Quem chama o feminismo de ‘mimimi’ não sabe o que é sofrer assédio

Por Matheus Ribeiro em Cotidiano – 8 Dezembro de 2016 – Tribuna do Ceará


A professora da UFC Lola Aranovich condenou os recentes casos de homens que se masturbam em ônibus

A cultura do estupro no Ceará deixou de ser uma situação hipotética para se tornar uma realidade. Essa é a tese na qual a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e blogueira feminista Lola Aranovich defende.

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Lola Aranovich

A prova deste problema aconteceu na última segunda-feira (5), quando uma mulher flagrou um homem se masturbando, dentro de um ônibus, em Fortaleza. As imagens foram gravadas num celular pela própria mulher – que pediu a nossa reportagem para não ser identificada. A mulher relatou que o ônibus tinha poucas pessoas e todas eram mulheres, e que o agressor sentou ao seu lado para praticar o assédio e para exibir-se.

Esta não é uma ação isolada. Um dia depois do fato ter acontecido, o Tribuna do Ceará conversou com algumas mulheres que passaram pela mesma situação. Segundo elas, muitas outras mulheres já viram ou passaram pelo constrangimento e desrespeito e nunca tiveram coragem de falar, seja por vergonha ou até mesmo por medo.

Tendo em vista esta situação, o Tribuna do Ceará conversou com a professora Lola Aranovich.

Tribuna do Ceará – Este tipo de ação que ocorreu no ônibus pode ser entendido de que forma?
Lola Aranovich – Esse problema é universal. Não acontece somente no Ceará. No Brasil, essa situação não é culturalmente aceitável, mas é “comum” no dia a dia. Homens filmam mulheres no transporte público diariamente e postam nas redes sociais. Há três anos, mais ou menos, tinha alguns sites na internet que os caras filmavam e se masturbavam e ejaculavam nas mulheres dentro do ônibus. Era como se fosse um desafio, quem conseguisse cada vez mais e sem a mulher perceber ganhava, sabe!?

Tribuna – Muitos homens encaram as reivindicações das mulheres como “mimimi” quando a algo que, na verdade, não existe. Episódios como este mostram o quão difícil é ser mulher na sociedade?
Lola – Mostram sem dúvida. Isso é incrível. Há pouco tempo saiu uma pesquisa que perguntava o seguinte: é mais difícil ser homem ou mulher na sociedade? Mais da metade dos homens admitiu que ser mulher era mais difícil. Se você conversar com qualquer mulher, você coleciona histórias de abusos e assédios. A sensação de você ter fugido de um assédio ou abuso sexual é um sentimento rotineiro nas mulheres. Ouvir grosserias nas ruas passou a ser algo básico em meio a tantas atrocidades.

Tribuna – O que as mulheres devem fazer para que esse cenário seja apagado?
Lola – Na verdade isso é uma ação de todos, não só das mulheres. Uma questão de educação e de cultura. Temos que mudar essa cultura e torná-la inaceitável. Temos que concordar que uma pessoa que faz uma coisa dessas não está bem e que precisa de tratamento. As pessoas precisam entender que isso não é ‘mimimi’, que é uma coisa séria e que acontece. Numa pesquisa rápida nas redes sociais, através da hashtag #Meuprimeiroassédio, percebemos que mulheres já receberam o primeiro assédio ainda na infância. As mulheres precisam reagir, falar, fazer campanhas nas ruas, mostrar pra sociedade que elas não precisam passar por aquilo todo dia pelo simples fato de ser mulher. Temos que começar desde cedo a mostrar para as pessoas ainda na infância que isso é um absurdo.

Tribuna – Se você pudesse classificar o atual cenário que vivemos, como seria?
Lola – Acho que hoje vivemos num cenário de “terrorismo sexual”, onde mulheres são vítimas de agressores invisíveis. Porque pode partir de qualquer lado, a qualquer momento e de quem você nunca imagina.

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