As palmadas ensinam, mas não o que você está querendo…

Por Damiana Angrimani Bonavigo – 12 Outubro 2016

Sobre palmadas, tapas e castigos físicos…
Quantas vezes você já ouviu a expressão: “Ah, mas uns tapas no meu filho, de vez em quando, são necessários”?

Agora pegue esta frase e transfira para a pessoa com a qual você vive, um companheiro ou companheira. Isso mesmo: imagine a pessoa com a qual você vive e divide seus dias falando que acha que é necessário “dar uns tapas” vez ou outra em você ou qualquer outro adulto da sua convivência. Chocante? Violento? Por que então soa tão natural quando se refere a uma criança?
Eu nunca apanhei, sim é verdade. Eu cresci nos anos 80, fui criança, existi e nunca levei nenhum tapa ou palmada. Uma vez, eu estava brincando na casa de uma amiga, o pai dela chegou muito nervoso, porque ficou sabendo que ela tinha brigado à tarde com o irmão; minha amiga sabia que ia apanhar nesse dia e ela pediu que eu ficasse na casa dela até mais tarde, porque na minha frente o pai dela não ia “dar uma surra nela”.
Infelizmente o plano dela não deu certo, ele chegou tirou o cinto pegou ela pelo braço e começou a bater. Eu devia ter uns 9 ou 10 anos, mas me lembro de ter ficado com medo, muito medo mesmo de apanhar junto. Ela chorava, ele gritava, o cinto estalava e eu chorei por ela e por tudo.
Cheguei em casa e perguntei para o meu pai por que ele nunca tinha me batido, ele me chamou para sentar com ele no sofá e me perguntou por que eu estava fazendo esta pergunta. Expliquei que todas as minhas amigas apanhavam dos pais para serem mais “educadas”, por que ele nunca tinha me batido para eu ser mais educada? Por que ele só conversava?
Ele respondeu: “Porque a violência não é uma forma de resolver os conflitos, quando você parte para a violência é porque não tem mais argumentos, perdeu aquela discussão. Um adulto quando bate numa criança SEMPRE vai ganhar, é uma briga desigual, injusta… Fisicamente uma pessoa que tem mais de um metro e oitenta e mais de setenta quilos bater numa outra, de pouco mais de um metro e vinte vai ganhar… Então, não é uma questão de autoridade, ensinar ou aprender… É simplesmente você reconhecer que não tem mais argumentos.”
Cresci e fui estudar.
Percebi que existem correntes a favor da não violência na criação dos filhos, e que essa coisa de adulto falar e criança ter que abaixar a cabeça e ser “obediente” é uma construção cultural que precisa ser quebrada.
Muita coisa mudou, as crianças têm voz, os adultos começaram a perceber que uma criança existe na realidade daquela família, que ser quieto e obediente nem sempre é positivo, afinal, você quer que seu filho cresça e perante os conflitos ele não questione? Leve em conta o ponto de vista alheio sempre? Nunca tenha opinião própria?
Se você respondeu NÃO, então você não quer que seu filho seja sempre obediente. Porque está lá no dicionário: OBEDIENTE – adjetivo de dois gêneros – 1. que ou o que obedece. 2.  que ou o que é excessivamente dócil; submisso.
Violência gera Violência. Violência destrói e não constrói.
Quando alguém apanha se sente humilhado e com raiva, a violência física e psicológica gera sentimentos negativos de culpa, vingança ou apatia. Se você foi uma criança que apanhou, tente lembrar quais eram os sentimentos bons que você sentia naquele momento… Arrisco dizer que nenhum.
São comuns em nossa sociedade falas deste tipo:
“As palmadas dos meus pais me ensinaram que quando nada resolve, uma esquentada nos couros no instante surte efeito…”
“Melhor foi apanhar do meu pai e da minha mãe que por aí na rua da polícia”
“Sou grata a meus pais que sempre souberam o limite de tudo. Nunca fui espancada, mas quando eu precisava de palmadas eu as recebia. Agradeço muito por isso.”
“Não tenho nenhum trauma por isso”
Se isso soou normal, óbvio ou até mesmo familiar para você, te convido para se atentar para uma questão muito perigosa, a normalização da violência. Quando acreditamos e reproduzimos uma crença de que apanhar é “normal”, que é “preciso” e que só “uns tapas resolvem”, acabamos não percebendo que nós mesmos estamos propagando informações que não são verdadeiras e, além disso, estamos propagando a violência e sendo violentos.
Nunca é demais dizer que NÃO, VIOLÊNCIA NÃO É NORMAL! Se transferirmos as falas acima para qualquer outro público, que não as crianças, isso mostra o quão descabidas são essas afirmações. Imaginem as situações abaixo:
“Agradeço ao meu marido, por me dar uns tapas às vezes… Afinal eu precisava, estava sem limites.”
“Agradeço ao meu chefe por me dar uma esquentada nos couros, comigo só isso surte efeito.”
Será que essas situações seriam vistas com tanta naturalidade ou gratidão? Tenho certeza de que só iriam gerar raiva, rancor e mais vontade de “devolver” a violência de forma física ou psicológica.
Qual é a lógica de acreditar que violência gera efeitos benéficos nas crianças? Qual é a pesquisa que prova que bater vai gerar algo positivo numa criança, se em um adulto só traz sentimentos e respostas negativas? Por que crianças não têm os mesmos direitos de serem respeitadas em sua integridade física e moral que os adultos? Honestamente, não consigo ver nenhum sentido na crença de que a violência seja boa e traga bons resultados. Há estudos sobre violência, porém estes provam o contrário.
Mas, então, se meus pais me bateram eles erraram?
Os seus pais fizeram o que eles podiam fazer.
Eles fizeram o que estava no alcance deles. Significa que eles foram humanos, pessoas possíveis, que foram crianças um dia, talvez vítimas de pais igualmente violentos que tiveram outros pais, histórias e construções.
Hoje temos acesso a informações e pesquisas que mostram que a violência, tanto física quanto psicológica, pode ser danosa aos indivíduos que a vivenciam. Fazer escolhas diferentes de nossos pais ou cuidadores não demostra desrespeito ou negação de nossa história e nem significa que somos melhores ou piores, significa apenas que escolhemos fazer de forma diferente.

Se você acha que as palmadas ensinam, você tem razão… Elas ensinam a ter medo, ensinam que está ok ser violento, ensinam que bater resolve problemas, ensinam a esconder sentimentos, ensinam que crianças não tem voz e não tem vez…

Tem um pediatra a favor da criação com apego chamado Carlos González que diz: “Não há adulto na prisão porque os pais deram afeto demais.” Acredito verdadeiramente nisso, amor gera amor. Nossa sociedade precisa de amor e a melhor forma de gerar amor é iniciar  com cada um de nós dentro de nossas casas, com nossos filhos.
Pode ser árduo, mas igualmente possível quebrar um ciclo de violência. É preciso quebrar antigos paradigmas, é preciso mudar a forma como vemos as crianças é preciso dar voz e limites, mas sempre com amor, empatia e acolhimento.
Vamos juntos?

Damiana Angrimani Bonavigo é mãe da Manuela e Psicóloga.
http://www.maepsicologa.com

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1 comentário Adicione o seu

  1. Geiza Rozauro disse:

    Perfeito! Sou pedagoga, dou aula na educação infantil e tudo isso é verdadeiro.
    Sei por mim que não apanhei, e pelos meus alunos que apanham e os que não apanham. Os que não apanham são mais fáceis de lhe dar, porém não deixam de serem questionadores, e uma boa conversa basta. Reflexo de uma bpa educação dada pelos pais. Já os que apanham nem nos questionam, já partem para birras e ou violência. E são mais irritados que os demais.

    Sinto muito ao ver, professores repetindo essas frases de que apanhar é bom.

    Curtir

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