Naquele momento eu entendi o que é ser mulher numa sociedade machista

X, 38 anos, 3 filhos, terapeuta.

Desabafo Anônimo: Isso aconteceu há 14 anos. Depois de um ano de término de relacionamento, tive uma recaída e transei com o ex, que tinha se separado da namorada. Dias depois, eles reataram o relacionamento e algum tempo depois, descobri que tinha ficado grávida naquela única transa, contrariando todas as possibilidades, já que estava com endometriose e, teoricamente, fora do período fértil, sem contar o fato de que ele tinha ejaculado para fora.

Decidi que não falaria nada. Ficaria quieta e criaria a criança sozinha. Mas “aparecer” grávida sem ter um companheiro é ter de, inevitavelmente, responder à pergunta: Quem é o pai? Na época eu não morava sozinha e houve testemunhas da visita que ele me fez e uma dessas testemunhas tratou de matar a curiosidade das pessoas em relação ao pai da criança. Logo todos sabiam, e eu acabei por ter de contar a ele antes que outra pessoa contasse.
A reação dele não poderia ter sido outra: faça um aborto. Na época, isso era um grande tabu religioso para mim. Algo inimaginável. Mas não esperava outra coisa dele, que tinha fama de engravidar deus e o mundo e depois dar remédio para abortar. Disse a ele que não faria um aborto, que isso estava fora de questão, mas que também não obrigaria ele a assumir uma criança que ele não queria ter, com uma mulher que ele também não amava, que eu cuidaria sozinha. E ficou tudo por isso mesmo, fora as raras vezes em que nos encontrávamos e ele reforçava a ideia do aborto, perguntando se eu tinha certeza de que não queria fazer, até que alguém se deu ao trabalho de ir contar à companheira dele, com quem ele já estava, naquele momento, morando junto. E então começou o inferno…

Para todas as pessoas ele contou a triste história de que foi seduzido, que não teve escolha, que não pode resistir a mim pois afinal ele é homem, e eu tinha me oferecido de forma irrecusável e, quem sabe, premeditadamente pensando em engravidar para destruir a felicidade dele – embora ele é que tenha ido à minha casa, ele é que tenha tido a iniciativa de dar início ao contato que levou a uma relação sexual, e muito embora ele fosse reconhecido como o garanhão da cidade, “coelho procriador”, pai de vários filhos com várias mulheres dentro e fora de seus casamentos e com uma longa lista de filhos abortados com tantas outras, todo mundo acreditou na história dele. Os meus amigos, os amigos dele, nossos amigos em comum. A família dele e a minha. E eu fui repudiada, massacrada, excluída e isolada do início ao fim da gestação e até a minha criança completar uns 2 anos de idade, eu estava completamente só. Para as consultas médicas, para os cuidados, para o parto, pós-parto e tudo o mais.

Não havia um único lugar onde podia estar com outras pessoas sem passar por cobranças, humilhações, acusações. Isso chegou até mesmo a entrar em minha casa e tive que deixar de receber as pessoas para não passar por isso. Ninguém, absolutamente ninguém, pensou que eu estava sozinha com uma criança na barriga, filha de um pai canalha que tinha um grande histórico de problemas em assumir seus filhos, que essa criança iria nascer e que eu cuidaria dela sozinha, que eu precisava de apoio e cuidados, ou ao menos, de um mínimo de humanidade para esperar por aquela criança em paz.

E eu vi a mesma sociedade que “valoriza a vida”, tem “convicções religiosas” e “valores morais” me chamar de puta, filha da puta, golpista, desgraçada e tudo o mais, dizendo que eu tinha “obrigação” de ter feito um aborto. Que não ter feito um aborto era o cúmulo. Era a prova de que eu tinha premeditado aquela gravidez para destruir o relacionamento dele, pois eu não tinha caráter. Alguém pode imaginar o que são nove meses entre a mais completa solidão e a mais degradante humilhação? O que é ouvir, nas raras vezes em que ouve a voz de alguém, um “só não te bato porque você está grávida”, ou um “tomara que essa criança morra no parto”, ou um “se você pedir pensão pra ele vai apanhar na rua”? O que é ter medo de atender o telefone e ouvir coisas horríveis, ou no mínimo ouvir alguém perguntando se eu já tinha tomado consciência e feito o aborto? Claro, eu entrei numa depressão profunda. Minha filha nasceu em meio a essa depressão profunda. Foi amamentada dessa depressão profunda. No parto, eu quase morri. Foi uma cesariana, e bem difícil, pois eu tive uma hemorragia que me deixou entre a vida e a morte, a ponto de chegar no limite em que o médico decidiu tirar meu útero para salvar minha vida. Felizmente, não foi preciso, mas perdi muito sangue e levei dois dias para conseguir sair da cama. Estava verde, fraca, com uma bolsa de soro numa veia e uma de sangue na outra. E, nesse meio tempo, alguém, não sei quem nem como, avisou o pai da criança que eu estava internada, que ela já tinha nascido.

Fora do horário de visitas (em que ninguém vinha), ele apareceu. Conseguiu entrar porque se identificou como pai. Entrou, pegou a criança, tirou de mim, se afastou com ela em direção à janela, me deixando em desespero, com medo do que ele faria com ela, mas sem poder me levantar, sem poder fazer nada. Passou um tempo com ela fora da minha área de visão e fez isso justamente para me agredir, para me fazer sofrer, me sentir ameaçada. Depois voltou, me entregou a minha filha e fez questão de dizer, bem frisado: Parabéns pela SUA filha. Parece com a mãe.

Voltei para casa sozinha, cuidei dela sozinha até os dois anos de idade, quando encontrei um novo companheiro e comecei a fazer novos amigos, a ter uma nova vida, e a sair da depressão. Mas esse foi o pior período da minha vida. Eu tinha 24 anos, nenhuma experiência de vida, nenhum preparo para tanta carga emocional. Isso me marcou, me embruteceu, me fortaleceu. Naquele momento eu entendi o que é ser mulher numa sociedade machista. Chorei pela minha menina que estava vindo. Choro mais ainda hoje quando vejo nela os reflexos de tudo aquilo que passei. Mas não me arrependo da minha decisão. Se eu tivesse feito um aborto, eles não me perdoariam por aquilo de que me acusavam – mas eu também não me perdoaria.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Tamara disse:

    Parabéns pelo relato. Vc é guerreira corajosa e digna. É isso q ficará de herança pra sua filha.

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