O casal diante da perda gestacional e neonatal

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Por Fernanda Rangel – 22 Novembro 2016

Quando pensamos sobre perda gestacional e neonatal, a tendência é focar na mulher e nas consequências para ela. Acredito que isso seja influenciado pela importância cultural atribuída à maternidade e entendo que nesse sentido a mulher expresse com mais facilidade a sua fragilidade diante da perda, e também o seu sofrimento. Não valorizamos e deixamos de lado o sofrimento do homem, do pai que também perdeu seu filho. Na realidade, a perda é sentida pelo casal e pode impactar profundamente a vida de cada um. Isso precisa ser identificado e valorizado para que esse momento seja vivenciado pelo homem e pela mulher, com respeito à individualidade de cada um.

Na perda gestacional e neonatal, culturalmente, atribuímos maior valor ao sofrimento feminino, pois, além da perda do filho e tudo o que isso pode significar na vida de uma mulher, também falamos das intervenções ocorridas no corpo dela, é ela que passa pelos procedimentos, seja de um parto ou de um aborto. Então, tendemos a achar que ela seria a pessoa mais atingida nessa situação.

Sem dúvida, existe um impacto profundo na vida dessa mulher, tanto emocional quanto fisicamente, mas não podemos medir e comparar sofrimentos. Ele é único para cada pessoa e influenciado pelo sentido de cada um.  Quem pode medir o próprio sofrimento é só quem o vive.

Assim como falamos tanto sobre a invisibilidade do sofrimento da mulher nesses casos, é preciso ressaltar que mesmo que exista uma dificuldade de reconhecer esse sofrimento, ele é “permitido” culturalmente à mulher. No caso dos homens, o que se espera dele culturalmente é outra coisa: que ele lide com tudo isso de forma racional, seja forte, não chore e não se entristeça, além de ter de ser a pessoa a cuidar da mulher nesse momento difícil. Momento difícil para todos, até para ele. É preciso valorizar o sofrimento masculino diante da perda.

Devido a essas questões, a perda pode ser sentida diferentemente pelo casal e o luto vivido por eles também pode se estabelecer de formas diferentes, cada um dentro da sua realidade e vivendo o que lhes é solicitado, permitido e, muitas vezes, imposto. Dentro dessa relação, podem surgir questionamentos em relação ao homem, ao seu comportamento diante da situação e ao que ele sente: como ele consegue ficar bem? Como ele consegue ir trabalhar? Ele é insensível?

Ao buscar a perspectiva masculina, com base naquilo que se espera dele, podemos pensar como essas perguntas poderiam ser respondidas por eles: “Eu preciso ser forte! Não posso chorar na frente da minha mulher”. “Eu preciso trabalhar para que ela possa ficar em casa, já que ela não consegue sair”. Então, além do luto propriamente dito, o casal precisa enfrentar outras situações, em que a comunicação e a empatia se fazem necessárias.
Assim, o sofrimento, o luto e seus desdobramentos são sentidos pelo casal e perceber e lidar com isso em conjunto pode favorecer a forma de enfrentamento da situação. Deve-se entender que ambos se encontram em busca de mecanismos de enfrentamento, cada um do seu jeito e no seu tempo, e que o respeito ao sentimento do outro deve estar em primeiro lugar.

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