A dor da perda gestacional

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Por Thaisa Infurna – 02 Novembro 2016

Imagem da fotógrafa Juliana Mendonça SantosModelo: Janaina Bassan


Falar sobre a dor de perder alguém é algo complexo, difícil, requer sensibilidade, requer coragem para colocar pra fora o que nem sempre pode ser explicado ou colocado em palavras. Coragem para se expor, desnudar-se, deixar que outros consigam perceber (mas nem sempre entender) o que se passa no seu íntimo, na sua essência. E falar sobre perda gestacional pode ser ainda mais complexo, uma vez que ainda persistem muitos tabus entorno do tema.

Eu vivi quatro perdas gestacionais. Foi uma época difícil. Não só pra mim e para meu marido, mas para minha família e amigos mais próximos, pois poucas pessoas conseguem ou sabem lidar com situações dessa natureza. Não é fácil para ninguém e pode ser mais ou menos penoso para os protagonistas da história. Tudo vai depender do suporte que receberão, em todos os sentidos.

Não importa a etapa da gravidez. Toda e qualquer perda é um baque, é inesperada, não é fisiológica, não é natural. Ninguém está preparado para receber essa notícia e a forma como encaramos essa dor é muito pessoal, livre de pré julgamentos, de receitas, de moldes. Só quem realmente vive a dor de perder um bebê sabe o que é receber essa notícia (novamente, não importa a etapa da gravidez). Um bebê desejado é um sonho a ser concretizado muito antes de um positivo e ter esse sonho interrompido abruptamente pode ser equiparado à uma ferida profunda aberta no nosso peito. É extirpar da gente o que, por um tempo, determinou o ritmo e as escolhas dos nossos dias, é ter arrancado pensamentos e memórias que ainda nem vivemos, mas que já foram sonhadas, nos menores detalhes.

O solavanco, o baque recebido é grande. Muito grande. Por vezes, desumano, até. E por essa razão, devemos viver o nosso luto em toda sua plenitude. Sem pressa, sem pular etapas, sem comparações. Somos seres individualizados, com bases familiares distintas, criações e culturas diferentes, portanto não há espaço para comparar a dor de uma pessoa com a da outra. Não existe isso. Acolhimento é a palavra de ordem. Um abraço apertado, uma palavra amiga, um ouvido emprestado, um ombro para chorar ou simplesmente um silêncio compartilhado ou respeitado. É isso. É empatia, é solidariedade. Não precisamos de muito. O resto fica a critério do tempo, do apoio mútuo entre marido e mulher, da força da nossa fé.

A Trombofilia foi a grande responsável pelas perdas que vivi e infelizmente, a maioria das mulheres com esse mesmo diagnóstico, já viveu, ao menos, uma história de perda gestacional. É dessa forma que acabamos descobrindo a condição. Por isso acho importante abordar esse tema tão delicado. Mostrar que não estamos sozinhas em nossas jornadas, que nossas histórias se confundem e que a nossa força é o principal fator motivador para seguir adiante, para acreditar e buscar superar, ou melhor, cicatrizar aquela ferida aberta e latente.

Seja um óbito fetal tardio ou perdas de repetição, a dor da perda é dura, intensa e pode desestruturar uma família, um relacionamento, ao mesmo tempo que também pode aproximar ainda mais os envolvidos. O mundo pode perder a cor por algum tempo, mas a gente sobrevive. De uma forma ou de outra, a gente supera, cicatriza e segue adiante. Não esquece.

Encontrar uma rede de apoio nessas horas é essencial para que possamos nos fortalecer. Conversar com pessoas que viveram situações semelhantes pode ser um divisor de águas para quem vive uma fase mais aguda, uma dor mais intensa. Foi na dor que encontrei algumas das pessoas mais especiais da minha vida. E esse é o meu maior conselho para quem vive algo parecido hoje em dia. Busque conversar ou conhecer alguém que passou ou ainda passa por uma dor próxima da sua. Faz diferença. Juntas, costumamos ser muito mais fortes e o caminho se torna menos penoso, fica um pouco mais fácil enxergar algo a frente.

Fé, acima de tudo, porque ela não costuma falhar.

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