Acolhimento

Por Letícia Penteado – 23 Março 2015 – Anarca é a mãe!

Ouço muitos relatos de violência. Às vezes eles são compartilhados publicamente, às vezes em grupos de que participo, às vezes me são confidenciados privadamente, por pessoas que me procuram depois de ler as coisas que escrevo.

Há quem considere isso errado. Que diga que só se deve falar de coisas boas, coisas felizes. Eu discordo. Acho que essa censura é o que leva feridas emocionais a necrosarem longe da ação antisséptica da empatia.

Falamos sobre os traumas pelos quais passamos porque queremos falar e ser ouvides. Queremos conversar. Queremos contar o que aconteceu para alguém que vai nos entender, ao invés de falar que é tudo coisa da nossa cabeça.

Ouvir histórias assim é muitas vezes desgastante, porque os assuntos são, claro, pesados; algumas trocas, mesmo muito produtivas, me deixam mexida por dias. Ainda assim, busco proporcionar essa escuta sempre que posso, porque sinto que cada papo assim não apenas ajuda a quem fala, mas enriquece a mim também. Enquanto abraço a vivência de outras pessoas, sinto que aceito e entendo mais a minha própria e me enxergo cada vez melhor.

Chego a me sentir mal quando uma pessoa me agradece por ouvir, ou pede desculpas por falar (como se fosse algo que me incomodasse), porque me parece que o meu ganho naquele contato é tão grande quanto o dela. Além de crescer e evoluir com cada uma dessas interações, me faz bem imaginar que estou oferecendo a outra pessoa algo que fez toda a diferença para mim: o colo. A empatia. O acolhimento.

Quanto mais eu penso sobre isso, mais me parece que, por pior que seja a violência pela qual passamos, ainda mais maligna é a sensação de que estamos sofrendo à toa, por uma bobagem. Ou, pior ainda, que a gente merece essa violência. Que a culpa é nossa. Que as pessoas que a cometem têm razão em cometê-la. Que não temos o direito de sofrer por conta dela, não podemos reclamar, não podemos sequer achar ruim.

E daí sentimos vergonha por atos que, além de não serem nossos, foram cometidos contra nós. E sentimos culpa pelos sentimentos que temos em relação a isso. E sentimos medo de sermos rejeitades pela sociedade por nos recusarmos a perdoar e esquecer; medo de sermos rotulades como pessoas amargas, rancorosas, mesquinhas, talvez até ingratas; medo de passarmos por coisas ainda piores em retaliação à exposição das nossas dores e de quem as causou em nós.

Tudo isso conduz a um silêncio que, longe de fazer passar o nosso mal-estar, cristaliza o nosso sofrimento e nos impede de superar o que se passou. Recomendo, a esse respeito, aliás, a leitura do livro A Nova Conversa, de César Ebraico.

É justamente aí que entra o acolher. Porque, mesmo que não possamos fazer nada além disso, mesmo que não possamos colocar um fim à violência que alguém sofre, ou ao seu sofrimento em si, podemos apoiar essa pessoa na legitimação de seus próprios sentimentos. Podemos ajudá-la a ver que a culpa não é dela e podemos ecoar para a ela a indignação e o ultraje com que o que ela passou deveria ter sido recebido, ao invés do cinismo, dos panos quentes, da acomodação que costumam ser a norma no mundo.

O acolhimento não só é um meio de ajudar mesmo quando não há mais nada que se possa fazer, mas também uma forma de acompanhar alguém em seu processo de empoderamento, para que essa pessoa possa, antes de tudo, entender-se digna de  respeito, de sentir-se bem, de ser feliz. Auxiliar a pessoa a encontrar ânimo para lutar por si mesma, mais do que esperar passivamente por alguém que a resgate e daí cair na mesma armadilha mais tarde.

Não vou aqui defender a noção meritocrática de que “basta a pessoa se empoderar que tudo estará resolvido”, porque isso simplesmente não é verdade. O problema na violência é quem a causa, não quem a sofre. Contudo, o empoderamento, mesmo não sendo suficiente por si só para por fim à dor, é imprescindível para proteger a pessoa de uma nova ocorrência similar no futuro. Daí a necessidade de respeitarmos o tempo e o protagonismo de cada pessoa, ao invés de simplesmente acariciarmos nosso próprio ego ao “salvá-las” enquanto elas, em seu íntimo, conservam a sensação de que saírem daquela merda não é um direito delas, mas um favor que nós fizemos a elas.

Não se trata de falar para alguém que diz sentir-se fraca que ela na verdade é forte, oferecer opiniões não solicitadas, ou falar coisas como “não é nada” e “já passou” e “bola pra frente”. Não se trata de menosprezar escolhas, passar sermões, exortar à ação, usar um discurso cheio de “você tem que” e “você deveria”. Trata-se, sim, de ouvir. Abrir caminho à fala e reflexão da outra pessoa, com um esforço constante para abster-se de julgar. E lembrá-la de que, fraca ou forte, nada justifica as violências cometidas contra ela. E que ela não é ridícula, nem louca, nem patética, por sentir-se da forma como se sente.

Acolher é ouvir, abraçar, validar. É apoiar a pessoa para que ela se permita ver que o que ela sente não é absurdo e que o que ela passou é inaceitável. É romper o isolamento emocional em que ela vive para dar força à sua insurgência e acalentar dentro dela a chama da revolta contra aquilo que a oprime.

“Mas essa revolta toda não roubará a paz dela?” Não. Não temos como roubar algo que nunca existiu. Não há paz na opressão. Há, no máximo, a resignação, a negação, a depressão, a repressão. Uma neblina densa, tóxica e pegajosa que temos que dispersar para conseguirmos nos enxergar com lucidez.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s