O casamento e a perda gestacional

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Por Thaisa Infurna – 20 Dezembro 2016

Uma gravidez costuma ser algo muito bem pensado entre um casal. Não estamos aqui discutindo os tipos de relações, mas sim o compromisso e desejo mútuo de dar um passo além, de criar um vínculo eterno numa relação que tem como base o amor (ou, ao menos, deveria). Também sei que nada é como nos contos de fadas (apesar de adorar um), ou seja, nunca é 8 ou 80 e, por vezes, alguns relacionamentos já iniciam o processo de maneira deturpada ou mal embasada, não restando muita margem para segurar o que vamos discutir nessa publicação: o casamento após perdas gestacionais de repetição.

Não vou discutir aqui a vida alheia. Vou tecer comentários e considerações com base na minha história pessoal.

Dois anos após o casamento, eu e meu marido decidimos que seria o momento certo para aumentarmos a família. Só não contávamos com as vicissitudes da vida, com os percalços impostos pelo caminho e, em um ano e meio, vivemos 4 perdas gestacionais de repetição. A cada perda vivida, a sensação que eu tinha era de que a Terra estava me sugando pra baixo, exaurindo minhas forças e exigindo meu máximo. Eu me sentia fraca, frustrada, infeliz e incapaz. Muito incapaz. Sentia que meu corpo era meu algoz e tirava de mim a possibilidade de realizar o sonho mais lindo da minha vida. E fez isso por 4 vezes. Entretanto, por mais dura que tenha sido toda essa experiência, eu jamais estive só.
Como uma verdadeira rocha, como um verdadeiro super herói, meu marido era meu porto seguro, minha fonte de força. Era em seu corpo que eu desabava e chorava, encontrando o conforto necessário para seguir adiante. Eu tinha certeza que não estava sozinha, que a batalha era nossa, que ele estava comigo para o que desse e viesse.

Sou “famosa” na minha família por ser uma mulher forte, de fibra, poucas vezes eu baixo a guarda. Mas a dor de viver o baque das perdas repetidas vezes é muito intenso, muito atípico, muito solitário. Ter um marido compreensivo e carinhoso nessas horas pode determinar o sucesso do próximo passo, o sucesso da busca pela equipe médica competente e o sucesso em uma nova gestação sob tratamento, quando necessário. É uma parceria diferenciada e ainda mais intensa. Simbiótica. Unidos pelo amor e pela dor. Costumo comentar com meu marido que saímos fortalecidos desses dois anos de muitas provações. Foram dias muito sofridos e ele, assim como eu, também precisou ser confortado algumas vezes. Hoje ele afirma que optou por sofrer sozinho em momentos que o coração apertava, pois acreditava que o seu sofrimento não poderia jamais ser superior ao meu. Vã ilusão. Temos direitos iguais diante de expectativas criadas e longe de serem realizadas. Nem sempre é fácil manter a fé diante de um presente nebuloso.
Acredito que a maioria dos casamentos saia fortalecido de um processo doloroso como esse. Claro que demanda maturidade. A forma como encaramos a vida determina, na maioria das vezes, as direções que devemos traçar e a maneira como precisamos agir. Nem todos os casamentos conseguem sobreviver a este processo de dor e, nessas horas, o diálogo toma uma proporção enorme. Não é nada fácil, mas costuma valer muito a pena. No meu caso, foi essencial e determinante.

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