Milhares de mulheres em greve na Polônia contra a proibição do aborto

Tradução dos textos feita por Thais Cimino – Equipe Temos que falar sobre isso


Por Christian Davies – 03 Outubro 2016 – The Guardian

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Mulheres vestindo roupas pretas e agitando bandeiras negras estão se manifestando em toda a Polônia, boicotando seus postos de trabalho e aulas como parte de uma greve nacional em protesto contra uma nova lei que faria do aborto uma proibição.

Muitos homens também participaram em manifestações nas ruas de Varsóvia, Gdansk e em outros lugares em todo o país de maioria católica.

Milhares de pessoas também protestaram no sábado, em frente ao parlamento em Varsóvia. As mulheres vestiam preto em sinal de luto pela perda temida dos direitos reprodutivos; eles também têm alertado que algumas mulheres morrerão se a proposta passa como está agora.

Polônia já tem algumas das leis de aborto mais restritivas da Europa, com terminações legalmente permitidas apenas quando há anomalia fetal grave, quando há uma grave ameaça para a saúde da mãe, ou se a gravidez resultou de estupro ou incesto.

Mas a nova lei criminaliza todas as terminações, com as mulheres puníveis com até cinco anos de prisão. Os médicos que forem descobertos por terem assistido um aborto também seriam responsáveis por acusação e prisão.

Os críticos dizem que mesmo uma mulher que sofre um aborto poderia estar sob suspeita criminal, e que os médicos poderiam adiar a realização de procedimentos de rotina em mulheres grávidas, por medo de serem acusado de facilitarem um aborto.

Embora a proibição tenha recebido apoio público a partir de elementos dentro da igreja católica e do partido lider de direita  na Polônia Lei e Justiça (PiS), nenhum deles lançaram as propostas. Eles foram elaborados por grupo de defesa conservador linha-dura Ordo Iuris e apresentada pela coligação ‘Pare o aborto’ como uma “iniciativa dos cidadãos”, uma petição será analisada pelo Parlamento, uma vez que já recebeu mais de 100.000 assinaturas.

Ainda é difícil avaliar a participação na greve em cidades pequenas e áreas rurais, que tendem a ser mais conservadores, já a participação nas cidades parecia ser significativa.

Uma grande multidão se reuniu no centro de Varsóvia e as pessoas também foram para as ruas em outras cidades. Cafés estavam cheios de grupos de mulheres vestidas de preto da cabeça aos pés.

Agnieszka Krysztopolska, um banqueira de 34 anos de idade, estava sentada com vários amigas que estavam boicotando o trabalho. “Eu tenho dois filhos e não é que eu seja um tipo de feminista radical, mas eu não concordo com alguém me privar do direito à minha própria saúde ou a dos meus filhos. Eu acho que este projeto de lei é apenas perigoso”, disse ela.

Perto dali, Magdalena Gwozdz de 28 anos conversa com sua irmã de 17 anos de idade, que estava boicotando escola. “Esta deve ser a escolha da mulher e o aborto deve estar disponível em caso de violação ou de um feto danificado”, disse Gwozdz. “Esta é a Europa e estamos na União Europeia.”

A emissora de notícias privada TVN24, com alguns dos seus próprios apresentadores em preto, mostrou imagens de estabelecimentos que aderiram à greve, incluindo um restaurante em Wrocław que fechou para permitir que as funcionárias pudessem participar e um museu em Cracóvia, onde nenhuma das mulheres apareceu para trabalhar.

Em Czestochowa, talvez a cidade mais católica na nação de maioria católica, a prefeitura informou que 60% dos trabalhadores do sexo feminino não tinha aparecido para trabalhar.

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Ativistas pró-escolha fizeram o chamado para a greve, ou “campanha nacional de ausência”, depois que o parlamento polaco votou em 23 de Setembro que propostas do “Pare o aborto” devem ser examinadas por uma comissão parlamentar. As mulheres foram encorajadas a tirar um dia livre de trabalho e tarefas domésticas e se reúnem para reuniões ou manifestações, para doar sangue ou fazer trabalhos de caridade.

Muitas mulheres polonesas dizem que estão cansadas de acordos que estão sendo feitos sobre seus direitos reprodutivos e humanos fundamentais, que elas argumentam ameaçar tanto a sua segurança e a sua dignidade.

“Um monte de mulheres e meninas deste país estão sentido que elas não têm qualquer poder, que elas não são iguais, que não tem o direito a uma opinião”, disse Magda Staroszczyk, uma das coordenadoras da greve. “Esta é uma oportunidade para nós para sermos vistas, e de sermos ouvidas.

As organizadoras citam que o ataque aos direitos reprodutivos das mulheres que vai além da proibição proposta pelo “Pare o aborto”. Um projeto de lei separado, patrocinado pelo partido de direita, restringe a fertilização in vitro, o que tornaria ilegal congelar embriões e permitiria que as mulheres pudeseem fertilizar apenas um embrião por vez, também foi passado para a fase de comissão parlamentar em setembro.

O protesto de segunda-feira foi inspirado por uma greve feita há mais de 40 anos pelas mulheres da Islândia, quando 90% das mulheres se recusaram a trabalhar, cozinhar, ou cuidar de seus filhos por um dia, em outubro de 1975.

A intensidade dos chamados “protestos negros” revelou-se complicado para o partido de direito (PiS), que se apresenta como o guardião dos valores tradicionais em um país assolado por noções liberais de multiculturalismo, costumes sociais relaxados e correção política restritiva, mas que permanece consciente dos riscos de alienar a opinião pública.

O líder do partido, Jarosław Kaczyński, sugeriu que o governo poderia aceitar um compromisso em que terminações realizadas por causa de anormalidades fetais seriam proibidas, mas ainda seria permitido terminações de gravidez resultantes de estupro ou incesto.


Imprensa Associada em Varsóvia – 05 Outubro 2016 – The Guardian

A proposta proibição total do aborto na Polônia não será implementada, disse um membro do governo, descrevendo protestos em massa contra a proibição como uma lição de humildade para a liderança do país.

Jarosław Gowin,  Ministro da Ciência e Ensino Superior, disse na quarta-feira que os protestos de mulheres “nos fizeram pensar e nos ensinou a humildade”.

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Os comentários parecem indicar que a liderança conservadora da Polônia irá suspender o apoio da proposta altamente impopular para proibir o aborto, mesmo em casos de estupro, incesto ou quando a vida da mãe está em risco.

O governo de direita, liderado pelo partido Lei e Justiça, tem estado sob pressão internacional para não avançar com o plano, com um debate agendado para quarta-feira no Parlamento Europeu sobre a situação das mulheres na Polônia.

A Polônia já proíbe o aborto, com exceção feita apenas para estupro, incesto, fetos gravemente danificados ou se a vida da mãe está em risco. Na prática, porém, alguns médicos se recusam a executar até mesmo abortos legais, citando objeções morais.

As mulheres polonesas que procuram abortos normalmente vão para a Alemanha ou outros países vizinhos para obtê-los ou fazem pedidos pílulas abortivas online.

Também na quarta-feira, o presidente do Senado, Stanisław Karczewski, disse que o Parlamento da câmara alta da Polônia não iria iniciar o trabalho em um projeto de lei que restringiria ainda mais a lei do aborto da Polônia.

Karczewski disse que os senadores iriam esperar para ver o que o mais poderoso da câmara baixa do Parlamento faria. No entanto, ele expressou apoio a uma proibição de abortos de fetos com síndrome de Down, algo permitido atualmente.

São crianças maravilhosas, muito amadas por seus pais, pais amorosos, trazendo uma grande quantidade de calor e de amor a um lar. Eu sou um grande oponente de matar essas crianças “, disse Karczewski.

Uma iniciativa anti-aborto reuniu 450.000 assinaturas em apoio à proibição total do aborto. Uma comissão parlamentar está agora a analisá-lo. Os políticos votaram contra, considerando uma iniciativa separada para uma lei de aborto mais liberais.

A questão levou a protestos em massa, a maior na segunda-feira, quando milhares de mulheres foram às ruas vestidas de preto. Muitas boicotaram o trabalho e não assistiram aulas.
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