AFINAL, QUAL O LUGAR DA MATERNIDADE?

Certa vez, um amigo queridíssimo disse-me, em uma roda de conversa repleta de desconhecidos e em tom de descontraído, que só me encontrava grávida. Disse que eu trabalhava fora de casa, fazia um doutorado, era tão inteligente e, poxa, estava sempre grávida?! Pausa. É importante esclarecer que tive dois filhos com um intervalo também de dois anos, e essas foram as minhas únicas gestações. E apesar de compreender que meu amigo conscientemente nunca desejaria me magoar ou envergonhar, para mim foi impossível não sentir culpa pela escolha em ser mãe. Desde então, sigo pensando: que tipo de lugar está reservado para as mulheres que desejam a maternidade? Em outras palavras, qual deve ser o modo de ser/agir para as mulheres que querem ser mães?

Para lançar luz a essa pergunta, podemos buscar brevemente três momentos da reflexão feminista sobre a maternidade[i]. No primeiro, com o marco dado por Simone de Beauvoir, em 1949 com o livro “Segundo Sexo”, maternidade é vista como uma forma de servidão, uma abdicação da mulher em prol dos filhos e do marido com a consequente perda da sua própria individualidade, um impedimento para que a mulher assuma o primeiro lugar social. Esse “defeito ou uma desvantagem natural”, chamado de handicap, deveria ser superado com a vontade livre e esclarecida da mulher: ela seria mãe se quisesse, como ela quisesse e quantas vezes ela quisesse. Com essa raiz no pensamento, o feminismo ao dialogar com a maternidade segue conquistando e debatendo políticas de planejamento familiar, atenção à saúde reprodutiva, entre muitos outros.

Já no segundo momento do pensamento feminista, no final dos anos 70 e início dos anos 80, e com o aporte da psicanálise, inicia-se a negação do handicap. A ideia de maternidade mais precisa e mais controlada seria o reflexo de um pensamento ocidental e hegemônico, que subordina o corpo feminino e nega suas múltiplas possibilidades de fazer e sentir, conduzindo-o a uma forma masculinamente idealizada. Portanto, era necessário reconhecer e reconstituir as trajetórias das mulheres mães pelo olhar não-masculino e trazê-la não como um objeto de análise em referência aos homens, e sim a partir de suas próprias especificidades. Era positivar as poderosas e insubstituíveis experiências sobre a maternidade que historicamente foram declaradas como vazias, abstratas ou socialmente subordinadas[ii].

Observando o terceiro momento da reflexão feminista sobre a maternidade, consideramos que não é o fato de poder ou querer se reproduzir que propicia, por si só, uma posição social inferior. Existem relações sociais de dominação que imprimem esse significado social às mulheres, de modo mais ou menos intenso. Quando cruzamos categorias de gênero, raça, nacionalidade, escolaridade, renda, localização, religião e muitíssimas outras enriquecemos e problematizamos identidades, e vemos quão violentas podem ser essas experiências.

A partir daí, descortinamos alternativas para analisar a maternidade além das diferenças do binômio homem-mulher e passamos a compreensões mais sofisticadas pelo conceito de gênero. Nela, abrimos espaço para entender a paternidade como relação legítima na construção da maternidade. Cruzamos fronteiras para alcançar as relações monoparentais, biparentais e multiparentais que perpassam os caminhos da maternidade. E não só elas: passamos a conceber a homoparentalidade e a transparentalidade como caminhos para a realização da mulher.

Fazer essa recapitulação é importante para compreender as diversas situações pelas quais mulheres mães sentem e enfrentam. Os ganhos obtidos pela militância continuam vivos, ainda que em permanente questionamento em nossa sociedade patriarcal. E o mais importante: os discursos ligados a esses momentos históricos continuam a fazer sentido para as mulheres hoje, de maneira mais ou menos difusa.

Voltando ao nosso ponto inicial, não há propriamente um único modo de ser para a mulher que deseja ser mãe, um único lugar. Há vários modos de ser mãe. Esse espaço varia de acordo com as características socioeconômicas de cada mulher, com a localidade que reside, com o fato de ser branca ou negra, casada ou solteira, com sua idade, com a sua religião e, sobretudo, com a subjetividade de cada uma. Essencialmente, é a mulher quem deveria escolher. E existem muitos caminhos de análise e interpretação, pelo qual não é possível esquecer nenhuma reflexão feminista produzida.

Todavia, o único lugar que certamente está reservado a todas as mulheres que desejam ser mães é o do juízo social incessante. Ele dá margem à culpa, ao medo, à raiva, à vergonha ou a qualquer outro sentimento de não-realização pessoal ou social, o que sabemos que não ocorre necessariamente com os homens.

Se você é mulher, certamente já ouviu ou proferiu algumas destas sentenças:

E o herdeiro vem quando?

Um filho só, como assim?

Nossa, mas você já tem tantos filhos, ainda quer mais?

E a sua carreira?

Na hora de fazer não chorou.

Você deixa seu filho sozinho na creche o dia todo?

Vai fechar a fábrica quando?

O segundo vem quando?

Mas você não trabalha? Só fica em casa cuidando de filho?

Mas mãe é assim mesmo…

Está de licença maternidade… que férias, hein?

Acreditamos que desconstruir o lugar que se atribui à maternidade será possível quanto maior a possibilidade da mulher ter acesso à informação, de trocar experiências, de desabafar, de conhecer a si mesma e de obter ajuda especializada. Coletivamente, é necessário que valores sociais[iii] sejam construídos para que todos nós aceitemos e reconheçamos que existem mulheres que desejam ou não ter filhos; que nos disponhamos a prestar ajuda a mulheres que assim o necessitem; e que estejamos abertos a sermos solidários com a mulher e com a sua escolha de ser mãe, das muitas formas que ela ocorrer.

[i] SCAVONE, Lucila. A maternidade e o feminismo: diálogo com as ciências sociais. Cadernos Pagu, Campinas, n. 16, p. 137-150, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010483332001000100008&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 14/11/2016.

[ii] MARTÍNEZ, Ariel. Dimensiones del cuerpo bajo el umbral de los debates feministas. Convergencias y divergencias en Simone de Beauvoir, Luce Irigaray y Judith Butler. Revista Fundamentos en Humanidades, n. 28, p. 141-166, 2013. Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=18446054008&gt;. Acesso em 14/11/2016.

[iii] TEIXEIRA, Sonia Maria Fleury. O desafio da gestão das redes de políticas. In: VII Congreso Internacional del CLAD sobre la Reforma del Estado y de la Administración Pública. Lisboa: Congreso Internacional del CLAD sobre la Reforma del Estado y de la Administración Pública, out. 2002. Disponível em: <http://unpan1.un.org/intradoc/groups/public/documents/CLAD/clad0043204.pdf&gt;. Acesso em 15/11/2016.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s