Só um tapinha não dói? Dói sim, e dói muito!

Por Ellen Barros de Mattos – 17 Outubro 2016


Desde o século passado diversos mecanismos internacionais publicaram importantes documentos normativos, que tinham como norte resguardar crianças e adolescentes e os colocar a salvo de qualquer ação discriminatória, humilhante ou vexatória. Ali, já existia a intenção de repensar a forma como a sociedade deveria se portar em relação aos mais novos, problematizando a ideia que crianças não são propriedade dos seus pais e por isso a relação deveria se estabelecer a partir do respeito aos seus direitos e não a partir de uma relação vertical de poder.

Seguindo esse movimento, o Brasil na sua Constituição de 1988 e posteriormente em 1990, com a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, estabeleceu como compromisso da família, do Estado e da Sociedade zelar pela integridade física e psicológica dos mesmos. São inúmeros os documentos, leis, textos e iniciativas pontuais que se ocupam da educação sem violência, educação positiva, criação com apego, escuta empática, comunicação não violenta  etc., mas me parece que o grande o vilão das nossas crianças ainda é a cultura da força e do poder exercido sobre os mais vulneráveis.

Quando falamos de violência, estamos falando daquela ação praticada por pais, mães, avós, madrastas e padrastos. Sim, esses são os principais perpetradores do castigo, das surras, da negligência física e psíquica. 80% da violência contra criança acontece no silêncio dos seus lares, o lugar onde efetivamente elas deveriam sentir-se seguras e acolhidas. Existem muitas formas de castigos físicos: palmadas, tapas, beliscões, chineladas, paulada, varada, amarrar a criança, deixar de joelhos, socar, esmurrar ou bater são alguns exemplos de castigos físicos. A força pode ser aplicada de muitas formas no corpo da criança. Pode ser com a mão – tapa na cabeça, na nádega, puxão de orelha, beliscão -, com o uso de um objeto – régua, cinto, chinelo, fio – ou mesmo sem bater na criança. É o caso dos castigos em que o adulto coloca a criança em posições desconfortáveis e situações humilhantes, como por exemplo, obrigar a criança a manter-se de joelhos sobre grãos, reter excreções, ingerir alimentos ou substâncias estragadas ou de sabor aversivo, entre outros. E sabe o que é muito pior do que isso? É A JUSTIFICATIVA! Afinal, todos eles alegam estar utilizando esses expedientes para EDUCAR os pequenos, e isso será mesmo possível? Não, os castigos físicos ultrapassam a dor e as marcas que elas podem provocar e alcançam o lugar mais profundo das nossas almas, deixando marcas impossíveis de se imaginar. Um dado de pesquisa sempre me chamou muita atenção: diversos estudos apontam que boa parte da população carcerária no nosso país foi vítima de violência doméstica.

Então já passamos da hora de começar a reforçar uma educação livre de qualquer tratamento desumano e refletir estratégias de educação positiva. Para disseminá-las cada vez mais e garantir uma infância livre de violência, precisamos nos debruçar e nos engajar informando ao maior número possível de famílias que existem sim maneiras de disciplinar sem machucar. E quais seriam essas práticas? Fundamentalmente duas: diálogo incessante e bons exemplos constantes. A cada fase pela qual a criança passa, a família ou os responsáveis por educá-la precisarão rever as estratégias e construir junto a elas as regras que são importantes para aquele núcleo. Por isso, não existe receita mágica ou uma fórmula que se aplique a todas as casas. Definam o que é prioridade, incluam as crianças na construção desse modelo, dialoguem e sejam, sempre que possível, exemplos maiores daquilo que vocês preconizam e desejam.

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