Meu filho morreu em meus braços.

Lidiane Braga Fidelis Vieira, mãe do anjo Benjamin

Madrugada de domingo, 24 de julho, paz, silêncio, no quarto meu filho e meu marido dormiam abraçadinhos, como de costume, todos diziam: coloca esse bebê no berço, não acostuma ele a dormir com vocês, depois vai ser difícil tirar… Entre tantas outras coisas. Não ligávamos, não naquele momento, Benjamin estava indo para os 4 meses e acordar com ele todos os dias era minha alegria. Mas naquela noite algo havia de errado comigo, estava angustiada, sem sono. Fui até à cozinha, preparei um chá, sentei na sala, agradeci a Deus pela vida, pela saúde (essa palavra era forte na minha mente naquela madrugada). Percebi o quanto era feliz, mas algo estava errado, não sei explicar, uma angustia estranha… Como se algo gritasse dentro de mim: SEJA FORTE. Assustei-me, terminei de tomar meu chá e fui deitar.

Manhã de sexta, 29 de Julho, Benjamin que acordava toda a manhã sorridente, estava apático, choroso. Imediatamente levei-o até o pronto-socorro do HOSPITAL XX em São Paulo, naquele momento o primeiro vômito (em formato de jato), Benjamin, MEU DEUS, pensei. A médica pouco olhou na minha cara, não me recordo muito bem do seu rosto, de muita coisa, foi tudo tão rápido. Troquei Benjamin ali mesmo no consultório, ele estava todo vomitado, continuava chorando. Voltamos pra casa com diagnostico de VIROSE.

Noite do dia 29 de Julho, Benjamin continuava choroso, outros vômitos, apático. Fomos trocar sua fralda quando veio a surpresa: “O que é isso?” Indaguei para minha tia que estava comigo. Não sabíamos identificar, um sangue geléia, não sabíamos se era cocô ou xixi. Alerta máximo: chamei meu marido, embrulhamos a fraldinha, a coloquei dentro da bolsa e disse que precisaríamos voltar agora para o pronto-socorro. Primeiro neto, bisneto, meu primeiro filho, mãe inexperiente, no caminho até o hospital minha cabeça era um turbilhão de pensamentos, mas eu precisava me manter calma.

Segunda consulta do dia, entramos eu e meu marido no consultório, mostramos a fralda, relatamos o ocorrido, inclusive que estávamos ali pela segunda vez. A médica pouco olhou para meu filho, quando mostramos a fralda ela disse: “isso é alergia ao leite, ele toma fórmula?” Expliquei que sim, questionamos se não eram necessários exames, ela disse que não, eu perguntei do choro insistente, ela apalpou a barriguinha do meu filho e logo disse: “isso é gases”, e disse que com a troca do leite os vômitos cessariam. Saímos de lá com um receituário de luftal e uma bronca: “Mãe, não traga seu filho aqui por qualquer “dorzinha”.” Eu retruquei: Doutora, não é qualquer “dorzinha” meu filho não para de chorar, vômitos constantes, essa fralda com sangue…

Enfim, voltamos pra casa, à palavra do médico naquele momento era de autoridade. Confiamos. Noite de sexta para sábado, PIOR NOITE DA MINHA VIDA QUE PASSEI NA MINHA CASA. Benjamin continuava com vômitos constantes, agora mais fortes, não queria comer, ainda mais apático. Voltamos pela terceira vez ao pronto-socorro. Dessa vez eu entrei quase quebrando tudo.

Dia 29 de JULHO de 2016, a data que minha vida mudou. Entreguei meu filho à morte quando entrei naquele hospital. Pela terceira vez entramos no consultório médico. Naquela tarde pediram alguns exames de sangue e urina, Benjamin continuava com vômitos fortes e chorando muito. Desde o começo o descaso e a negligência eram grandes conosco, mas era o que tínhamos no momento e não imaginávamos o que estava por vir.

Outro exame, dessa vez um raio x, médicos, enfermeiros, ninguém falava nada, permaneciam em seus postos de trabalho, alegres, piadistas e meu filho ali, vomitando, chorando e nada acontecia. Fiquei nervosa, fui até a médica e demonstrei minha preocupação, ela nem me olhou, disse que realmente parecia ser gases. Fiquei desesperada, estávamos para sermos dispensados novamente quando pedi ao meu marido que pegasse uma fralda na bolsinha do meu pequeno, pois no meio de tanta confusão não havia trocado a fraldinha. DESESPERO. A Fralda estava REPLETA de sangue vivo, chamei todos, médicos, enfermeiros. Nervosa, perguntei: E AI, ELE NÃO TEM NADA?

Novo exame, subimos até outro andar, aquela confusão, meu filho nos meus braços chorando muito, a situação só piorava, IMPLOREI ao atendente que selecionava os pacientes para o exame: POR FAVOR, OLHA O ESTADO DELE, preciso fazer o exame com urgência. Ele grosseiramente respondeu: “A Sra. vai ter que aguardar.” Naquele momento juntei minhas forças, meu ódio, meu desespero e disse: ACABEI DE SAIR DO PRONTO SOCORRO INFANTIL COM UMA FRALDA REPLETA DE SANGUE VIVO, MEU FILHO ESTÁ MAL, SE VOCÊ NÃO ME DEIXAR ENTRAR POR BEM, EU VOU ENTRAR DE QUALQUER JEITO. Entramos.

Diagnóstico: Benjamin estava com invaginação intestinal. Desespero, confusão, mais uma vez estávamos lá, os médicos disseram que ele teria que fazer um exame para desinvaginação e que esse exame só poderia ser feito no dia seguinte. Mais confusão e desespero, porém no grito conseguimos que o exame fosse feito no mesmo dia. Naquele momento meu guerreiro já apresentava uma piora muito grande, era visível. Internamos. O caso dele era cirúrgico, a nosso ver uma cirurgia imediata. Internamos, a cirurgia havia sido marcada para o domingo às 8h00 da manhã. Benjamin passou a madrugada de sábado para domingo sem soro, não perceberam que o acesso estava obstruído. Resultado, domingo dia 31 de JULHO meu filho estava muito mal, desidratado, vomitava fezes.

Naquele momento eu perdi as forças, não sabia mais o que fazer, passei a noite em gritos, NINGUÉM me escutou, e agora meu filho estava ali, naquele estado. Resumindo, Benjamin ficou internado 40 dias, encarou 03 cirurgias, teve parada cardíaca de 1 minuto, várias bactérias e fungos. Os médicos nunca sabiam dizer o que ele tinha, ele não melhorava. Ganhávamos tudo no grito. Entramos em contato com a direção do hospital para explicar o nosso caso, os erros, a negligência o descaso, fomos descartados.

Madrugada do dia 10 de SETEMBRO, liguei para o meu marido e disse: CORRE, nosso filho está parando! Meu filho morreu em meus braços. O médico plantonista daquela noite pouco fez, entregou meu filho à morte como eles já haviam entregado tantas outras vezes, mas ele resistia. Naquela noite ele não aguentou. Segurei-o em meus braços, gritei VOLTA FILHO VOLTA, VOCÊ AGUENTOU ATÉ AGORA VOLTA, soprei no seu narizinho, chacoalhei, senti seu coração parando. Seu corpinho já estava gelado. MEU FILHO MORREU. Ali fiquei por algumas horas, friamente o medico foi embora, abracei meu filho, segurei na mãozinha dele já geladinha e sem vida, prometi que a morte dele não seria em vão, que lutaria por justiça por ele e por tantos outros que ali morreram por erro, negligencia, descaso.

Beijei muito meu filho naquele dia, muito mesmo. Hoje faz 10 dias que ele se foi e que sigo na luta, meus posts viralizaram, muitas coisas vieram à tona, mas a noite quando deito minha vida já não tem o mesmo sentido, meu coração é tristeza, minhas lagrimas escorrem que nem percebo… Voltaria naquele domingo dia 24 de Julho e se pudesse pararia o tempo… TE AMO meu Benjamin. A morte não é o fim.

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Anjinho Benjamin

Nós, do Temos que falar sobre isso, ESPERAMOS QUE ESTE RELATO SIRVA DE ALERTA, que os profissionais que trabalham na área da saúde, com mães e bebês, SEJAM MAIS HUMANOS, que se conscientizem de uma vez que a vida das pessoas não é mais uma vida, que devem tratar cada um com o cuidado, atenção e empatia que merecem, que parem de violentar mães, bebês e famílias!! Onde ficou a humanidade dos profissionais que deveriam cuidar e salvar vidas? Estamos muito tristes e impactadas com essa história, e estamos oferecendo toda a nossa solidariedade para a Lidiane, tentando acolher a sua dor e acalmar o seu coração.

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53 comentários Adicione o seu

  1. Patrícia Bruno Moraes disse:

    Sim, bem parecido com minha Késia, cheguei dar entrada na delegacia fiz corpo de delito, o dr já estava dormindo na hora que cheguei com a bolsa rompida e tudo nosso no hospital, fiquei só num quarto de pré
    Quem me ajudava eram as meninas que já tiveram o seu bebê, eu não tinha passagem para uma bebê grande abraço.espero resposta mães unidas com anjos

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