Prematuridade e Depressão Pós-Parto

Por Teresa Ruas – 10 Novembro 2016 – Imagem arquivo pessoal Teresa Ruas


Texto retirado do livro Prematuridade extrema: olhares e experiências de Teresa Cristina Brito Ruas da Editora Manolle 2016. Pag 33- 40 e, no final um relato pessoal sobre a experiência com a depressão pós parto.

1.1- A difícil adaptação frente a um ambiente hospitalar e à instabilidade clínica de um bebê prematuro extremo

Barulhos contínuos dos diversos equipamentos médicos, procedimentos invasivos, exames diários, cirurgias, troca de turno, profissionais extremamente diferentes entre si, fisioterapias respiratórias, falta de privacidade… um conjunto de aspectos que caracterizam um ambiente hospitalar e, que, em vários momentos abalam a força interior e a motivação dos pais. A adaptação a esse ambiente é muito lenta e difícil, mas, extremamente, necessária.

A minha adaptação foi muito dolorida. Na primeira semana de vida de Maitê Maria eu não queria encontrar e, muito menos, conversar com nenhum médico da UTI. Eu ia ao encontro de minha filha- uma bebê ainda sem queratina, sem cílios, sem sobrancelha, apenas ossos e mais nada, com os dedos das mãos e pés que pareciam mais de um passarinho do que de um ser humano, toda cheia de fios e mais fios, com os olhos vendados, entubada, com um cateter central para receber a nutrição parenteral e os antibióticos, com uma mini toca em sua cabeça que quase cobria todo o seu corpo e, com uma mini fralda que mais parecia um vestido- e quando eu via que algum médico vinha ao meu encontro, eu, literalmente, saia correndo. Na primeira semana de vida de Maitê Maria, eu não queria ouvir nada do quadro clínico dela e nem queria ser consolada por nenhuma psicóloga e/ou outra profissional daquele espaço. Eu desejava apenas viver quieta e comigo mesma o meu sofrimento, o meu sentimento de raiva e o meu luto diante do nascimento de minha filha. Eu queria apenas chorar e ser acalentada pela minha mãe e pelo meu marido. Ainda mais porque ainda continuava internada, recebendo cuidados especiais diante da infecção bacteriana que ainda não tinha sido controlada.

Penso que por mais que tenhamos que saber sobre a gravidade do quadro clinico de nossos filhos, sei também que temos que ser respeitadas diante do sofrimento vivido naquele momento. Alguns profissionais sabem respeitar e acolher afetivamente melhor esse momento, outros são mais objetivos e mais reais. Como disse anteriormente, convivemos com profissionais extremamente diferentes entre si e, por consequência, com diferentes manejos diante dos sentimentos e das reações expressas pelos pais de UTI.

Além disso, preciso afirmar aqui que o sofrimento vivido pelos pais, especialmente o da mãe, não pode se caracterizar, sempre, como um quadro de doença mental/sofrimento psíquico. O sofrimento é, antes de tudo, a puraexpressão de que estamos vivos e muito feridos ao vivenciar a prematuridade extrema. Expressar choros incontroláveis é sim uma maneira de dizer o quanto o nosso coração está vivo e necessitando de acolhimentos que o encham de esperança e de fé. Portanto, as reações que expressam dor, sofrimento e desespero devem ser, primeiramente, respeitadas e acolhidas e, não apenas caracterizadas como um conjunto de sintomas que delimitam a depressão, o transtorno de ansiedade e entre outras doenças que podem aparecer nos pais de UTI durante a internação de seu filho.

Não nego a importância do diagnóstico médico frente aos comportamentos que nós pais podemos emitir durante o tratamento de nossos filhos. Em vários momentos podemos precisar da ajuda terapêutica e/ou medicamentosa. Eu mesma e o meu marido necessitamos dessa ajuda durante um longo período de tempo, pois não estávamos conseguindo enfrentar toda a angústia e tristeza sentida. No entanto, ressalto a importância primária do acolhimento afetivo e da compreensão dos sentimentos- tristeza, ansiedade, medo, culpa, insegurança- como sendo a real expressão da vida, ou seja, daquele momento vivido e, não apenas como um quadro de sintomas que delimitará um quadro de sofrimento psíquico.

Como profissional de saúde, diante de toda essa experiência vivida, refleti muito sobre as formas de manejo que temos com as pessoas que necessitam de nossa ajuda terapêutica. Não podemos olhar os pais, as mães e os bebês apenas como um conjunto de sinais e de sintomas. Precisamos olhar os pais, as mães e os bebês como pessoas que estão lutando diariamente para expressar mais vida, apesar de todas as dificuldades. E essa reflexão deve ser feita, diariamente, por todos os integrantes de uma equipe hospitalar e por todos os futuros profissionais de saúde que, nesse momento, estão lendo esse relato de experiência diante da prematuridade extrema.

No entanto, é inegável que também necessitemos saber sobre o quadro clinico de nossos filhos. Por mais penosa e dolorida que seja essa primeira experiência, essa hora chega.

E para mim chegou, fazendo um estrago afetivo. Dr. Felipe disse: “Eiii…eiiii… mãe de Maitê Maria, hoje você não foge de mim e nem das informações que necessito te dar sobre sua filha. Afinal, essa bebê é sua filha, não é? Como médico, eu preciso dar as informações para as pessoas corretas. Essas pessoas são os pais dela. Então, comece a exercer o seu papel de mãe e fique aqui para escutar tudo o que eu preciso dizer. Sei do seu sofrimento, mas o meu papel é te manter informada sobre tudo o que acontece com sua filha.

Ao ouvir tudo aquilo, fiquei estática. E tenho que afirmar que nunca mais esquecerei nenhuma dessas palavras, pois, além delas me provocarem

susto, raiva, ódio, angústia e medo, elas me mobilizaram como mãe. Acho que até aquele momento, estava em luto pela não experiência de uma gestação completa e não estava me posicionando como uma mãe que tem o dever de saber sobre o estado de sua filha.

Sim, aquelas palavras não me acolheram afetivamente e me provocaram um ódio e um temor muito grande do Dr. Felipe, mas me impulsionaram a me transformar em uma mãe mais forte e mais corajosa diante de todo aquele ambiente e rotina hospitalar. Senti de uma maneira bem ‘real’ e ‘dolorosa’ que eu era uma mulher, uma adulta e uma mãe. O Dr. Felipe tinha conseguido, com suas palavras objetivas, me demonstrar o quanto ele precisava que eu me comportasse como uma adulta. Uma adulta capaz de enfrentar situações difíceis, amadurecer e, ao mesmo tempo ter esperanças.

E diante de diversas conversas com toda a equipe, em menos de um mês de internação, já havia compreendido o quão diferente os profissionais eram entre si e o quanto nós pais tínhamos que nos adaptar. No começo essa diferença me entristecia, mas depois fui aprendendo a utilizá-la a meu favor. Por exemplo, quando estava muito triste e muito frágil recorria às enfermeiras com quem tinha mais empatia, mais confiança e, realmente, as que ficavam tempo integral com Maitê Maria. Nos momentos das difíceis notícias médicas, recorria ao acolhimento afetivo nos braços de profissionais os quais os enxergava como pais, avós, ou seja, pessoas nas quais podia confiar como se fossem os meus familiares. Nas situações em que a angústia, a ansiedade e o pessimismo tomavam conta de mim, procurava profissionais objetivos e até mais duros para me darem um chocalhão e eu conseguir seguir em frente. Sempre necessitei de palavras mais ‘duras’ e ‘reais’ para me impulsionarem e, assim, conseguir sair do pessimismo, da angústia e me fortalecer novamente.

Portanto, aos poucos os profissionais temidos e odiados, especialmente os médicos, passavam a ser também um recurso afetivo importante durante a internação. E ao longo de tantos meses juntos, passávamos até a conversar assuntos diversos, como, por exemplo, filmes e lugares interessantes para viajar. Consegui dar boas gargalhadas com muitos médicos, fisioterapeutas, enfermeiras, fonoaudiólogas, nutricionistas e os técnicos de enfermagem. Realmente formamos no hospital, momentaneamente, uma família. Pessoas que passam a fazer parte do nosso dia a dia, da nossa rotina e os grandes responsáveis por cuidarem e zelarem pelos nossos filhos.

Não estou dizendo que iremos nos simpatizar e gostar de todos os profissionais e vice- versa. Estou afirmando que temos que conhecer as qualidades e características dos profissionais que são os responsáveis pelos nossos filhos e utilizarmos cada particularidade a nosso favor e em momentos certos.

E também fui aprendendo que se não ocorresse a empatia entre pais e profissionais, a relação não fluía. E isso é um aspecto normal e esperado em todas as relações humanas. Porém, quando estamos em estado de tensão e estresse a simples falta de empatia pode significar falta de carinho, falta de atenção, falta de paciência, entre outros, com os nossos filhos.

E isso aconteceu comigo várias vezes. Com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Aprendi que pais e crianças de longa permanência merecem ter, ao máximo, os mesmos profissionais por perto. Isso é extremamente benéfico para a saúde afetiva da criança e dos pais. E felizmente a equipe do Einstein compreende e respeita essa relação de proximidade entre os profissionais de referência para cada criança e família. E os momentos das reuniões entre profissionais e pais servem também para os pais exporem os seus sentimentos e sensações sobre toda a equipe e, aos poucos, conseguirem se adequar a uma condição mais harmoniosa possível para pais e criança.

Essa abertura entre pais e profissionais é extremamente importante e um dos recursos/fatores que mais fortalecem a confiança dos pais. E pais mais confiantes são pais mais calmos e menos ansiosos. Nos dias em que estava menos ansiosa e mais confiante na equipe, eram os dias em que suportava melhor as oscilações clinicas de Maitê Maria.

Isso porque viver o mundo da prematuridade extrema é viver, diariamente, as oscilações e as instabilidades clínicas de seu filho. Essa característica, comum a todo prematuro extremo, foi para mim e Marcel um dos aspectos mais difíceis de suportar, porque vivíamos em uma montanha-russa, com altos e baixos, todos os dias.

Entrar na UTI na parte da manhã e receber uma noticia boa é algo inexplicável. A alegria é tão grande que nos enchia de esperança e de força. No entanto, lembro-me de infinitas vezes em que a enfermeira nem acabava de me dar a noticia boa e Maitê Maria já estava apresentando um outro quadro, completamente diferente do pontuado pelo profissional. O oposto também ocorria, ou seja, recebíamos uma noticia ruim à tarde ou à noite e, em alguns dias e/ou horas esse quadro melhorava.

Essa instabilidade clínica, a espera pelo tempo de maturação, o respeito pelo ritmo que o seu filho apresenta é extremamente difícil e muito dolorido. Às vezes, eu não acreditava no que os médicos falavam, por exemplo, diante das atelectasias pulmonares que pareciam não ter fim. Foram milhares de episódios de atelectasia pulmonar. E os médicos sempre diziam a mesma coisa: “ Esse quadro é esperado para a idade gestacional que sua filha nasceu e temos que respeitar o tempo de maturação pulmonar que ela apresenta. E essa fala se repetia para tudo: para as quedas ‘absurdas’ desaturação, para o longo tempo de entubação, cpap, dependência de oxigênio, para as infecções, entre outras condições.

Respeitar e aceitar o ritmo de desenvolvimento e de maturação que o prematuro extremo apresenta foi para mim o aprendizado e a vivência mais sofrida. Tive que apertar o ‘botão’ da calma, da paciência, da aceitação e bloquear o ‘botão’ do imediatismo contemporâneo e do sentimento de que tudo pode ser perfeito e ‘certinho’. Tive que aprender a viver, verdadeiramente, o carpe diem, ou seja, um dia de cada vez, uma conquista de cada vez, uma etapa de cada vez. Tive que aprender a viver o presente e a não me angustiar e/ou planejar o futuro e todos os caminhos a serem trilhados como mãe e pela minha filha.

Viver um dia de cada vez e não planejar o futuro pode até ser muito lindo na teoria; na prática, é uma experiência extremamente difícil, mas muito transformadora. Transformadora porque somos uma geração de adultos que queremos tudo para ontem. Não fomos educados a esperar, a dar tempo ao tempo e a não planejar. Somos, sim, adultos imediatistas e, por consequência, pais imediatistas.

A prematuridade extrema e suas instabilidades clinicas vem nos ensinar que a vida pode, sim, ser vivida por etapas, por fases e, que de pouco em pouco, alcançamos o resultado final. Aprendemos a valorizar muito mais o processo, do que o produto final. Aprendemos a lidar melhor com o sentimento de calmaria, de solidão, de impotência e de frustração. Penso que nos tornamos menos egoístas e adultos mais conscientes do significado, mais verdadeiro, sobre o processo da vida. Uma vida que tem que ser construída e experimentada aos poucos. Uma vida que não vem pronta; pelo contrário, tem que ser construída com muita luta, muita força, muita esperança e também com muitas frustrações.

Colocação minha e que não está no livro- E, justamente, tendo vivido esse aprendizado de que a vida não é nada fácil e constituída por muitas dificuldades e lutas é que estou vencendo a depressão pós- parto, diante do nascimento do meu segundo filho prematuro, Lucca. Enquanto a incubadora e todos os equipamentos para manter a sobrevivência de prematuros são barreiras físicas e que impedem a relação entre mãe e bebê, a depressão pós parto é uma barreira afetiva e psicológica que dificulta e, em alguns casos mais graves, até impede a relação entre mãe e filho.

E da mesma forma que nos sentimos vazios diante de todos os acontecimentos e características de um nascimento prematuro extremo, nós, mães que passamos por qualquer quadro de depressão pós parto, nos sentimos oca por dentro e, com uma culpa que nos aniquila interiormente. Não conseguir se vincular qualitativamente bem com o seu bebê é uma das maiores dores que uma mãe pode sentir. Porque nenhuma mãe escolhe ou gostaria de ter um quadro de depressão pós-parto. Depressão pós-parto não é uma escolha, uma frescura, uma fraqueza é, antes de tudo um quadro de doença psíquica e que precisa receber toda a atenção, acolhimento e compreensão médica, ambiental e familiar.

O que já posso afirmar é que se os sintomas, tais como: irritabilidade excessiva, variações bruscas de humor, falta de energia e/ou vontade de cuidar do bebê, vontade frequente de chorar, falta de energia para realizar as atividades diárias, entre outras, são verificados imediatamente pela mulher e comunicados para uma equipe médica, a depressão pós-parto terá um curto prazo. Ou seja, todos esses sintomas terão um fim e tudo passará. Mas para isso é preciso que a mulher não tenha vergonha ou medo em comunicar o que está sentindo e, que aceite a medicação indicada pelo ginecologista e psiquiatra.

Sabemos o quanto são esperados esses sintomas no período do baby blues, ou seja, nos primeiros momentos e meses do pós-parto em toda e qualquer mulher, até mesmo diante da variação brusca dos hormônios femininos. Porém, a qualidade dos sintomas e, que caracterizam a depressão pós-parto, é muito mais severa e contínua durante o dia a dia com o bebê, sofrendo, inclusive, uma influência direta da variação hormonal. Ou seja, todas as mulheres estão sujeitas a um quadro de depressão pós-parto, justamente diante das mudanças hormonais características do pós parto. O que impedirá que os sintomas do baby blues se agrave é justamente a qualidade do ambiente e do contexto que a mulher está vivenciando. Toda mulher em seu pós parto precisa ser devidamente acolhida, compreendida e amada. Na minha experiência, afirmo que um ambiente de afeto e acolhimento são os principais remédios contra a depressão pós parto. No meu caso, estar longe do meu marido- trabalhando no exterior para manter o sustento da família-, ter vivenciado uma segunda gestação de risco, enfrentar todo o período de internação na UTI Neonatal do Lucca sozinha, além de ter a Maitê Maria com 3 anos, foram eventos ambientais que me enfraqueceram e que possibilitaram que os sintomas do baby blues se intensificassem, tornando-se um quadro de depressão pós-parto.

A ajuda medicamentosa e terapêutica é de extrema importância e o quanto mais precoce acontecer, menor será o período de sofrimento que a depressão pós-parto causa. As mulheres que estão lendo esse relato agora e que estão com algum sintoma da DPP, tenham a certeza de que a depressão pós parto tem cura e pode passar rapidamente. Mas para isso é preciso o tratamento correto e o diálogo aberto com toda a equipe médica e familiares.

No meu caso, os sintomas mais severos tiveram a duração de 1 mês. Após a medicação correta e as terapias, os sintomas começaram a ficar mais brandos e a minha energia e o meu desejo em me vincular com o Lucca voltaram.

Nesse pequeno relato sobre a minha experiência com a depressão pós parto, apenas quero afirmar que ela tem cura e que passa. E, com certeza, falarei desse assunto de forma mais aprofundada aqui no Temos que Falar Sobre Isso e, em outros veículos, como no meu blog Minha Teoria na Vida.

Um grande abraço, Tete, Maitê Maria e Lucca

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