TEMOS QUE FALAR SOBRE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

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 “Meu primeiro filho foi de um relacionamento que estava no fim, ele me agredia grávida e depois também”.

“A minha gravidez não foi fácil, pois passava por humilhações e constrangimento no meu trabalho”.

“Quando ele começa a fazer a ULTRA ele diz assim (nunca vou esquecer) ‘esse bebê não tá legal não’. Ele falou num tom brincalhão então eu ri e aí ele muda o tom e fala com sentimento que o bebê estava morto”.

Desabafos anônimos[i]

 

Infelizmente, diversas mulheres são vítimas de sofrimento sexual, físico ou emocional, seja em público, seja no lar. Essa situação traz efeitos nocivos não só à mulher agredida, que pode ter sua saúde mental e até reprodutiva prejudicada[ii], mas às relações interpessoais, ao relacionamento entre profissionais de saúde e pacientes, ao aumento dos gastos públicos, ao estímulo a uma cultura da violência, ao rendimento laboral e educacional, entre outros. É sobre essas diversas violências contra a mulher que vamos falar.

Estima-se que, no Brasil[iii], mulheres que sofrem violência conjugal física e psicológica têm duas vezes mais chances de sofrer algum transtorno mental. Dentro ou fora de casa[iv], praticada por conhecidos ou desconhecidos que estão sob quaisquer perfis de relacionamento com a vítima, são as agressões físicas as mais notificadas. Já a violência sexual é relatada por quase ¼ das mulheres brasileiras em diversas pesquisas. Todavia, nesse texto, atento especialmente para dois outros tipos de violência: a violência psicológica e a obstétrica, que podem ou não estar acompanhadas de violência física e sexual.

Violência Psicológica

A violência psicológica abarca um grupo enorme de ações cometidas por companheiros(as), familiares, colegas de trabalho e outros. Essa violência, como todas as outras, varia em seu entendimento em razão dos valores, da cultura, da época em que é cometida, da percepção das vítimas e das instituições que circundam a mulher. Autores sugerem que esse tipo de violência poderia ser o mais frequente no atendimento à mulher[v].

Essa violência[vi],[vii] constitui-se como a ameaça à integridade física; a atemorização constante com a ideia de perda dos filhos ou dos bens do casal; a possível vergonha social/familiar; as cobranças por comportamentos “corretos”; a crítica pelo desempenho sexual; a depreciação da aparência física e da condição de saúde; a chantagem emocional se a mulher sai de casa ou se deseja trabalhar fora do lar; e muitos outros.

Trata-se de uma agressão ocultada porque ocorre, em geral, no espaço doméstico, entre quatro paredes e é dificilmente denunciada porque há a sensação de que é algo esparso, ocasional, “frescura de mulher”, menos importante que outros tipos “graves” de violência. Contudo, como dito antes, é uma violência que abre espaço para as formas tradicionais de violência física e sexual, que só costumam vir à tona quando agressões agudas ocorrem.

Violência Obstétrica

Se tudo isso já parece enorme, não podemos esquecer a violência obstétrica. Muito discutida recentemente, passa a ser denunciada nas redes sociais, em ações judiciais, em atuações do Ministério Público e outros[viii].

Sem o intuito de ser uma lista definitiva, podemos entender como violência obstétrica[ix],[x],[xi] como o não-esclarecimento ou o não-consentimento da mulher sobre os procedimentos a que ela será submetida, sempre que isso é possível[xii]; o emprego de práticas ineficazes ou não recomendadas pelas próprias entidades profissionais; as exposições física, oral ou gestual desnecessárias do corpo da mulher ou da sua condição; a restrição alimentar e hídrica prolongada desnecessária ou não explicada; o impedimento dos movimentos corporais; a proibição da presença do acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, que é garantido legalmente[xiii]; as colocações ofensivas, mentirosas ou de xingamentos sobre o corpo da mulher ou do seu suposto comportamento; a privação do contato da mulher com o bebê; entre outros.

Conhecer as formas de violência e atuar para que cessem não é só libertar a mulher do sofrimento, é fortalecer toda a sociedade. E o nosso papel estamos fazendo. A Temos que Falar Sobre Isso abre este espaço de diálogo para que você possa conhecer o tema e se sentir segura ao desabafar. E o principal: saber que você não está só.

 

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[i]Estes e outros desabafos anônimos estão no nosso site: <https://temosquefalarsobreisso.wordpress.com&gt;.

[ii]CRUZ, Isabel Cristina Fonseca da. A sexualidade, a saúde reprodutiva e a violência contra a mulher negra: aspectos de interesse para assistência de enfermagem. Revista da Escola de Enfermagem da USP. 2004, vol.38, n.4, pp.448-457. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S008062342004000400011&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 06/10/2016.

[iii]RIBEIRO, Wagner S. et al. Exposição à violência e problemas de saúde mental em países em desenvolvimento: uma revisão da literatura. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2009, vol.31, suppl.2, pp.S49-S57. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S151644462009000600003&lng=en&nrm=iso&gt;.  Acesso em 06/10/2016.

[iv]SILVA, Lídia Ester Lopes da & OLIVEIRA, Maria Liz Cunha de. Características epidemiológicas da violência contra a mulher no Distrito Federal, 2009 a 2012. Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde. 2016, vol.25, n.2, pp.331-342. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S223796222016000200331&lng=en&nrm=isso&gt;. Acesso em 06/10/2016.

[v]COSTA, Milena Silva et al. Violência contra a mulher: descrição das denúncias em um Centro de Referência de Atendimento à Mulher de Cajazeiras, Paraíba, 2010 a 2012. Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde. 2015, vol.24, n.3, pp.551-558. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-96222015000300551&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 06/10/2016.

[vi]RANGEL Celina Marcia & OLIVEIRA Elzira Lúcia. Violência contra as mulheres: fatores precipitantes e perfil de vítimas e agressores In Anais do Seminário Internacional Fazendo Gênero 9: diásporas, diversidades, deslocamentos. Florianópolis: UFSC, 2010. p. 1-11. Disponível em: <http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/1277848018_ARQUIVO_fazendogenero_Celina_Elzira.pdf&gt;. Acesso em 06/10/2016.

[vii]SILVA, Luciane Lemos da et al. Violência silenciosa: violência psicológica como condição da violência física doméstica. Revista Interface. 2007, vol.11, n.2, pp.93-103. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832007000100009&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 06/10/2016.

[viii]DINIZ, Simone Grilo et al. Violência obstétrica como questão para a saúde pública no Brasil: origens, definições, tipologia, impactos sobre a saúde materna, e propostas para sua prevenção. Journal of Human Growth and Development. 2015, vol.25, n.3, pp. 377-384. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010412822015000300019&lng=pt&nrm=iso&gt;. Acesso em 06/10/2016.

[ix]TESSER, Charles Dalcanele et al. Violência obstétrica e prevenção quaternária: o que é e o que fazer. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. 2015, vol.10, n.35, pp. 1-12. Disponível em: <https://www.rbmfc.org.br/rbmfc/article/view/1013/716&gt;. Acesso em 06/10/2016.

[x]PEREIRA, Carlota et al. Violencia obstétrica desde la perspectiva de la paciente. Revista de Obstetricia y Ginecología de Venezuela. 2015, vol.75, n.2, pp. 081-090. Disponível em: <http://www.scielo.org.ve/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S004877322015000200002&lng=es&nrm=iso&gt;. Acesso em 06/10/2016.

[xi] A Venezuela tipificou na Ley Orgánica Sobre el Derecho de las Mujeres a una Vida Libre de Violencia violência obstétrica como “Qualquer conduta, ato ou omissão por profissional de saúde, tanto público como privado, que direta ou indiretamente leva à apropriação indevida dos processos corporais e reprodutivos das mulheres, e se expressa em tratamento desumano, no abuso da medicalização e na patologização dos processos naturais, levando à perda da autonomia e da capacidade de decidir livremente sobre seu corpo e sexualidade, impactando negativamente a qualidade de vida de mulheres (tradução livre).”

[xii] É importante considerar que muitas dessas práticas já são consideradas excessivas por entidades profissionais. Um exemplo é o referido no artigo 22 do Código de Ética Médica: “Deixar de obter consentimento do paciente ou de seu representante legal após esclarecê-lo sobre o procedimento a ser realizado, salvo em caso de risco iminente de morte”. Disponível em: <http://portal.cfm.org.br/images/stories/biblioteca/codigo%20de%20etica%20medica.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2016.

[xiii] Trata-se da Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11108.htm&gt;. Acesso em 10/10/2016.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Sou Enfermeira há 20 anos, com formação em Obstetrícia, fiz mais de cem partos em minha vida e afirmo que a violência obstétrica é inaceitável! Em minha experiência profissional como obstetriz, o respeito e o esclarecimento são fundamentais para trazer a parturiente como colaboradora ativa no seu próprio trabalho de parto. O amparo transforma a dor do parto em emoção vivida. E com esse aprendizado tive, com a ajuda de Deus, 98 % de êxito em meus procedimentos. Os dois por cento fazem parte das estatísticas de complicações que foram revertidas.

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