A Escola de Princesas e o (des) princesamento necessário

Por Ellen Barros – 07 Novembro 2016


A ONG Save the Children publicou uma pesquisa apontado o Brasil como o pior lugar na América Latina para ser menina. Os critérios que os levaram a essa triste constatação, incluem variáveis como: acesso à Educação Básica, baixa representatividade na política, gravidez na adolescência, casamento na infância, entre outras coisas. Em resumo é melhor ser menina na Índia do que para as bandas
 de cá.
E aí, mal tivemos tempo de digerir, o que diariamente constatamos na prática, somos surpreendidos por uma matéria do jornal Estadão (custei a acreditar que não era coisa do Sensacionalista), dando conta de informar que franquias de “Escola de Princesas” estão se instalando no sudeste do Brasil a todo vapor, cobrando caro e com lista de espera para matrícula. Pensei “Uai, mas que curioso, estamos longe de sermos uma monarquia, vivemos sob a égide de um Estado Democrático que nos nega direitos a todo momento, onde a educação formal nunca foi prioridade, onde ainda precisamos lutar por tanta coisa, para que raios uma escola de princesas?” Ou isso vem como mais um produto do combo “Retroceda 50 séculos da história em 5 meses”. Depois de me responder “por que”? eu precisava entender “para que” e em seguida “para quem”.  Precisava ir afirmando algumas coisas, para continuar lendo a matéria e, aos poucos, as respostas foram ficando cada vez mais óbvias. A escola tem como objetivo resgatar supostas habilidades que a mulher moderna haveria “perdido”, com a sua inserção no mercado de trabalho, tais como: administração do lar com esmero, saber pregar um botão, o recato, as boas maneiras, etiqueta à mesa, etc.
Meninas entre 04 e 15 anos, e somente elas, frequentam a réplica de um “mini castelo cor de rosa”, para aprender “habilidades” que lhes garantam na vida adulta um casamento de conto de fadas e lhes prepare para serem “Belas, Recatada e do Lar”.
Para não concluir absolutamente nada, até mesmo para respeitar o direito de quem acredita ser esse um caminho possível, eu queria refletir sobre:

– O recorte sexista do empreendimento;
– A adultizacão precoce de garotas, que deveriam estar ocupadas brincando, estudando e não pensando em se tornar barbies em série;
– A terceirização da educação pelo comércio, ignorando o fato de que algumas coisas ainda se aprendem em casa;
–  A impossibilidade dessas garotas escolherem somente em tempo hábil o que elas desejam para as suas vidas;
–  O reforço à ideia de subserviência feminina;

– A inclusão de mais uma atividade a agenda lotada de afazeres que incluem além da escola, esportes, línguas, kumon, ballet, etc.
– O recorte classista.  “Comercialmente eu educo mulheres brancas e ricas”, para utilizar-se da fábrica de mucamas que saem das periferias?
–  O desrespeito ao pleno desenvolvimento infantil, quando de maneira caricata, eu afronto o direito à fantasia e vendo isso como uma realidade possível de ser alcançada por todos.

Por fim, é prudente esclarecer que:

Crianças quando reproduzem o mundo imaginário, vestindo-se de princesas e super-heróis, estão apenas exercendo o seu direito legítimo de BRINCAR.
No mundo em que vivemos, duvido que exista “mercado” para princesas, no máximo você emperrará no papel de gata borralheira, acumulará múltiplas funções e sofrerá angústias existenciais que podem te adoecer.
Vivemos em um mundo de 7 bilhões de pessoas e nesse mesmo mundo sobrevivem AINDA apenas 28 monarquias e mesmo assim, “caindo das pernas”. Ainda assim, princesas e rainhas precisam entender de comércio e finanças, política, geralmente cursam o ensino superior, são poliglotas, gerenciam conflitos, etc.
Até os estúdios Disney tem repensado o perfil psicológico das suas princesas. É só observarmos a “Valente Mérida”, ou a empoderada “Mulan”.
E assim, deixo a minha apologia ao direito da mulher ser quem e o que quiser, sendo oferecida a ela toda a oportunidade e informação possível, sem modelos previamente impostos para atender objetivos escusos e duvidosos que só reforçam estereótipos que lutamos todos os dias para derrubar e que não sejamos enganadas por essas falácias comerciais.

Ellen Barros de Mattos
Psicóloga 01/18688
Brasília – DF

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