Desculpe o transtorno, Excelência

Luise Bravo, advogada voluntária do Temos que falar sobre isso


Desabafo Anônimo: Ontem, advogando em causa própria, fui fazer uma audiência. Como a Maria ainda mama muito no peito, levei-a comigo – inicialmente o Marcio iria junto, mas acabou não dando tempo dele chegar.
Maria, como sempre, muito sorridente, simpática e brincando com todos. Chegou a hora da audiência e, assim que entrei na sala, fui comunicada pela juíza leiga de que não poderia ficar com a minha filha dentro da sala, POR DETERMINAÇÃO DA JUÍZA TOGADA, que proíbe a presença de menores em audiência.
Eu e os outros advogados ficamos perplexos, ninguém nunca havia visto algo assim.
A juíza leiga surgiu com a brilhante ideia de deixar a Maria lá fora, com um estranho, pra não ter que remarcar – o que obviamente não aconteceu.
Bem, ficamos ali, aguardando a audiência ser redesignada; a Maria continuou rindo e brincando com todos; os advogados sem acreditar também na redesignação. E eu?
Eu assisti a um daqueles tristes momentos em que a justiça se perde; vi uma audiência NO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL deixar de acontecer, porque minha filha não poderia estar presente (minha filha de oito meses, um bebê de colo); vi os princípios orientadores do JEC serem deixados de lado e meus direitos constitucionalmente garantidos esvaindo-se em uma determinação.
Ficamos ali por 20 min, esperando a redesignação. Presentes as partes, a juíza… Tudo como aconteceria na audiência que, por uma formalidade absurda, não aconteceu.

A Maria é uma criança tranquila. Mas ainda que não fosse, me pergunto aonde fica o direito daqueles que não tem com quem deixar seus filhos.
Meus pais são advogados e cresci sendo levada à muitas audiências, porque muitas vezes simplesmente não tinham com quem me deixar.
Tenho constatado, a cada notícia, a inconveniência que as crianças ainda trazem – AINDA em 2016 – e em como são tratadas à margem de todos os direitos, já que em criança pode bater, gritar, sacudir, castigar, ameaçar, proibir a entrada em restaurantes… que tudo bem!
Ontem, vivenciando a minha experiência, e falando como mãe: meu amigo, NÃO ESTÁ TUDO BEM!
Minha filha não é um objeto para ser deixada com alguém que eu não conheço do lado de fora. Não é uma bolsa, um celular, um brinquedo, uma caixa de som barulhenta… É uma criança, a minha filha, a minha responsabilidade com amor, muito amor!

Uma justiça que deixa de lado seus próprios princípios, ignora não só a informalidade, celeridade e economia processual; ignora as pessoas e seus problemas reais, à parte de regras e regulamentação.
Aqui, eu tô falando de gente, de necessidade, de problema de verdade.
No mais, desculpe o transtorno, Excelência, mas minha filha está fora da sua competência.

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1 comentário Adicione o seu

  1. cabecadefrade disse:

    Cada dia mais eu me pergunto, que justiça é essa que temos aqui??? Que ignora que uma criança é parte (importantíssima!!!) da sociedade?
    Estou em choque, Luise. Te entendo e envio a ti minha compaixão.

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