O que nos costura em igualdade: depressão e gênero

em

O deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este deus que deu
destino aos meus versos
(…)

Esse deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

 Elisa Lucinda[1]

 

A proposta deste texto é iniciar uma abordagem sociológica sobre o adoecer, e em especial, o adoecer de depressão entre mulheres. Não se trata de estabelecer esclarecimentos sobre o “sexo” do indivíduo e as importantes interações orgânicas. E sim de compreender outra perspectiva, a de “gênero”. “Gênero” aqui pode ser entendido como uma construção social que se molda, constrói e se reconstrói junto ao “sexo” do indivíduo. Não se trata de uma construção de identidade de uma dada sociedade, de um certo tempo, de um certo grupo de maneira parada, mas sim de identidades constantemente questionadas, constantemente resignificadas sobre como ou não mulheres devem proceder, como ou não podem sentir, como ou não lutam para ser.

A atuação feminista passa a reconhecer que “a minha dor, ou meu silêncio, ou minha cólera, ou minha percepção não são finalmente somente minhas, e que me situam em uma situação cultural compartilhada que me permite, então, habilitar-me e capacitar-me em vias insuspeitáveis”[2]. É o que nos costura em igualdade.

A possibilidade de estudar gênero leva-nos a compreender que essas relações são implicitamente políticas porque são condicionadas por estruturas sociais compartilhadas, ainda que todas essas mulheres tenham seus contornos subjetivos. Isso significa também que a análise de gênero pode levar a outras desagregações como classe, religião, etnia, idade, estado civil, violências, trabalho, escolarização, nacionalidade, migrações, entre muitas outras.

Complementar o entendimento da depressão sob o viés de gênero é pensar que o adoecer pode ser produto de uma complexa rede de fatores sociais, políticos, econômicos e culturais. A sensação da depressiva de que seu sofrimento é apenas seu, fruto do seu próprio fracasso diante das circunstâncias é compreensível, porém questionável. A depressão impõe desafios à família, aos amigos, ao trabalho, às políticas públicas e aos profissionais envolvidos no atendimento.

Diagnosticar a depressão longe dos contextos sociais em que ela ocorre pode fazer com que essas mulheres lidem com seu sofrimento de modo ainda mais silencioso e solitário. Em muitos casos, basear o tratamento apenas no atendimento psicofarmacológico intensifica a alienação da mulher diante de si mesma e das suas próprias características[3], já que pressupõe a todas as mulheres o que é ser “normal”.

Estudos[4][5][6] destacam que, nos casos dos diversos tipos de depressão, mulheres discursam sobre: fracassos e preocupações na maternidade; sofrimento de violência física e psicológica, incluindo a violência obstétrica; impedimentos e estigmatização no trabalho; sentimento de que seu sofrimento é invisível aos olhos da sociedade; padecimento por não se enquadrar nos ideais estéticos; tormentos por expectativas não correspondidas em relacionamentos afetivos passageiros ou estabelecimento em relacionamentos afetivos infelizes; esgotamento pelas responsabilidades de trabalho e domésticas; entre tantas outras. Esses sofrimentos são compartilhados por outras mulheres e devem ser pensados em conjunto no tratamento à depressiva. É o que nos costura em igualdade.

E para você que deseja ouvir o belíssimo “Poema do Semelhante”, aqui vai o endereço eletrônico: https://youtu.be/mfRV_I2nxSM.

 

[1] Excertos do belíssimo “O Poema do Semelhante”, de Elisa Lucinda. Disponível em <http://www.escolalucinda.com.br/bau/osemelhante.htm>. Acesso em 08 de setembro de 2016.

[2] BUTLER, J. Actos performativos y constitución del género: un ensayo sobre fenomenología y teoría feminista. In: CASE, S.-H. (Org.).Performing feminisms: feminist critical theory and theatre. Baltimore: Johns Hopkins, 1990, p.301 (tradução minha).

[3] TAVARES, L. A depressão como “mal-estar” contemporâneo: medicalização e (ex)-sistência do sujeito depressivo. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010.

[4] ZANELLO, V.; FIUZA, G.; COSTA, H. Gender and mental health: gendered facets of psychological suffering. Fractal, Rev. Psicol.,  Rio de Janeiro ,  v. 27, n. 3, p. 238-246,  dez.  2015.

[5] ESCOBAR, J.; PACORA, P.; CUSTODIO, N. e  VILLAR, W. Depresión posparto: ¿se encuentra asociada a la violencia basada en género?. An. Fac. med. 2009, vol.70, n.2, pp. 115-118 .

[6] CAMBAUVA, L.; SILVA JUNIOR, M. Depressão e neoliberalismo: constituição da saúde mental na atualidade. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 25, n. 4, p. 526-535,    2005.

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