Quando precisamos da UTI Neonatal

Por Fernanda Rangel – 14 Novembro 2016

Uma caixa transparente onde bebê está dentro (incubadora), monitor mostrando vários números e que apita muitas vezes, bombas de medicação e alimentação em volta da incubadora, tubo para respirar, bala de oxigênio, sonda para comer, fios do sensor do monitor preso ao bebê, luz roxa (fototerapia), incubadora molhada por dentro (umidificada), mais alarmes, pessoas andando para todos os lados. Esse é o ambiente encontrado pelos pais quando chegam a primeira vez em uma UTI neonatal. Um lugar difícil de imaginar para quem nunca entrou ou precisou dela. Esse é o lugar que muitos pais precisam conhecer e frequentar durante muito tempo.

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Imagem do livro Prematuridade extrema: olhares e experiências de Teresa Cristina Brito Ruas – Ed. Manolle 2016

Além de terem que lidar com tudo isso, os pais também precisam lidar com todo o universo que os acompanha, suas histórias, expectativas, dúvidas e medos. Que levam para dentro desse ambiente. O que está em jogo não é unicamente o bebê prematuro, mas seus pais e também a relação entre eles. As questões clínicas, as tecnologias e aparelhagem são importantes, mas devemos entender principalmente que a noção de cuidado e cuidar implicam em enxergar muito mais além do que as questões clínicas que envolvem cada bebê.

Ter um bebê prematuro na UTI é sim um momento de crise e de grande conflito experenciado por essas famílias e é primordial pensar nas famílias que alí estão e o que elas levam para dentro da UTI neonatal e que podem determinar e interferir no modo de enfrentamento do momento de crise vivido.

Para entender todo esse universo que compõe a prematuridade, a UTI neonatal, e as relações estabelecidas nesse ambiente, é preciso considerar fatores que se estabelecem muito antes de se pensar na possibilidade de viver essa experiência. É preciso considerar algumas questões que dizem respeito a maternidade e a paternidade. A formação como pais inicia muito antes de acontecer a gestação. Ela se dá através das experiências ao longo da vida, no comportamento e sentimentos de cada um e no entendimento do que é ser mãe e do que é ser pai. A partir dessa noção já estabelecida, quando a gravidez acontece, novas situações se apresentam, como as expectativas e as definições de novos papéis na família. Em cada período gestacional a família vai se adaptando e se preparando para receber o novo bebê que irá chegar, onde é iniciada a formação do vínculo e o reconhecimento de si mesmo no desempenho desse papel. Não podemos esquecer que esse momento é perpassado por dúvidas, seja em relação a competência em gerar e criar um filho, ou sobre o momento ideal para gerar esse filho.

Ao pensarmos em um bebê prematuro, também podemos entender que estamos falando de pais prematuros, que não tiveram tempo suficiente para a elaboração e preparação para receber esse bebê tão diferente daquele que esperavam. Esse momento inicial de adaptação não é só ao filho que chegou, mas também de uma nova organização de vida diferente daquela que foi planejada e desejada. É preciso pensar em questões que normalmente não passa na cabeça de qualquer mulher ao engravidar, como se organizar para acompanhar um bebê na UTI neonatal? Como deixar meu filho no hospital e ir para casa? Sem contar todo o ambiente novo, de aparelhagens, medicações, instrumentos que também é preciso se adaptar.

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Imagem do livro Prematuridade extrema: Olhares e experiências de Teresa Cristina Brito Ruas – Ed. Manolle 2016

Além de tudo isso, existe uma questão primordial que não deve ser esquecida e está relacionado ao vínculo dos seus pais com seu bebê, a formação e construção dos laços nesse contexto da UTI neonatal. Já sabemos da importância da participação dos pais nos cuidados com seu filho logo ao nascer, e do desejo materno em estar com seu bebê e oferecer tudo aquilo que ele precisa e que muitas vezes no contexto da UTI neonatal não é possível. Estamos falando de sentimentos de fracasso, de incapacidade em realizar os cuidados vivenciados por todos os pais. Considerando ainda que muitos desses pais trazem consigo um sentimento de culpa, pois procuram entender o que fizeram e o que deixaram de fazer para que o bebê nascesse prematuro.

Ao longo da internação, com maior adaptação ao ambiente e ao bebê que está alí, aos poucos essa interação vai aumentando e o enfrentamento pode ser muito facilitado por isso. Não devemos esquecer o maior medo desses pais: o medo da morte. A morte é algo que permeia o imaginário dos pais que acompanham seus bebês na UTI neonatal e ver seu filho precisando de tantos cuidados para se manter vivo, a grande preocupação de que algo possa falhar é enorme.

Em se tratando de bebês prematuros, o curso do desenvolvimento desses bebês varia muito e pode ser acompanhado de várias intercorrências, como a queda de saturação, anemia, infecções entre outras coisas, e que precisam ser enfrentados pelos bebês e pelos pais. Muitas vezes, a sensação é que as coisas não andam, não saem do lugar e não há melhora dessa situação. O estresse e ansiedade pode ser uma constante dentro desse ambiente e o comportamento dos pais em grande parte do tempo é influenciado pelo estado de saúde dos seus filhos.

Embora a ida para casa seja o que todos desejam desde o começo, ela é cercada por várias dúvidas e preocupações quanto a capacidade de cuidar de um bebê que precisa de tantos cuidados diferenciados e terá um acompanhamento e rotina diferente. Nesse sentido, é primordial a presença dos pais nesse ambiente junto ao seu filho, para que cada vez mais se apropriem da rotina e fortalecimento dos laços e inicie precocemente a interação entre eles, pois afinal esse bebê é dos pais e eles precisam estar cada vez mais seguros para que essa relação que foi inicialmente prejudicada devido a internação seja vivenciada da melhor forma quando a ida para casa acontece. A UTI neonatal é um momento transitório, mas que estará para sempre marcado na vida dessas pessoas que alí passaram.

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