O que estamos fazendo com as nossas crianças?

Por Thais Cimino – 01 Setembro 2016


Pense comigo: você, vai para um lugar com amigos, ou com a sua família. Um lugar que você não conhece mas que lhe disseram que é super divertido, um lugar onde você vai fazer novos amigos, descobrir novas habilidades e viver novas experiências com pessoas da sua mesma idade. Daí você chega todo empolgado, e de repente, os seus amigos, família ou conhecidos vão embora e você fica sozinho nesse lugar desconhecido. Outras pessoas que também vieram para esse lugar estão chorando e gritando, e você olha pro lado, olha pro outro e se repete a cena, todo mundo chorando, angustiado e desesperado. O que você ia pensar? Você ia se sentir à vontade? Ia se sentir ameaçado? Ia pensar que está tudo bem e que aquele lugar é legal? Ia ficar com medo? Inseguro? Eventualmente todos param de chorar e tudo fica “bem”. Desafio ultrapassado. Amanhã tem mais. Tenho certeza que a tensão você irá lembrar pelo menos por algum tempo.

Hoje fui levar a minha filha no primeiro dia de escolinha. Ela tem dois aninhos e meio e não vai porque não temos escolha, ela vai porque pensamos que será bom pra ela conviver com outras crianças e ter um tempo dela, serão 3 horas durante a manhã.

Quando chegamos na escolinha tinha uma multidão de pais, professores, crianças … tava um tumulto. Entrando na salinha de aula, vários brinquedos, livros, lápis e canetinhas. Ela foi explorar, fez um desenho e estava bem.

Daqui a pouco começam os choros. Uma menina de uns 3 aninhos chorando desesperada. A minha filha me olhou e começou a chorar. Veio pro colo, saímos da sala pra pegar um ar. Mas tinha muita gente, muita gente totalmente desconhecida. Caminhei com ela pelo pátio pra mudar o foco e passar segurança de que eu estava ali com ela.

As crianças começaram a entrar pra sala, os pais indo embora com caras de ansiedade e frustração. Muitos olhando pelo vidro da porta com o coração partido, outros fugindo dos olhares de crianças desesperadas em estarem sendo deixadas naquele lugar desconhecido, com adultos desconhecidos e um monte de outras crianças desconhecidas que choravam em um coro que é de partir a alma. Entramos por último na sala, coloquei a Vida sentadinha em um banco, ao lado um menino chorava desconsolado, o resto da roda era constituída por outros meninos e meninas de por volta 3 anos de idade, todos chorando, chamando a mãe, perdidos naquela salinha, com o coração em pedaços sem entender a razão de terem que permanecer naquele local nada familiar sem a presença de ninguém da sua confiança. Apenas duas ou três crianças não choravam, a minha filha era uma delas porém tinha um olhar de desconfiada e apreensão porque as outras crianças estavam aos prantos e ela não estava entendendo a ameaça, algo aconteceria com ela também? Por que os outros estavam com medo? Por que estavam chorando? Por que estavam chamando pela mãe?

No que as professoras me olharam com cara de poucos amigos, entendi que era hora de sair, sempre conversando com a minha filha e tentando lhe passar segurança, olhei nos olhos dela, disse que ia sair naquele momento mas que voltava para buscá-la como na creche. Dei um beijo e no meu caminho de saída da salinha de aula tinha uma menina chorando sozinha como em um transe chamando pela mãe. Eu parei e me ajoelhei tentando acalmá-la enquanto as professoras tentavam acalmar os outros 15 ou 20 que choravam em grupo e assutavam os poucos que não estavam chorando. As duas professoras vieram na minha direção dizendo que “elas sabem o que estão fazendo que eu poderia me retirar, já”. Eu olhei pras duas, disse que se a minha filha chorasse desse jeito era para me ligar na hora que eu iria buscá-la. Elas me respondem que sim, mas que essa menina que eu tentei acolher “para de chorar sozinha, tem que deixar”. Eu reiterei o meu desejo de que me ligassem e saí da sala. Elas finalmente ficaram na sala sozinhas com todas essas crianças chorando. Deixei minha filha com a tranquilidade de que ela estava bem ainda que em um ambiente incomodo, pois ver várias crianças da idade dela chorando significa certamente um desconforto para ela.

Sai da sala e desabei a chorar. Não pela minha filha, porque como falei ela estava bem, vai pra escolinha para socializar, não por obrigação, ela vai porque demonstrou interesse em ir. Chorei porque todos aqueles choros entraram na minha alma como “alguma coisa aqui não está certa”. Se antes já me questionava, hoje, meu coração partiu em mil pedaços e meus questionamentos quanto a escola tradicional aumentaram ainda mais, minhas dúvidas são muitas. O que estamos fazendo com as nossas crianças?

Eu enquanto olhava aquelas crianças tão pequenas, indefesas, frágeis e inseguras chorando como se o mundo estivesse acabando (e para elas deveria ser esse mesmo o sentimento) parecia que estava saindo de um campo de concentração. Um lugar onde nada era conhecido, um lugar onde elas estavam desamparadas de qualquer fonte de segurança externa e que deveriam ter muita confiança interna para permanecer ilesas ao medo e desafio de ficarem sozinhas naquele lugar com seus semelhantes que choravam desolados sem saber o que estava acontecendo.

Saí de lá triste. Espero que seja coisa de mãe de primeira viajem. Mas algo no meu coração me diz que isso não está certo. Estamos submetendo nossas crianças a situações muito mais desafiadoras e pesadas do que elas podem aguentar ainda tão cedo. Nosso dia a dia cheio de pressa, horários, estresse, pressões, cobranças e cansaço está colocando as crianças em situações que elas ainda não estão preparadas para enfrentar e nos colocando em situações que não desejamos porém, muitas vezes, não temos outras opções

E por favor, não estou aqui tratando de culpabilizar as mães e pais que precisam deixar os filhos na escolinha ou na creche, nem aos que optaram por essa escolha, nada disso, eu também optei. Vejam bem, a minha inquietação hoje foi com o sistema que criamos, foi com a sociedade, foi com a falta de opções. Minha dor foi pelos pais e mães e crianças que não estavam confortáveis com aquela situação. O que estou propondo é uma reflexão sobre isso.

O que eu vi foram pais e mães apreensivos, com expressões de tristeza em ter que deixar os filhos ali sozinhos enquanto esses choravam, gritavam e clamavam pelos pais e mães que de repente não estavam mais ali.

Temos que pensar em que tipo de educação estamos proporcionando para nossos filhos. Que tipo de exemplo estamos dando a eles. Que tipo de situações e desafios estamos fazendo que nossos pequenos afrontem ainda tão pequenos e como isso molda a personalidade, os medos, as inseguranças, as relações deles.

O que aconteceu que nos deixamos levar (e somos pressionados e obrigados diariamente) por jornadas de trabalho exaustivas, que não nos dão tempo de pensar, de sentir, de ver nossos filhos crescerem? Onde erramos que precisamos deixar nossos pequenos nas mãos de outros cuidadores desconhecidos, em um local desconhecido confiando que estamos fazendo o melhor para as crianças, para nós mesmos e para nossa família? Que classe de sociedade nos tornamos ao acreditar que crianças pequenas estão preparadas para enfrentar horas e mais horas longe de qualquer referência familiar, de confiança e de apego? O que nos tornamos ao acreditar que um grupo de crianças de até 3 anos chorando desesperadas a ausência das mães e pais é normal? Por que temos que nos colocar em situações tão incômodas que nos machucam, que nos apertam o coração? Por que não temos opções e outros tipos de soluções para a coletividade dos nossos filhos? O que podemos fazer para mudar?

Agora vou lá buscar a minha pequena no seu primeiro dia de escolinha que foi cheio de emoções fortes e desafios. Espero que ela tenha ficado tranquila e tenha podido se divertir e socializar depois de presenciar tanta apreensão ao ver os coleguinhas chorando. Espero que o clima tenha se amenizado e que ela venha empolgada me contar como foi a manhã na escolinha.

P.S.: Ela chegou contando que passou uma ótima manhã, que cantou e brincou com os coleguinhas, que se divertiu, virou cambalhota e que a profe contou historinhas. Ufa!

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