Apadrinhamento afetivo: “procurando o bem dos outros, encontramos o nosso”

Por Eduarda Chacon – 12 Dezembro 2016

É de Platão a frase no título: “Procurando o bem dos outros, encontramos o nosso”. E, ao final do texto, espero que faça sentido aos que o lerem como fez a mim.

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A rigor, o apadrinhamento afetivo é um compromisso, como parte de um programa, entre os padrinhos (madrinha, padrinho ou casal) e a criança ou adolescente (afilhado).

A ideia é criar vínculos pessoais e possibilitar a convivência e o fortalecimento destes vínculos fora do abrigo no qual a criança ou adolescente vive, porque com o apadrinhamento afetivo a expectativa é de assistir e apoiar a educação, orientar, acompanhar, e dar afeto ao menor em sua vida, ser um agente atuante em sua criação sem que exista a perspectiva de adoção envolvida.

Aliás, quem está na fila para adoção não pode participar de apadrinhamento afetivo.

O apadrinhamento é um exercício mútuo de afeto e de comprometimento social e humano, por isso não existe a ideia de caridade, mas de “troca”onde ambos, padrinho e afilhado, dão e recebem em igual medida o amor e a confiança recíprocos.

Normalmente, há instituições coordenando como o apadrinhamento ocorrerá, como é o caso do Aconchego DF, que é referência em orientação no assunto.

Para ser padrinho afetivo os requisitos são mais ou menos variações dos seguintes:

  • Ter disponibilidade para partilhar tempo e afeto com crianças/ adolescentes acolhidos (algumas organização fixam um mínimo, por exemplo, de duas horas semanais, outas tem flexibilidade e permitem que a criança passe um fim de semana com o padrinho a cada 15 dias…);
  • Poder oferecer cuidados de qualidade e singularizados;
  • Desejar colaborar com a construção e sustentação do projeto de vida e promoção da autonomia de adolescentes (depende da organização);
  • Ter mais de 21 anos de idade (depende da organização);
  • Não fazer parte do cadastro da adoção;
  • Participar dos encontros de sensibilização e formação de padrinhos e madrinhas;
  • Participar dos encontros de acompanhamento.

Toda a preparação é fundamental para que não se considere levianamente a importância de entrar na vida de uma criança ou adolescente carente, cheio de expectativas, conflitos e de afeto, sem entender a seriedade do compromisso assumido e quão profundas as repercussões desta relação na saúde emocional dos envolvidos.

O apadrinhamento afetivo, da forma como idealizado pela Aconchego DF, envolve toda uma preparação dos padrinhos, depois uma série de encontros que começa no próprio abrigo – para que se inicia a familiarização e a intimidade entre os apadrinhados; posteriormente há visitas na casa dos padrinhos por assistentes sociais antes que o afilhado passe a frequentar o local, conforme será combinado entre as partes (padrinhos e afilhados).

Logo se vê que é um negócio sério, para ser encarado como tal, tanto que normalmente o apadrinhamento continua quando o adolescente sai do abrigo e o padrinho, que o orientou durante o processo escolar, será também uma voz amiga na sua formação profissional e na vida adulta.

É imprescindível, ademais, dar uma olhadinha no Projeto Mackenzie de Apadrinhamento Afetivo, com princípios similares, desenvolvido pelo Laboratório de Estudos da Violência e Vulnerabilidade Social (LEVV) e, em São Paulo capital, no projeto da Vara Central da Criança e do Adolescente (apadrinharvijcentral@gmail.com e grupoacesso@sedes.org.br), no Lar Emanuel (em Joinville), no Projeto Recriar (em Curitiba) e muitos outros, Brasil afora, alguns promovidos pelas prefeituras e Poder Judiciário (como em São Paulo).

Vale a pena se informar! Certamente em sua cidade haverá algum tipo de projeto ou, online, será possível encontrar alguma instituição que possa contar com a ajuda de uma alma bem intencionada.

Parece que o valor da ajuda financeira, no apadrinhamento afetivo sobre o qual estamos falando nos projetos acima, fica a critério dos envolvidos porque, pelo menos nas leituras realizadas, não há informações a respeito da questão (quanto de dinheiro tem que ser contribuído, se pode ser variável ou simbólico).

Existem, todavia, versões mais mastercard de apadrinhamento afetivo nas quais os padrinhos apenas fornecem dinheiro à instituição social que, por sua vez, se compromete a direcionar a verba aos menores sob seus cuidados de forma geral, sem especificação.

Nesta modalidade, é possível encontrar casas que fornecem todas as informações sobre o afilhado “virtual”, isto é, uma ficha com dados e fotos da criança específica que estaria sendo beneficiada pelas contribuições financeiras do padrinho e apesar de não existir contanto real entre padrinho e afilhado, é possível acompanhar à distância o progresso do seu protegido, às vezes até trocando cartas, e-mails, cartões ou (por que não?!) skype, whatsapp, sms, telefonema.

Não se trata de comparar os méritos dos programas porque, no final, o que interessa é a vontade de ajudar, de fazer a diferença da melhor forma possível ou, senão, da maneira que der mesmo.

A decisão (de apadrinhamento afetivo) pode mudar a vida de uma pessoa e fazer toda a diferença, pode ser a grande vírgula, o grande “e se?”…

De repente, achamos que estamos fazendo algo muito bom e nobre por alguém. “As pessoas deviam ver que ser humano exemplar eu sou!…” E, logo em seguida, percebemos que quem realmente ganhou fomos nós porque o “fazer bem” beneficia mil vezes mais aquele que  entrega do que aquele que recebe.

Neste fim de ano, vamos pensar sobre isso!

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