Eu nunca consegui viver o luto desse parto roubado

30 anos.

Desabafo Anônimo: Num grupo fechado de mães pediram relatos de violência obstétrica… coloquei o meu…

Eu tinha 17 anos e nenhuma informação sobre partos. Fiquei desesperada ao completar 39 semanas e perceber um sangue melequento na calcinha. Minha mãe e eu corremos pro hospital; a enfermeira me JOGOU na maca e fez um toque super dolorido, sem dizer uma palavra. Eu não sabia o que estava acontecendo, sentia muitas dores, minha mãe me acompanhava.

Após 4 horas de contrações super doloridas me ligaram um “sorinho” que ajudaria as coisas fluirem mais rápidas. Foram mais 8 horas ligadas no soro. 8 horas que meus pensamentos se dividiam em “estou morrendo” e “se eu me jogar daquela janela essa dor alucinante vai passar”. Segurei no braço de uma enfermeira pedindo pelo amor de deus pra acabar com aquilo… Ela apertou meus punhos e gritou comigo: “SE VC SEGURAR MEUS BRAÇOS DE NOVO EU FAÇO DOER MAIS AINDA”. Eu só conseguia chorar… me viraram de lado e colocaram um líquido no meu ânus… passaram gilete nos pelos da minha vagina… e os pensamentos de me jogar pela janela ficavam cada vez mais reais. Coitada da minha mãe… lembro do rosto desesperado dela.

Me levaram pra sala de parto, com umas 10 ou mais pessoas na sala – eram alunos de medicina, mas eu não me importava com mais nada… nem lembro do momento que meu menino nasceu, não lembro do choro dele, nem do rostinho, pois não me mostraram… mas lembro exatamente da voz, do tom, do sotaque de alguém falando com algum aluno: “pode desfazer toda essa costura e refazer, se não o marido dela vai devolvê-la aqui por frouxidão”… falavam da minha vagina e eu só entendi isso meses depois, quando tentei ter relação e não conseguia por ter sido costurada apertada demais.

10 anos depois, engravidei novamente (de outro pai). Foram 9 meses de pesquisas, estudos, documentários, filmes! Violência obstétrica aqui de novo não, colega.

Procura GO humanizado na cidade, não encontra… Procura GO menos cesarista… não encontra… Então tá, resolve fazer um acordo com o GO que deu, pra esperar o máximo pelo parto normal… pra ele não forçar a barra, resolve pagar o parto particular.

Vieram o muco (que não reconheci na primeira gravidez por ignorância), 3 semanas de pródromos, e no dia 17 de junho de 2015 as contrações foram reais, ficando frequentes, ritmadas… e eu esperei em casa o máximo que pude.

Cheguei na maternidade com 4cm de dilatação, que logo viraram 6… e nesse exame de 6 ele estourou minha bolsa sem minha permissão… as dores aumentaram, eu me desesperei. Minha sogra acompanhava, acuada no canto do quarto – e não a julgo por isso, qualquer um ficaria – mas queria muito ter tido uma doula nessa hora. No desespero, você não consegue pensar, não consegue tomar decisões, meu marido havia ido em casa ajeitar as coisas com meu outro filho pra voltar pro hospital… o médico já me levou pra sala de parto gritando que ia nascer, eu não entendia nada, só pedia que aquilo parasse e implorei pela peridural… e então me aplicaram a raque… mais um erro no parto… eu não senti mais nada… nem dor… nem contrações… me mandavam fazer força e eu fazia… o bebê não nascia. Ficou preso no meu canal vaginal… fizeram kristeller, laceraram o músculo da minha coluna, usaram fórceps, outra episiotomia… depois de muito, muito tempo o bebê nasceu… não chorou, não respirou… branco, branco, branco… levaram ele da sala… uns 15 min depois ouvi um chorinho fraco, longe… o pediatra conseguiu salvá-lo. Só consegui manter a sanidade nesse momento por ter meu marido ao meu lado, acariciando meus cabelos… sereno (embora depois que tudo passou ele tenha me dito que também estava fervendo por dentro).

Só pude ver meu filho 6 horas depois, pois ele estava na incubadora e eu anestesiada… a cabecinha amassada, roxa… o ombro deslocado e nem sabíamos se ele ia mexer o braço, pois havia suspeita de dano no nervo. Felizmente não ficou nenhuma sequela no meu bebê e hoje é um meninão super bagunceiro de 1 ano e meio…

Mas aqui dentro eu tenho um buraco negro… enquanto todos diziam que já havia passado e eu deveria ficar feliz pelo bebê estar bem, eu só sentia uma dor emocional monstruosa (que não parou até hoje); eu nunca consegui viver o luto desse parto roubado. Eu nunca consegui tomar atitude contra o médico. Não consigo nem passar de fora do consultório dele sem sentir um nó na garganta… minha terapeuta disse que preciso falar sobre essa ferida aberta para ela cicatrizar, mas eu falo, falo e é como fosse impossível outras pessoas sentirem a dimensão da dor que eu sinto com isso… Fisicamente ficou um períneo destruído, dói todos os dias, não consigo ter relação sexual sem dor, vez ou outra volta a sangrar, enxugar após urinar é um martírio.

Estudem.. estudem muito… não tenham vergonha de conversar sobre TUDO com os GOs, fazer plano de parto, se protejam de todas as formas possíveis. Precisamos cortar todo esse mal que GOs despreparados nos fazem.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Camila disse:

    Sinto muito, tb vivi mta violência, já fiz meu desabafo. Meu Vitor nasceu em março de 2015 mas ele teve um quadro de hipóxia importante qdo ficou preso no canal vaginal como o seu. Concordo é preciso estudar mto mas é preciso tb nos preparar para conseguir falar! Pq na hora a gente pensa tanta coisa e não tem coragem de falar. Um abraço fraterno.

    Curtir

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