Quando o racismo começa? Infelizmente na infância e dentro de casa

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Por Dra. Danielle Fava – 20 Novembro 2016


Venho de uma família misturada de tudo. Desde cedo, ouvia meus pais falarem que nós, negros, tínhamos que estudar, trabalhar muito, ser muito mais que os outros por causa da nossa cor. Acho que sempre me foquei nisso, mas não de uma forma negativa. Sempre fui a “primeira da classe”, passei em duas universidades públicas, fiz minha pós, sempre tive bons trabalhos, cargos de destaque, enfim, uma vida tranquila e feliz. Se me  perguntarem se sofri racismo, diria que não; não porque de fato não sofri, mas porque nunca liguei para isso, pois o racismo já está instalado na minha casa desde que nasci, pelo comportamento defensivo de sobrevivência dos meus pais.

É incrível como a cada dia que passa as manifestações de racismo estão mais evidentes. Os ataques ofensivos aos negros na internet, por exemplo, me fazem crer que as pessoas que o fazem, na verdade, sentem inveja, sentem medo, gostariam de estar naquele lugar, gostariam de ser diferentes em si mesmos e não conseguem. Quando eu vejo a juventude hoje querendo todos serem iguais, eu fico pensando em como eu fui na minha vida, e como foi que eu nunca me senti prejudicada pelo racismo. Por isso eu digo que nunca o sofri. Porque eu nunca quis ser igual a ninguém. Sempre fui o que fui. Nunca me identifiquei com cor de pele, com cabelo crespo ou não, simplesmente me joguei na vida e fui fazendo o que eu queria e pronto.

O tempo desperdiçado com os ataques racistas poderiam ser aproveitados em prol de crescimento próprio. Quem cuida da cauda do outro, esquece de olhar para a própria cauda. Projeta os seus próprios conteúdos em pessoas que sequer conhece. Como julgar alguém apenas pela cor de sua pele? Apenas por seu país de origem? Pelo seu estado de origem? Pelo local onde mora? As capacidades do ser humano são infinitas, tanto para o bem quanto para o mal e isso independe da cor, da raça, da religião, do quanto ela tem de dinheiro, do quanto ela estudou na vida, do quanto ela viajou, enfim… Nada, nada determina o que fará um ser humano ser bom ou mau. Tudo está dentro de nós. Todos, somos iguais, todos viemos do mesmo lugar e iremos para o mesmo lugar.

As experiências racistas começam na infância, passadas muitas vezes pela família ou pela sociedade. As crianças, por si mesmas, não possuem preconceitos. Passei a ter muito mais certeza pela minha experiência com meu filho. Eu sou casada com um loiro de olhos verdes e quando engravidei sempre houve muita expectativa sobre como seria nosso filho. Inclusive, na sala de parto, esse era o assunto da equipe. Como vai ser essa criança? Vai ser uma mistura muito linda. Meu filho nasceu branco, com cabelo bem preto e liso. A pele dele sempre permaneceu branca, mas ele se queima bem fácil ao sol. O cabelo sofreu diversas transições ao longo do tempo: ficou loiro cacheado e atualmente é um castanho claro liso. Ele é a minha cara, minha cópia. Meu marido costuma brincar que ele não se parece em nada com ele e eu brinco de volta, falando que ele já é branco, que pelo menos se pareça comigo.

Nunca percebi olhares tortos na rua do tipo ser a babá do meu filho. Até porque acho que está na cara que a cria é minha. Quando ele começou a crescer e tomou mais consciência das coisas, eu perguntava para ele que cor a mamãe era e ele respondia branca. Eu entendia isso como ele me vendo da mesma forma que ele. Hoje, com 4 anos, ele já tem consciência das diferenças raciais, das diferenças de gêneros e que todos são iguais. Aqui em casa, criamos nosso filho livre, ele pode brincar de carrinhos e boneca, tem liberdade de ser quem ele é. Não existe o rosa de menina, o azul de menino e nem meninos não choram.

Se trabalharmos as nossas questões internas para ver o que nos incomoda no outro e com isso vencer essas questões, o racismo não se propagará. Apenas absorver as questões culturais sem serem reavaliadas no atual contexto socioeconômico e cultural não cabe. As questões étnicas passadas não são mais compatíveis com atualidade e precisamos rever nossos conceitos dentro dessa nova realidade e educar nossos filhos nesta nova visão.

Simplesmente olhar para o diferente e falar: “ok, ele está lá e não tenho problema com ele, desde que não mexa comigo” não é um posicionamento. Qual a sua visão de mundo, mediante aquilo que é diferente? Se, por acaso, um dia eu tiver que conviver com aquilo que é diferente, como será isso na minha vida? Não vá pensando que isso nunca vai acontecer. Em nossa vida pode acontecer de tudo. Se um negro for teu chefe está tudo bem para você? Ou quando ele tiver que te repreender, você irá ofendê-lo racialmente? E o seu lado gordofóbico como anda? Se uma pessoa gorda senta ao seu lado, você se incomoda por ela ser gorda? Se um japonês consegue um cargo, é porque ele é mais inteligente por ser “japa”? E o tanto de bolivianos que temos aqui no Brasil? Qual a sua opinião sobre eles?

Um grande exemplo: eu tinha um amigo que era gay e decidiu se tornar uma mulher trans. Como explicar esse processo para o meu filho, já que era uma pessoa de grande convívio em nossa casa? Em um momento era o tio fulano, e em outra seria a tia fulana. Portanto, quanto maior forem os nossos esclarecimentos individuais sobre todos os conceitos do mundo atual, menores serão os nossos pré-conceitos e mais esclarecidos serão os nossos filhos para não levarem esses preconceitos adiante.

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