Será mesmo que meninos não podem brincar de bonecas e meninas de carrinho?

Por Teresa Ruas – 02 Setembro 2015 – Minha Teoria na Vida…

É inevitável não pensarmos em como a nossa cultura e as suas normas podem ‘massacrar’ os desejos e as expressões mais íntimas de toda criança em formação psíquica e emocional. Sabemos que não vivemos sem a influência cultural e suas marcas históricas e temporais. Essa carga faz parte de nossa constituição como seres humanos, afinal de contas somos seres culturais e que expressam as suas ações em um determinado tempo e espaço. Mas será mesmo que a nossa expressão, o nosso subjetivismo em formação e elaboração constante, consegue mesmo se desvelar com liberdade, criatividade e autenticidade em uma cultura tão marcada por normas e dizeres que tentam o tempo todo normatizar o comportamento humano e, desde a infância?

Infelizmente, a sociedade normatiza tudo e todos! E nesse processo, frequentemente, boicotamos o desejo infantil e anulamos a autêntica expressão subjetiva de uma criança, por exemplo, quando não permitimos a sua livre exploração e vivências com os diversos e diferentes objetos, acessórios, brinquedos e brincadeiras que permeiam o ‘mundo feminino’ e o ‘mundo masculino’. Ou até mesmo quando perpetuamos a cultura onde a ‘versão masculina’ é azul e a ‘feminina’ é a rosa, não permitindo ou promovendo experiências nas quais não existam cores e/ou objetos específicos que identifiquem e/ou separem meninos de meninas e vice versa.

E nesse contexto todo de normatização e segregação do que é esperado para meninos e meninas em crescimento, penso que quando não permitimos que o desejo seja um dos principais combustíveis para a constituição humana, podemos, sim, adoecer o indivíduo em desenvolvimento, ou seja, as nossas crianças. As brincadeiras infantis precisam, sim, serem guiadas pelos desejos mais íntimos, verdadeiros e autênticos de cada criança. É assim que garantimos a ela o autoconhecimento, a autoestima, a imaginação, a criatividade e a vivência de quem realmente é. E quando afirmo sobre o desejo, não estou dizendo que não devemos impor limites às crianças. Mas os limites necessários são os relativos a manutenção do bem estar e da própria segurança e, não a um limite construído socialmente que impede a livre expressão de quais são as motivações latentes em um corpo e mente em formação.

Por mais que, felizmente, já tenhamos em algumas culturas e escolas a não divisão de categorias/gênero nos brinquedos e brincadeiras, nas quais meninos e meninas podem circular e vivenciar livremente qualquer objeto, vestimenta, lugares e cenários, infelizmente, a nossa cultura- a latino americana- ainda é ditadora e preconceituosa quanto a esse aspecto.  Ou seja, ainda em nossa cultura, um menino, em formação psíquica e afetiva, não pode gostar dos sapatos de saltos e das saias de sua mãe. Uma menina não pode gostar de jogar futebol e de lutas. Um menino não pode gostar de brincar de bonecas. Uma menina não pode gostar de brincar de carrinhos. Os pais e educadores ainda dividem as atividades por gênero e apresentam preocupação excessiva quando a identificação preferencial, por parte da criança, ocorre com o gênero oposto.

E isso demonstra o quanto a nossa sociedade ainda impede que as crianças cresçam identificando, de fato, quais são as suas preferências, como são e quem são e, mais do que isso, que descubram, naturalmente, as semelhanças e as diferenças que existem entre homens e mulheres. Diferenças que demarcam não só os corpos, como estruturas biológicas, mas alguns comportamentos, condutas e formas diferentes de homens e mulheres lidarem com as demandas ambientais e culturais presentes em nosso dia a dia.
E as experiências que permitem a criança vivenciar o universo do gênero oposto deveriam fazer parte do desenvolvimento de todo ser humano. A preocupação com a inversão de papéis e com a identidade e orientação sexual ocorre na cabeça dos adultos, diante dos tabus culturais e, não nas crianças. Até porque vivenciar o papel do outro é de extrema importância e de extrema valia para o desenvolvimento afetivo, psíquico e social de todo e qualquer ser humano em formação. Talvez… se os pais e educadores permitissem, realmente, a livre expressão e experiência diante do papel do outro e do gênero oposto, teríamos homens e mulheres muito mais bem resolvidos em suas diferenças e semelhanças. Afinal de contas, a experiência em atividades e brincadeiras do gênero oposto facilita e estimula o desenvolvimento da identidade de cada um. E esse conhecimento é uma ferramenta potente para diminuir o preconceito, estimulando, desde cedo, o respeito às diferenças e às escolhas individuais. Tanto é que em diversas culturas e escolas, não existe a divisão de categorias/gênero nos brinquedos e brincadeiras. Meninos e meninas podem circular e vivenciar livremente qualquer objeto, vestimenta, lugares e cenários.
Penso que a preocupação só deve existir se a criança apresentar sofrimento, raiva e/ou retração social e afetiva ao não se identificar com o seu gênero anatômico. O acompanhamento terapêutico nesses casos faz-se necessário.

Finalizo este texto, pontuando que deveríamos ouvir mais os nossos corações, os nossos desejos e nossas motivações. E ensinar isso a nossas crianças em desenvolvimento. Acredito que crianças e adultos mais felizes e mais resolvidos sejam capazes de expressar mais respeito, solidariedade, igualdade, humanidade e acolhimento diante das diferenças e escolhas pessoais e individuais. Acredito que crianças e adultos mais felizes são capazes de analizar mais criticamente a influência cultural e social em nossas condutas e ações e se transformarem, realmente, em agentes que modificam a forma normativa de pensar e agir. Então… vamos educar as nossas crianças com o intuito de que elas possam ser felizes, críticas e agentes de transformação no futuro… Que a conduta desse pai no vídeo abaixo possa ser multiplicada em muitas famílias e culturas.

No vídeo ele diz que seu filho mais velho, Azai, fez aniversário e ganhou dois presentes idênticos. Ele sugeriu que fossem na loja de brinquedos e trocassem um por algo que o filho não tinha. E o filho escolheu a boneca da pequena sereia. “Como você pensa que um pai se sente quando seu filho escolhe isso?” questiona o pai, exibindo a boneca. “Yeah!”, grita ele em seguida! “É assim que eu me sinto! Eu deixo meus filhos escolherem a vida que quiserem. É assim que a mãe deles e eu pensamos, é assim que nós somos. Nós dizemos, sim, escolham. Escolham a sua expressão, escolham o que vocês gostam, escolham a sua sexualidade, escolham o que for! Vocês tem a minha promessa agora mesmo, nesse carro, vocês têm a minha promessa que para sempre eu vou amar vocês e aceitá-los, independente da vida que vocês escolherem.”

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