A privação do afeto como recurso “educativo”

Por Luzinete R. C. Carvalho ( Psicanalista ) – 04 Dezembro 2016 Visão Clara

Quando nos apaixonamos, quando amamos alguém, ou mesmo queremos bem alguém, procuramos conhecer seus gostos, suas vontades e suas necessidades. E sem que represente um sacrifício, tentamos corresponder aos anseios e desejos da pessoa querida. Tentamos nos mostrar interessados em seu bem estar e em sua felicidade de mil maneiras muito pessoais. Telefonamos, mandamos mensagens pelo what’s app, recados pelo facebook. Levamos para jantar no restaurante preferido, levamos em shows e passeios que agradem. Quando vemos em uma loja algo que a pessoa gosta pensamos em comprar, mesmo não sendo nenhuma “data especial”, pois a pessoa é especial e vale o presente fora de hora. Para facilitar a reflexão, e evitar distorções desnecessárias, aviso que neste texto estou falando de relações saudáveis, onde o carinho e atenção são recíprocos, onde não há abuso de um lado, nem baixa autoestima de outro.

Estou falando de relações nas quais nos sentimos bem em deixar claro que conhecemos muito bem os gostos, as vontades e as necessidades da pessoa. Estou falando de relações em que nos sentimos bem quando acertamos no presente, na guloseima, no passeio, na surpresa. Nos sentimos genuinamente felizes quando deixamos claro o quanto conhecemos a pessoa querida, e o quanto conseguimos supri-la com nosso carinho, atenção e amor. É a frase feita, mas que é tão verdadeira quando diz que “não basta amar, é preciso conseguir fazer com que a pessoa se sinta amada”. E quando amamos uma pessoa nos esforçamos para que ela se sinta amada do jeito que ela entende que é amada. Apenas me pergunto as razões disso ser plenamente aceitável quando se trata das relações entre adultos, mas quando se trata de amar nossos filhos pequenos, a regra não vale… Se nos esforçamos tanto para que um adulto se sinta amado do jeito que ele precisa, por que criticamos quando os pais tentam fazer com que seus bebês e suas crianças se sintam amadas do jeito que elas precisam?
Serei mais clara. Bebês e crianças pequenas não vão entender se você apenas disser “eu te amo”. Tenho minhas dúvidas se apenas dizer “eu te amo” é o suficiente inclusive para adultos. Bebês são mais simples que os adultos, não precisam de presentes, não precisam de eventos elaborados, não precisam de declarações rebuscadas. Bebês entendem que são amados através do abraço, do toque, do peito, do colo. Se um bebê chora precisando de colo, não vai ser o suficiente acenar de longe dizendo que estamos ali. Se um bebê chora precisando de peito, não vai ser o suficiente ficar por perto repetindo que o amamos, com voz branda e mantendo-nos calmos e tranquilos. Os profissionais e as pessoas em geral precisam parar de recomendar que mães e pais neguem colo para seus bebês e crianças. As pessoas precisam parar de recomendar que mães neguem peito como forma de consolo para seus bebês e crianças. Não entender o papel da amamentação, do colo, do contato físico na formação de uma base emocional forte e saudável da criança é estar, além de limitado, ignorante de muitos estudos a respeito do assunto. Amamentação é nutrição física e também emocional. Colo é nutrição emocional e psíquica. É cruel, ignorante e perigoso negar que uma criança se sinta amada do jeito que entende: através do peito, do abraço, do contato físico, do colo. E vamos deixar tudo bem claro para não haver más interpretações: não me refiro a situações em que pode ser impossível amamentar ou pegar no colo, não me refiro a situações em que a própria criança não deseja ser tocada ou embalada. Me refiro a situações em que deliberadamente, sem nenhuma necessidade real, se aconselha que mães e pais neguem para bebês e crianças aquilo que é plenamente possível ser oferecido. Me refiro a situações nas quais, sem nenhuma razão verdadeira, se nega carinho, afeto e aconchego do jeito que um bebê pode compreender. Vários são os pretextos para que se indique a negação do afeto: preparar a criança para vida, treinar para que durma, treinar para que obedeça, “educar”, castigar. Percebam que a privação do afeto é usada tanto como desculpa para “educar” quanto para punir. A natureza dúbia deste recurso já deveria ser o suficiente para que relutássemos em aceita-lo. A privação do afeto é usada para manipular, chantagear e amedrontar. O amor e o afeto dos pais ficam condicionados a um suposto “bom comportamento” por parte do bebê ou da criança, que na maioria das vezes ainda nem consegue compreender o que está sendo esperado ou exigido dela. Geralmente os pais não se sentem confortáveis em aderir a este tipo de recomendação, geralmente os pais estão passando por alguma situação em que já esgotaram seus próprios recursos para solucionar a questão, e acabam cedendo mediante previsões nada boas sobre o futuro dos filhos, que, segundo muitos profissionais, se tornarão mimados e dependentes. Os pais são estimulados a negarem afeto aos filhos como forma de se mostrarem firmes e fortes. Aqueles que não seguem as recomendações são taxados de manipulados e fracos. A verdade é que não se prepara uma criança para a vida através de lições que deixam a mensagem de que ela não pode contar com as pessoas em quem mais confia, nos momentos em que mais precisa.
Não se educa através do medo de perder o amor.
Não se fortalece uma pessoa abalando suas bases emocionais com negativas de carinho e segurança. Não vou incluir neste texto considerações sobre muitos estudos sérios que falam da importância da amamentação, do colo, do toque e do contato físico para a formação do cérebro do bebê durante seu primeiro ano de vida. Aqui me basta dizer que os estudos sérios existem, inclusive sobre a importância do contato físico e do acolhimento nos primeiros anos de vida para o desenvolvimento da inteligência emocional do ser humano. Por hora basta dizer que estudos sérios e confiáveis existem, e uma pesquisa simples pode dar acesso a eles. Neste texto quero apenas instigar uma outra visão sobre o assunto e propor uma reflexão inicial necessária a cada pai e mãe, sobre quais mensagens gostariam de deixar gravadas na mente e no coração dos seus filhos. Se tanto nos esforçamos para atender aos desejos, necessidades e anseios de quem amamos, como podemos recomendar que se negue para um bebê ou para uma criança aquilo que ela precisa no momento, para se sentir tranquila, calma, relaxada e segura?
Se fazemos tudo que está ao nosso alcance para que quem amamos sinta nosso amor do jeito que conseguem, então que façamos o mesmo com nossos bebês e nossas crianças. Não precisamos negar ajuda, afeto e acolhimento para nossos filhos pequenos por medo de não prepara-los bem para o futuro. Não precisamos criar momentos de frustração e batalhas que servem apenas para desgastar a família e destruir o vínculo entre pais e filhos. Não precisamos negar ou privar nossos filhos de afeto sem necessidade, o tempo inteiro surgem frustrações e situações em que realmente a negativa é necessária e verdadeira.
A verdade pura e cruel é que a vida, dinâmica em sua natureza, proporciona, e sempre proporcionará, muitas situações em que nada poderemos fazer para consolar nossos filhos.
A vida por si só trará frustrações e dissabores que não poderemos evitar, e, na melhor das hipóteses, nos restará apenas estar ao lado deles, torcendo para que a fortaleza interior adquirida ao longo da vida, os ajude a suportar e superar as dificuldades. Que possamos então fortalece-los em suas bases emocionais, enquanto nos é possível agir ativamente para contribuir que desenvolvam a resiliência tão necessária diante as adversidades inevitáveis. Que possamos mostrar para eles que não importa onde estejam, nem o que tiver acontecido, que somos nós, seus pais, as pessoas em quem eles sempre poderão confiar e contar, ainda que apenas para oferecer a oração, a torcida, o carinho, a companhia. E enquanto são bebês e crianças que possamos ter a liberdade de demonstrar o quanto são amados do jeito que conseguem entender, através do peito e do nosso colo quente e seguro. A verdade é que nunca mais teremos tempos mais felizes do esses em que conseguimos resolver tudo e ajudar nossos filhos com um “simples” abraço.
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