criança.
Muitos pedaços caíam a noite, silenciosamente. Ou era eu, que só me dava conta que faltava algo em mim quando chegava a noite, e eu percebia, mais uma vez, que não tinha feito tudo que eu precisava fazer.
Me sentia tão incompetente para cuidar do bebê, para trabalhar, para cuidar da casa, para corresponder as expectativas das outras pessoas…
E eu não estava sendo competente nem em me manter coesa. Incontáveis pedaços caíram enquanto eu olhava para meu filho adormecido, e me arrependia por mil coisas que havia acontecido durante o dia. Pedaços caíam até enquanto eu estava feliz e brincando com meu filho, até um sorriso dele, que eu sorria junto, podia abalar e fazer um pedaço cair.
Percebi que eu estava sendo destruída de dentro para fora.
Foi assustador perceber que eu quebrava sempre que tentava cuidar do meu filho do jeito que eu queria e não conseguia.
A cada grito que eu dava, cada vez que me segurava para não bater, cada vez que acabava batendo…
Ahhh… Quando bati, lembro de ter me enxergado nos olhos do meu filho.
E o que eu vi, não gostei.
Na verdade o que eu vi me assustou, me acuou, me despedaçou ainda mais.
Tentando juntar os pedaços, colar como dava, na pressa, na angústia de não ter certezas, me perdia ainda mais.
Finalmente enxerguei a violência que vivia em mim.
E eu queria não ver a violência.
Eu queria não ser violenta.
Mas eu vi.
E eu era.
E chorei.
Eu não queria lidar com aquilo, eu não acreditava que eu conseguiria lidar com aquilo. Como eu encaixaria aquele pedaço novamente? Ou o que colocaria no buraco enorme que ficou quando ele caiu?
Eu queria fechar os olhos e não ver.
Lutando contra a violência que havia em mim, eu sempre perdia.
Eu perdia porque a violência se mostrava quando eu gritava, quando eu estava cansada, quando eu estava preocupada. O pedaço que correspondia a violência caía e aquele buraco enorme ficava exposto.
A violência estava no controle durante todo o tempo que eu me recusava a ver que ela fazia parte de mim.
Sentada no chão do banheiro, com meus pedaços ao redor, eu tive que ver.
Pois ali também estava aquele bebê totalmente dependente de mim, ali estava meu filho me desnudando a Alma, me expondo em toda a minha fragilidade e confusão.
E só pelo meu filho comecei a fazer aquilo que ainda não tinha feito a vida inteira:
Comecei a tentar conhecer cada pedaço daquilo que eu achava que era eu.
Comecei a me encontrar para além das partes que despencavam desde o dia que meu filho nasceu.
E ao identificar as partes comecei a entender o todo.
Ao conhecer cada pedaço comecei a compreender quem eu era.
O conjunto de tudo que vivi, de tudo que tive e tudo que me faltou.
Estava tudo misturado, uma coisa grudada ou embaraçada na outra.
Uma grande bagunça.
E estava tão pesado…
O processo foi lento, dolorido e muito trabalhoso.
Olhar cada parte, reconhecer, entender, decidir se mantinha ou se jogava fora, e organizar tudo de uma nova maneira, em espaços diferentes dentro de mim.
Ainda não está tudo pronto.
Nunca imaginei que havia tanto em mim.
De vez em quando um pedaço que eu não conhecia aparece.
Quando penso que está quase pronto, uma parte grande resolve se soltar e eu preciso encaixa-la novamente, muitas vezes de uma maneira diferente.
Algo me diz que este processo vai durar… A vida inteira.
E tudo bem.
Pelo menos agora eu sei algo sobre as partes que existem em mim.
E estou eu mesma me refazendo do jeito que eu quero ser.

Estou eu mesma me construindo do jeito que eu quero ser com meu filho, com meu marido, com meus pais, com meus amigos, e principalmente: comigo mesma.


Atenção: o texto acima foi escrito em primeira pessoa, mas não conta a minha história, não conta a história de alguém específico.
É um texto sobre auto conhecimento.
Sobre organização de sentimentos, convicções, desejos e ideais.
Sobre desconstrução e reconstrução pessoal.
Aborda uma das formas que este processo pode ter início, neste caso, o nascimento de um filho. A metáfora é válida para mães, pais, cuidadores.
É válida para quem, por algum motivo, começou a perceber suas partes, para se compreender como um ser inteiro. O texto está escrito de forma subjetiva, direcionada ao inconsciente do leitor. A linguagem é totalmente simbólica.
Por isso, pode não fazer sentindo nenhum para a maioria das pessoas.
Porém, pode servir para algumas, que estão neste processo, e que talvez sintam da maneira que escolhi escrever desta vez.
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1 comentário Adicione o seu

  1. Texto maravilhoso

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