Maternidade e deficiência física

 

Vitória, 01 filha, psicóloga

Desabafo Anônimo: Sou mulher com deficiência física e a maternidade por muito tempo me foi negada socialmente por minha condição . Tive uma gravidez não planejada que me despertou diferentes sentimentos e vivências.

Minha avó teve onze partos normais, nove domiciliares e dois em hospital. Aprendi que para cólica tem chá de funcho, dor de barriga chá de marcela, dor de cabeça/ansiedade, toma um chazinho de laranjeira que tá resolvido. Minha cultura sempre foi voltada ao natural, como quem reverencia a tudo que a natureza faz e nos oferece. Casei com uma pessoa que em sua família o parto normal é motivo de luta e orgulho. Em meio a uma cultura cesarista, o parto normal pra mim era praticamente uma obrigação.

Quando fiquei grávida, mesmo antes de assimilar a complexidade de ser responsável por uma nova vida, na primeira consulta ouvi que meu parto seria normal. Ou seja, não tive nenhuma possibilidade de escolha. Sem saber os motivos, este obstetra disse que não acompanharia minha gestação, mas me orientou a ter meu parto no Hospital C, mesmo que fosse pelo SUS – o que faria com que eu não tivesse um acompanhamento contínuo com os profissionais – pois se acontecesse algo derivado a escolha pelo parto, lá teriam outras especialidades médicas para me atender.
Vulnerável e desamparada, parti em busca de um novo profissional. Na primeira (e também única) consulta a nova obstetra me garantiu que a única via de parto possível para minha condição física era a cesárea e que isto independia de vontades/sonhos. Não aceitei a imposição e, muito menos, a ideia de não ter escolha sobre meu corpo. Lá fui eu em busca de alguém que respeitasse a MINHA gestação.
Logo em seguida tive uma pielonefrite (infecção dos rins) e como ainda não tinha plano de saúde, fui ao Hospital C. Lá passei por momentos muito difíceis, principalmente pela demora no atendimento e o medo de que aquilo pudesse prejudicar o desenvolvimento da minha filha. Tomar medicações fortes e não poder protegê-la, mesmo estando dentro de mim, foi um soco na alma.
Em meio ao medo e a preocupação, comecei a pedir indicação de obstetras aos profissionais de saúde que me atendiam. O nome mais recorrente foi: C. S. Por ser muito requisitado, ele só teria espaço na agenda em um mês, o que seria perfeito, já que teria a liberação do plano de saúde neste mesmo período.
Nisto, já haviam se completado cinco meses e, devido à pielonefrite, estava em licença-saúde desde o terceiro para o quarto mês de gestação.
Lembro que no dia do atendimento eu estava sorridente, que é como me protejo habitualmente, mas apreensiva. Entrei no consultório e posso dizer que foi paixão à primeira informação. Fui tratada como gestante, que tem como característica uma deficiência, que não pode ser ignorada, mas também não sobressalente a minha identidade de gênero.
O plano desde o início foi continuar no parto normal e minha saúde estava ótima. Pensávamos primeiramente em um parto no qual nossas mães pudessem estar presentes. Escolhemos o Hospital M.D. pela forma em que a equipe nos acolheu durante uma primeira visita, pelo fato de permitir a participação de doula (minha sogra é doula) e ter uma sala de parto grande, o que facilitaria também a entrada da minha mãe. Com o passar do tempo recuamos, pois percebemos que este seria um momento nosso, em que queríamos estar conectados apenas a nós mesmos (e, por conhecer toda a equipe, sabíamos que eles respeitariam este momento tão nosso).
Na reta final da gestação, quando completei as 36 semanas, minhas dores de cabeça se intensificaram, o que pode indicar aumento de pressão para pessoas com lesão medular.

A única mulher que tive acesso com uma lesão semelhante à minha (tetraplegia – nível C5/C6), que teve parto normal, me passou o telefone de sua obstetra e, ao conversar com a médica, fui informada que foi necessário realizar a manobra de Kristeller (que é uma pressão feita com força na parte superior do útero para tornar mais rápida a saída do bebê). O obstetra que me acompanhava informou que não fazia este procedimento, já que ele pode causar lesões graves, como fratura de costelas e descolamento da placenta na mãe e/ou traumas encefálicos no bebê.
Com a dor que me deixava insegura, a informação sobre a manobra, riscos mínimos, mas existentes, na resposta da anestesia e muita conversa e esclarecimentos, ao passar das 39 semanas, precisei fazer a escolha mais difícil da vida, preconizar ou deixar que o nascimento da minha filha fosse natural.
O meu egoísmo em escutar os sinais do meu corpo e querer estar inteira no momento em que me tornaria efetivamente mãe, falou mais alto. No dia anterior à cesárea, perdi o tampão (uma camada de muco que fecha a entrada do colo do útero) e com ele experimentei um pouco da cumplicidade entre mãe filha, como se ela me dissesse: “entendo tua decisão!”.

Fui julgada e apoiada, mas hoje, quando me olham atravessado ao falar sobre minha cesárea agendada, só consigo lembrar a cumplicidade do meu marido e da equipe, da minha segurança e serenidade, do CD rodando com as músicas que escutávamos durante a gestação e do cordão umbilical da Lara sendo cortado somente após ter parado de pulsar. Lembro de cheirar, beijar e dizer “a mamãe te ama, minha filha! Eu estou aqui!”.

Minha cesárea representou por muito tempo dor e frustração, mas minha escolha, por mais que possa não ser considerada “perfeita”, foi a que, conscientemente, dei conta de fazer…

Hoje luto para que nossas escolhas, enquanto mulheres, sejam reconhecidas e menos julgadas.

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