Quero … principalmente calar a voz da minha cabeça que quer me destruir

Beatriz, Grávida de Primeira Viagem. 20 Anos.

Desabafo Anônimo: Eu não sabia aonde postar e comecei, primeiro procurando histórias como a minha, mas não sabia como descrever a minha posição.
Eu sou mãe. Estou grávida de quase sete meses de um cara que já tem outra família. Eu sou a mãe “de segunda”, na minha cabeça, a outra. Ele sempre diz que eu sou a família dele e que juntos, eu, ele e o nosso menino, vamos ser felizes etc. Mas não me sinto assim. Não pelo meu histórico de destruidora de famílias, de pegadora ou depressiva. Sinto, ainda, que esse lugar não é meu.

Meu pai, assim que descobriu que eu estava grávida, disse que eu engravidei só para poder ficar na mesma posição que a ex-namorada do dito cujo. Não era verdade, eu sequer queria ficar grávida e vacilamos mesmo. Eu tentei abortar e não consegui, de jeito maneira, tanto que o meu menino é super saudável e está se desenvolvendo perfeitamente. Eu acho que vou acabar apelando pra um acompanhamento psicológico e voltar pra’quele jogo de casas onde você faz mais de dez consultas, continua um bosta e eles te encaminham pro psiquiatra. Até aí eu já não sei, pois eu fugi, temi que eles me dopassem com remédios pra dormir.

E eu choro de vez em quando, quando eu paro pra pensar que eu engravidei de um cara que já tem filho e uma ex-mulher ainda louca por ele. Louca a todos os níveis, capaz de qualquer coisa, de inventar histórias, dizendo que eu ando ligando pra ela só pra atormentar. Choro por ter medo de me tornar uma obsessiva, colar o bebê em mim e mandar o pai dele pra longe. Choro pensando na dor que passo agora, na lentidão do terceiro trimestre que vai mais devagar pra deixar ainda mais em evidência o quão pesado é o peso da responsabilidade em ser mãe.

Eu tô com medo… Tenho vinte anos e uma série de fracassos, mas até que tô levantando minha vida. Aí aparece umas barreiras tipo a minha mãe dizendo que eu não faço nada pelo meu filho, dizendo que os trapos que eu comprei não valem de nada. Aparece as coisas que meu irmão mais velho me disse, sobre meus sonhos que não dariam mais pra serem realizados. Aparece a sequência dos estereótipos da família tradicional brasileira, que insistem em me taxar como a outra. A minha cabeça não para de falar, meu coração ainda sente que eu errei, ainda que eu esteja feliz com a criança, tenho ódio em saber que ele terá de dividir atenções aqui e lá, comigo e com ela, com o meu filho e a outra filha dele.

Não culpo a criança, não culpo a ex-mulher louca… Difícil eu não culpá-lo mas é complicado meter na cabeça que você “cumpre tabela” transando todo dia sem camisinha e simplesmente ela aparece grávida (obviamente) e ainda assim, você bater na tecla de que a sua relação é uma merda. Tenho medo de passar algum desses sentimentos idiotas pro meu filho. Não quero que ele seja inseguro como eu, medroso como eu. Me sinto numa sinuca de bico, a vida real batendo na minha porta e na minha cara, esfregando que dinheiro é importante sim, que não tenho mais tempo e nem escolha a não ser ir lá e fazer alguma coisa sem pirar.

Dinheiro, o maldito dinheiro. Estamos desempregados e eu não tenho um centavo pra fazer um chá de bebê, pra fazer qualquer coisa. Tô comprando coisa usada, tentando me planejar com 200 reais mensais e ele não consegue arrumar nada em lugar algum. Eu nem posso participar de nada. Grávida é um zero a esquerda, nem em um escritório eu posso trabalhar. Além de surda, inapta pra trabalhar num maldito call center, o máximo que eu tenho é um técnico em canto, um cursinho merda de informática e design gráfico e meu reles ensino médio. Trabalhar agora só ano que vem, depois de uns dois meses, e ainda assim acho muito.

Não quero que meu filho pense que eu não o amo. Quero dar todo o amor que eu não tive, toda presença que não tive, tudo exatamente o que não tive. Escolhi seu nome categoricamente para homenagear um ídolo meu, Michael. Se eu ainda tiver a sorte de conceber um ser tão iluminado quanto Michael Jackson foi, ficaria mais do que feliz. Eu quero amar esse ser muito mais do que amo esse ídolo.

Eu não quero desprezar ninguém. Não quero sentir nem ódio e nem desespero. Não quero sair correndo e quero, pelo amor de deus, parar de chorar. Quero acreditar nas palavras do meu namorado, e principalmente calar a voz da minha cabeça que quer me destruir. Quero passar logo pelas dores do parto, ter meu bebê nos braços e ter a certeza de que com ele eu vou ser forte o suficiente pra fazer tudo sozinha, sem ouvir e nem pedir nada a ninguém. Quero poder não culpá-lo por algo no futuro, quero só seguir em frente, deixar lá essa coisa nostálgica das baladas, pegação e privacidade que eu tinha, sem dar nenhuma satisfação ou estar atada a algum compromisso.
Quero assumir o que fiz, não como um erro, mas com muito amor e reconhecimento, não ouvindo os demais, sequer a mim mesma.

2 comentários Adicione o seu

  1. Márcia disse:

    Esqueça o passado. Foque no seu filho, na felicidade dele. O seu filho não tem culpa do que vcs fizeram. Procure auxílio psicólogico, assistente social, não tenha vergonha, e não desista do tratamento. Prefira um psicólogo do que um psiquiatra. Psicólogo resolve sim. Psiquiatra só em.último caso. E independente de vc é o pai do seu filho ficarem juntos ou não, foque no seu filho. Sou mãe e sei que vc não vai se arrepender. Filho é tudo de bom.

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  2. Anônima disse:

    Bom dia anônima.
    Sabe, estou em uma situação semelhante e também quero ser uma anônima aqui.
    Queria começar te pedindo pra entender que a outra muito provavelmente não é louca. Pelo que entendi foi ele mesmo quem jogou com ela e com você é acabou deixando ela assim e se você não se cuidar pode deixar você também. Isso se chama gaslighting, é um crime contra a mulher que muitos homens, principalmente os infiéis cometem.
    Comigo não é muito diferente. A fulana vive me perseguindo e anos atrás chegou a me ameaçar de morte. Porém eu fui a “ex louca” primeiro e ela “a outra” e anos depois estou sendo a idiota que voltou pra merda e se lambuzou bem dessa vez. Tentei até me matar, mas não consegui e a gestação segue firme e forte. Ainda não contei pra ninguém além dele sobre o feto/bebê (penso em continuar tentando abortar, seria um inferno tentar amar uma criança que me traga de volta todo esse inferno).
    Não trabalho e isso vai me atrapalhar a me formar e talvez atrapalhe tudo mais na minha vida pra sempre. Ao contrário de você, não estou me esforçando em ser melhor pelo bebê, só estou tentando sobreviver de alguma forma.
    Sei que não dá pra formar nenhum tipo de relação com a outra mulher nesse tipo de situação, mas tente entender que na verdade o “doente” é ele e não ela. Ela não é a louca que inventa estórias pra te infernizar, mas uma mulher que sofreu e sofre em um relacionamento abusivo, tem uma criança e foi traída. Ele quem fez tudo isso com ela. A culpa por essa situação toda é dele, não dela e talvez nem sua, pois mesmo que você tenha sido “a outra”, nada teria acontecido se ele não quisesse jogado com vocês duas.
    Talvez eu não tenha ajudado muito dada minha situação. Te desejo força, clareza e empatia.
    Um grande abraço.

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