As falácias que me contaram sobre a maternidade…

Luísa Somavilla

Desabafo Anônimo: As falácias que me contaram sobre a maternidade…

Há exatamente 1 mês me tornei mãe. Mas há muito mais tempo tento encontrar eco para/da minha experiência nas falas de outras mães. E me acho sozinha. Tornar-se mãe nesses blogues e textos de baby-alguma-coisa parece algo tão mágico que não parece ser desse planeta. Ou eu é quem sou a alienígena. Muito se fala sobre o significado da maternidade. E, na minha experiência, três grandes falácias se repetem over and over again nos relatos que avidamente li durante a gestação: a falácia do choque, a falácia do alívio e a do amor incondicional instantâneo.

No último dia 16, meu Martín veio ao mundo. Segundos depois de sentir seu corpinho saindo do meu, experimentei o olhar assustado de quem faz sua estreia no mundo e não sabe bem pra onde ir. Um ser humano aparentemente tão frágil, desamparado, dependendo integralmente do meu cuidado e acolhimento mesmo para suas necessidades mais básicas. Ao contrário de tudo o que li por aí, não foi choque o que senti quando me deparei com a mais radical dependência de uma vida em relação a outra (nesse caso, a minha). Meu filho me era familiar. Foi como se estivéssemos nos reencontrando materialmente já sendo cúmplices um do outro. Não que eu soubesse o que fazer! Na verdade, nem gostava de brincar de boneca na infância e nunca treinei como ser mãe. Não fazia ideia de como trocar fraldas, dar banho, fazer papinha, amamentar… Mas confiava na nossa relação. Sentia – ou alguma coisa me dizia – que aprenderíamos TUDO um com o outro. Mal sabia eu que aprenderia muito, mas continuaria sem saber essas tarefas básicas.

Nesse dia, ouvi pela primeira vez o chorinho do meu bebê, depois do parto dos meus sonhos, natural e acolhedor. Mais uma vez, me vi um alien no mundo da maternidade que eu havia ouvido falar. Choro forte, olhar atento, corpinho aparentemente perfeito, esbanjando saúde. Mas em nenhum momento senti o alívio relatado por tantas mães ao contarem os dedinhos das mãos ou percorrerem com o olhar cada centímetro do seu bebê. Meu bebê parecia plenamente saudável! E se não fosse, como eu viria a descobrir dias mais tarde? Qual seria a diferença? Meu amor seria menor? Pediria pro médico “colocar de volta”? Alívio de quê? Ser saudável é condição para ser amado e respeitado sem reservas? Ou a vida do meu filho tem menos valor por não ter nascido “perfeitinho”? Ser saudável ou não, naquele momento, não era questão de alívio. E não fazia a menor diferença.

Também não foi amor à primeira vista. Quando vi aqueles olhinhos brilhantes, o rostinho de bolacha e a farta cabeleira dourada, não teve mágica ou pó de pirlimpimpim que despertasse o amor materno que havia guardado em mim. Nada disso! Foi tudo bem menos cor de rosa! Por 8 meses antes daquele momento, esse tal de amor incondicional foi construído, tijolo por tijolo, muitas vezes a duras custas. Nas mudanças de vida, as conversas com o papai, no replanejamento de sonhos, nas inúmeras idealizações, nas mexidas dele dentro da barriga, a cada ultrassom, nos meses sem mover um fio de cabelo na cama do hospital… Não sei se existe amor instantâneo a cada nascimento, como fui tentada a acreditar em tantos relatos do mundo mágico da maternidade. Comigo, não existiu! Nem amor instantâneo, nem mundo mágico. Amor, sim, mas batalhado e conquistado, como tudo conosco.

E foi assim que percebi que só uma coisa é comum a toda experiência de maternidade: a singularidade.

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