Um relato de quem está do outro lado da incubadora

Por Inoã Viana – 27 Novembro 2016


O texto de hoje não conterá dados, estatísticas ou mesmo explicações médicas em relação a prematuridade, e sim um relato de quem está do outro lado da incubadora por 4 anos e não se acostuma.

Como tranquilizar uma mãe que vai embora para casa, deixando um pedaço dela aos seus cuidados?

Como entrar em contato, no meio da madrugada, com os pais de um bebê que infelizmente não resistiu?

Como explicar a uma família que o bebê não está respondendo a todos os cuidados empregados?

Não existe resposta ou receita para lidar com os exemplos citados. Espera-se que o intensivista pediátrico, assim como todos os médicos, venha com a empatia embutida de fábrica. Eu, particularmente, saí da faculdade com a minha bem aguçada e me orgulho de, ao longo desses anos depois de formada, não ter a perdido a capacidade de me colocar no lugar do outro. Mas sendo extremamente sincera, por maior que seja a empatia, sensibilidade e vontade de amenizar o sofrimento do outro, eu não faço ideia da dor que essas mulheres sentem. Após ser mãe me tornei infinitamente mais sensível à dor delas, mas mesmo assim não tenho noção do que elas passam.

São mulheres que antes de tudo têm fé. Uma fé sem o caráter religioso da palavra. Elas têm fé no tratamento, em nós médicos, na força dos seus pequenos e nelas mesmas. É uma fé que não cega, mas sim a que sustenta, que dá força. Força para suportar a dor de ficar, diariamente no hospital por até 12 horas, após uma cesárea simplesmente para olhar o seu bebê. Força para continuar de pé num corredor depois de sair da UTI devido a uma parada cardiorrespiratória do seu filho para que os médicos possam agir. Força de continuar sentada numa cadeira desconfortável, caindo de sono, porque usou uma medicação para aumentar a sua produção de leite, para que o seu bebê possa mamar 3 ml a cada 3 horas.

São mulheres de um otimismo doentio. Um otimismo que, mesmo abalado diversas vezes durante a internação de seus filhos, em alguns casos várias vezes num mesmo dia, volta com uma grandeza assustadora. Essa capacidade de enxergar o lado do bom das coisas muitas vezes passa para nós médicos como uma falta de noção da real gravidade do quadro. Quantas vezes eu me perguntei: “Meu Deus, será que ela não enxerga o que eu estou falando?” Mas não é falta de noção e sim questão de sobrevivência.

São mulheres que aprendem a ver a felicidade em pequenas conquistas. Vibram com 15 gramas ganhos de peso. Choram ao ver que o respirador não é mais necessário. Se alegram ao poderem segurar sua cria no colo. Que deixam as mudas de roupas escolhidas para o dia seguinte.

E ao final de cada horário de visita, como pedi-las para ir embora? Qual é o tamanho da dor de sair e deixar no hospital aquele que ainda devia estar dentro de você? Como perder a paciência com essas que ligam no meio da noite apenas para perguntar se a filha está dormindo bem? Como negar a entrada na UTI de uma avó que nunca conheceu o neto pessoalmente porque ele nasceu com 800 gramas?

Eu, sinceramente, nunca consigo fazer nada disso. Sempre peço as enfermeiras para tomarem frente. Me falta pulso e me sobra coração mole.

Por mais doce que eu possa parecer, posso assegurar que não sou. Também perco a paciência, mas a recupero rápido. Certa vez fiquei extremamente irritada com uma mãe de um bebê prematuro extremo, que teve diversas paradas cardiorrespiratórias durante um plantão noturno daqueles. Ela ficou extremamente magoada porque raspamos a cabeça do seu bebê para podermos ter acesso a uma veia que seria vital para o tratamento naquele momento. Agora olhando para trás me envergonho de ter me sentido daquele jeito. Para mim, aquele bebê era um paciente grave que precisava de cuidados mais intensivos para continuar vivo. Para ela ele era o seu filho, com uma falha na sua cabecinha.

Ainda hoje me lembro da vez que tive que sair do CTI para chorar. Era um plantão de sábado, já era tarde da noite. Uma mãe estava com o seu bebê prematuro no colo e cantava “Como é grande o meu amor por você”. Eu nunca tinha visto a real beleza dessa música e através daquela mulher eu pude enxergar. Façam um favor a vocês mesmos: após ler esse texto, tire um tempo para você e escute essa música.

Deixo aqui o meu muito obrigada a todas elas. As que em momentos de desespero gritaram comigo. As que perguntavam mil vezes sobre o mesmo assunto ao longo de um plantão. Aquelas que opinavam no tratamento que era proposto. Aquelas que ficavam mudas e estáticas após ouvirem notícias nada animadoras. Cada uma de vocês me tornou um pouco mais humana.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Renata Batista disse:

    Me emocionei com seu texto.Sou mãe de UTI.Minha filha nasceu prematura com 980gr.Foram 71 dias de internamento.Hoje ela tem um ano,é linda e perfeita.Passou um filme na minha cabeça.Realmente não sei de onde tiramos forças.Obrigada pelas palavras.

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