Me sinto oca. Minha vida é cinza.

Anônimo. 1 filho. Arquiteta. 35 anos.

Desabafo Anônimo: Eu não sei nem por onde começar esse desabafo, porque são tantas, tantas coisas. Esse final de semana meu marido disse “você reclama de tudo”. E eu fiquei com essa frase na cabeça e não consigo parar de pensar nela. Será? Será que o problema sou eu?

Minha vida era das mais tranquilas e felizes até 3 anos atrás, que foi quando me tornei mãe. Eu não quero dizer com isso que a maternidade me trouxe infelicidade, mas trouxe. Não é algo fácil de explicar: é preciso justificar. Não é preciso, mas é. Eu amo meu filho. Óbvio que eu o amo. Mas eu não amo minha vida depois dele. Eu não amo nada na minha vida.

Meu casamento desmoronou. Tivemos um primeiro ano infernal. Brigas constantes, muito choro (meu e do bebê). Alguns dizem que a “ficha” do pai demora a cair, que precisamos compreender. Mas por quê? Por que eu tinha que aceitar e compreender que no momento mais difícil da minha vida o cara que deveria me ajudar estava na casa dos vizinhos bebendo? Que levou mais de um ano para ele ser pai de verdade? Por que eu tenho que achar isso normal e baixar minha cabeça?

Não aceitei, bati o pé. Me desesperei, chorei, gritei, implorei. Hoje posso dizer que ele é quase um pai perfeito, mas o desgaste que esse início nos causou parece que não tem cura. Eu amo meu filho, mas detesto a maternidade. Desculpa, eu não gosto de trocar fralda. Eu não gosto de não poder ler um livro, ver um filme, sair. Eu não gosto de não ser mais quem eu era. Eu não me reencontrei. Há 3 anos eu não sei mais quem eu sou, só me sinto perdida, vagando à deriva, sendo levada pra onde o vento mandar.

Fiquei quase 3 anos sem dormir mais que 3 horas seguidas. Isso destruiu minha saúde física e emocional. Eu amo meu filho, odeio a maternidade, mas me entreguei de corpo e alma a ela. Amamentei em livre demanda por 2 anos e 9 meses. Amamentei até quase morrer de exaustão. E fui criticada por amamentar tanto. E também quando decidi parar.

Eu tenho ajuda de todo mundo, não posso reclamar. Ou posso? Se a gente tem ajuda precisa aceitar todas as condições? Minha mãe cuidou do meu filho quando voltei a trabalhar, o fato de não precisar deixá-lo em uma creche era maravilhoso. Mas não era. Ela queria mandar, ela dava palpite em tudo, ela me criticava em tudo, ela não me respeitava, não aceitava minhas decisões. Chegou a dizer que eu precisava de tratamento psicológico porque era uma maluca natureba. Se ele fica doente a culpa é sempre minha. Se eu faço, fiz errado, se não faço, sou um monstro. Me sinto oprimida 100% do tempo por ela. Nossa relação nunca foi boa. Depender dela é meu pior martírio.

As pessoas não me ouvem, não me enxergam. Me sinto cada dia mais vazia e mais sozinha. Sei que parece frescura, mas eu estou sempre disposta, sempre disponível, e me sinto abandonada por todos. Ninguém quer me ouvir. Ninguém tem interesse real em saber como me sinto. Ajuda? Nem espero por isso. Mas a sensação nítida é de que estou afundando. Parece que, como estou sempre disponível e como sempre fui a mediadora das crises da família, eu sou vista como uma pessoa que não tem problemas, medos, dúvidas, tristezas. Todos têm problemas, medos, mas eu não tenho esse direito. “Fica quieta aí, já está todo mundo ocupado demais”. Não preciso de ajuda. Não sou vista. Não sou compreendida. Não existe uma mão estendida. Nada.
Me sinto oca. Minha vida é cinza. Meu casamento é uma farsa. Eu não tenho amigos, não tenho com quem contar e estou cansada de fingir que estou bem.

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7 comentários Adicione o seu

  1. Nataly disse:

    Eu me sinto assim também, eu amo ela, minha filha é um tesouro, mas as responsabilidades que a maternidade me trouxe me sufocam.
    Estou com um quadro depressivo latente, e até ja pensei na morte, quem vê minha vida acha que tá tudo bem, tenho um namorado que me apoia, uma filha linda e saudável e tenho a oportunidade de fazer um curso superior, então eu não deveria reclamar do que tenho, acabo me sentindo culpada por nunca estar satisfeita.

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    1. damiangrimani disse:

      Olá Nataly,
      Um abraço forte em você!
      A maternidade vem carregada de muita culpa e obrigações. É preciso estar sempre incondicionalmente feliz e isso verdadeiramente não é possível. Somos humanas, somos reais e nos sentimos muitas vezes frustradas e infelizes.
      Se permita sentir. A sensação de sufocamento vem quando tentamos abafar nossos sentimentos, a depressão vem quando estamos desconectados com nossos desejos.
      E perceba, se o momento é tão desafiador que causa sofrimento, acredito que uma saída seria buscar ajudar de uma psicóloga para elaborar toda esta experiência e assim clarificar o caminho para que você se sinta fortalecida.
      Envio alguns links de grupos de apoio virtuais que podem te auxiliar:
      https://drive.google.com/file/d/0B7U4Ik9GxJFAUmtfbVFvb3hOQWM/view

      https://temosquefalarsobreisso.wordpress.com/2015/10/10/mapa-de-grupos-de-apoio/
      Estou aqui! Conte comigo!
      Muito acolhimento para você!
      Damiana

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  2. Bibi disse:

    Saiba Q vc não é a única a sentir-se assim.
    Tb me sinto, ajudo a todos e não recebo um pingo de dedicação .
    Parabéns pela coragem de expor td o Q vc sente , milhões de mulheres nesse momento estão de identificando com seu texto e chorando num cantinho da casa
    Pq não tem ng pra desabafar ou pior se falar isso seria julgada
    Eu espero Q cada mãe Q sente perdida possa um dia se reencontrar , achar um motivo pra seguir em frente, realmente satisfeita e feliz !

    Curtido por 1 pessoa

  3. Márcia disse:

    Bom saber que não estamos sozinhas.

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  4. Márcia disse:

    Bom saber que não estamos sozinhas.

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  5. Alessandra Miranda disse:

    Não se sinta assim.
    Tudo que vc sente e está passando é mais comum do que você imagina, as pessoas só não tem a coragem que você teve de falar.
    Acredito que existe uma “glamourização”em torno da maternidade, escondendo assim toda sua realidade de como é dificil cuidar de um bebê, não é facil.
    Creia, essa fase vai acabar, e tão logo você terá sua vida de volta.
    A vida é cercada de ciclos, e os filhos crescem.
    Fique bem!

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  6. Christina disse:

    Esse desabafo foi feito para mim…Me sinto exatamente assim como no desabafo da anônima. É muito triste isso que passamos…eu me sinto vazia sem vida choro muito…noites sem dormir! Amo muitooooooo minha filha mais odeio a maternidade! Sinto saudades da minha vida de antes. Todo mundo tem direito de sentir e eu não posso sentir nada.As pessoas parecem que não me enxergam…

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