Mais sensibilidade: os bebês também sentem dor!

Por Cinthia Barbosa – 22 Setembro 2016


    Por muitos anos acreditou-se que o recém-nascido não sentia dor. Algumas teorias sustentavam a hipótese de que o sistema nervoso central ainda era imaturo e a falta de mielinização impedia a transmissão do impulso e consequentemente a sua transformação em sensação dolorosa. Imaginem então o que era falado sobre os bebês prematuros. Felizmente, depois de muitos estudos, pesquisadores afirmam que a dor está presente no feto a partir da 13ª semana de gestação, afinal a mielinização favorece apenas a velocidade do impulso nervoso, o que provavelmente é desnecessário nos fetos e recém-nascidos devido ao menor trajeto que o impulso precisa percorrer, não estando diretamente relacionada ao fato de sentir ou não a dor. Além disso, sabe-se que o bebê prematuro é mais sensível à dor e demora mais para se recuperar e se reorganizar dessa experiência estressante, devido a imaturidade de suas fibras inibitórias.
A dor é definida como uma sensação subjetiva, sensitiva e desagradável, modelada por experiências anteriores obtidas ao longo da vida. Se levarmos esse conceito ao pé da letra, podemos entender que os bebês não sentem dor, uma vez que ainda não experimentaram tal sensação. Foi por isso que o conceito de dor foi reformulado passando a afirmar que a incapacidade de comunicar-se não nega a possibilidade de sentir dor e a necessidade de tratamento para aliviá-la. Assim nossos bebês ganharam um pouco de voz!
Devido a subjetividade da experiência dolorosa associada à dificuldade de interpretar a expressão de dor no bebê, muitas vezes ela não é tão fácil de ser identificada e acaba sendo “subtratada”. É preciso sensibilidade para perceber as pequenas pistas que os bebês nos dão, e claro, empatia, para propor medidas para aliviá-la. Essas pistas podem ser: o choro, o franzir da testa, os olhos apertados, o tremor do queixo, as mãos fechadas, bem como alterações na frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial, entre outras.
Os bebês prematuros ou não internados em uma UTI Neonatal são submetidos a vários procedimentos dolorosos durante um único dia. Sabemos da importância de cada um desses procedimentos, necessários para sua recuperação e sobrevivência, mas devemos pensar também na qualidade desses cuidados para que todo o desconforto seja minimizado e cada manipulação seja humanizada. Devemos nos preocupar com as repercussões que a dor pode causar a curto prazo (alterações da frequência cardíaca, quedas de saturação, alterações hormonais, entre outras) e a longo prazo (distúrbios emocionais e de comportamento, limiar de dor diminuído, entre outros).
Segundo a Resolução nº 41/1995 toda criança tem direito a não sentir dor quando há meios para evitá-la. Por isso acredito que toda dor causada por um procedimento realizado em nossos bebês dentro da UTI Neonatal deve ser notificada como um evento adverso, afinal há medidas farmacológicas e não farmacológicas para aliviá-la.
Dentre as medidas não farmacológicas podemos contar com a sucção não-nutritiva, uso de solução adocicada (como a glicose a 25%) reduzir os estímulos ambientais (ruídos e luminosidade), entre outros. Além dessas, três outras ganharam meu coração por serem facilmente realizadas, além de proporcionarem diversos benefícios aos nossos prematurinhos: contato pele a pele, amamentação (quando possível) e posicionamento adequado (contenção facilitada).
Não sentir dor é direito de todo ser humano. Propor medidas para evitá-la ou minimizá-la é dever de todo profissional. É preciso estar atualizado quanto às ferramentas específicas existentes para avaliação da dor em recém-nascidos e prematuros (escalas de dor), realizá-las periodicamente entendendo a dor como 5º sinal vital, ter sensibilidade e empatia visualizando os bebês como seres humanos que precisam ser respeitados em sua totalidade, e propor medidas para aliviar sua dor e desconforto, proporcionando assim, um ambiente adequado não só para sua sobrevivência mas também para sua qualidade de vida e rápida recuperação!

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