O bebê idealizado X o bebê real

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Por Rafaela Schiavo

O tornar-se mãe/pai não é algo que ocorre imediatamente quando nasce o bebê, mas é uma construção que tem início na infância do sujeito. A criança antes de nascer tem uma pré-história, construída por cada um de seus pais. O desejo de se ter um filho remonta a própria infância do sujeito que o deseja, determinando a forma como cada pai e mãe irá exercer sua parentalidade.
O filho pode ocupar nas fantasias de seus pais uma função reparadora, ou seja, o que ele não conseguiu para si, o filho terá oportunidades de conseguir, ou aquilo que foi bom para si, irá reproduzir na sua ação materna ou paterna para que o filho também tenha essa satisfação. É como se uma mãe/pai pensasse assim: “Minha infância foi muito difícil, tinha dificuldades em fazer amigos devido a estar sempre mudando de cidade, por causa do emprego de meu pai; quando tiver meu filho não deixarei isso acontecer, para que ele não se sinta triste”. Ou ainda “Não tenho o que reclamar sobre a criação que recebi de meus pais, portanto, quando tiver meu filho, também darei a ele a mesma forma de educação”. Esse tipo de pensamento indica que os pais sentem que o filho será uma extensão de si, com os mesmos desejos e vontades, entretanto, o filho é um outro e pode apresentar desejos e vontades bem diferentes de seus pais.
Bernard Golse (2002) propõe 4 tipos de representações parentais sobre o bebê que são: a criança fantasmática, que se refere à criança fantasiada por cada um de seus pais, desde a infância, porém entende-se que essas fantasias não são em nível consciente; a criança imaginária, que se refere à imaginação dos pais a respeito do filho de forma mais consciente, como eles descrevem em conjunto o como será essa criança (características físicas, por exemplo); a criança narcísica, refere-se a como os pais querem que a criança os suceda; e a criança mítica ou cultural, que é a criança coletivamente representada por uma dada sociedade em determinado momento (criança saudável, por exemplo).
Portanto, o bebê idealizado existe não só a partir da gestação, quando a mãe e o pai passam a criar expectativas quanto ao filho, mas essa idealização ocorre desde a infância de cada indivíduo do casal e na gestação tais pensamentos retornam com maior intensidade, devido ao fato de que em poucos meses a criança nascerá. O bebê é, portanto, idealizado não só pela mãe, mas também pelo pai; não só as características físicas para o bebê são idealizadas, mas também os comportamentos para esse bebê. Na maioria das vezes, pais e mães querem ter filhos calmos, que durmam bem, não tenham problemas de saúde etc, idealizam também que a criança faça e goste de coisas às quais os pais não tiveram acesso e, por fim, toda essa idealização também segue um padrão cultural, como deverá ser um bebê, filho de pais heterossexuais e com estabilidade financeira.
Entretanto, o bebê real pode ser muito diferente do bebê idealizado. A criança pode não corresponder às fantasias dos pais quanto às características físicas, comportamentais e psíquicas, por exemplo. Imaginava-se um bebê que se alimenta de forma tranquila, mas o bebê real pode dar um baita trabalho para comer e ganhar o peso necessário, ou imaginava-se um bebê de temperamento fácil e vem aí uma criança difícil, imaginava-se ser mãe de uma menina, mas será de um menino, imaginava-se que a criança nasceria sem problemas de saúde e nasce uma criança com alguma doença que a acompanhará pelo resto da vida etc.
Esse choque entre a criança idealizada e a criança real pode mexer com a saúde psíquica dos pais, levando ao adoecimento, como, por exemplo, a depressão pós-parto, altos níveis de estresse, entre outros. O melhor a se fazer nessas horas é procurar ajuda de um profissional da saúde mental.
Seria importante que durante a gestação os pais pudessem ter um espaço para partilhar seus desejos, fantasias, idealizações a respeito do bebê e que também, ao mesmo tempo, pudessem entender que existem dois bebês, um real e um idealizado. Até a gestação eles conviveram com o bebê idealizado, mas, a partir do nascimento da criança, terão que conviver com o bebê real, que pode ou não atender algumas das expectativas dos pais. Pode ser, portanto, mais leve e mais fácil fazer o luto pelo bebê idealizado ao ter de conviver com o bebê real.

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