Não amamentei. E agora?

Por Damiana Angrimani Bonavigo – 20 Agosto 2016


Postei um texto chamado “Nunca pensei que fosse amamentar uma criança de dois anos”, aí uma amiga muito querida me enviou a seguinte mensagem:
“Sempre fui defensora do aleitamento, incentivei e incentivo muito as mães que chegam a mim, porém já me deparei muito com mães que não conseguem amamentar e se frustram com isso, tentam de tudo e nada. Talvez se pudesse escrever algo a respeito ajudaria algumas mães que entram em desespero por não conseguirem amamentar e aí a angústia acaba por atrapalhar mais o processo.”
Começamos a conversar e pedi que ela me contasse algumas histórias sobre essas mães que não amamentaram:
“Tenho uma prima que teve bebê e assim como eu ela queria parto normal, não rolou… Ela sentia que a bebê tinha sido arrancada dela. Não conseguiu amamentar.”
“Outra amiga a neném gritava o tempo todo e ela dava o peito e nada… com 10 dias a neném não ganhava peso ela não sabia mais o que fazer até que o pediatra falou que a menina estava com fome e que o leite dela não estava sustentando a filha.”
“Outra também não tinha leite de jeito nenhum e não teve em nenhum dos dois filhos.”
Nesta mesma semana uma outra amiga me ligou e começamos a conversar: “Dami, eu estou acompanhando muitas postagens da semana de apoio à amamentação, leio que as mães devem ser apoiadas, temos que apoiar a amamentação, que o apoio é essencial!! E aí o que fica para mim é: Cadê todo esse apoio??? Na maternidade a enfermeira mal olhou para a pega, chego no pediatra e ele me manda dar chá para um bebê de dois meses, na rua as pessoas perguntam até quando vou amamentar… Enfim, acho que o que falta é o APOIO, CONSCIENTIZAÇÃO E CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL”
Fui pesquisando e li um monte de outras histórias relacionadas ao insucesso na amamentação, há um tanto de: bebês “preguiçosos”, bebês “famintos”, mães com “pouco leite”, mães com “leite fraco”. E um monte de outras que com certeza você já ouviu ou viveu.
A psicóloga Maria Tereza Maldonado escreveu que a falta de apoio dos profissionais, familiares e amigos que cercam a nutriz pode gerar insegurança em sua capacidade de alimentar o filho e ela pode acabar interpretando como uma mensagem de desvalorização. A associação entre o sucesso ou o fracasso da amamentação, as emoções da mãe e as atitudes das pessoas que a cercam estão se tornando cada vez mais claras.
Calma, confiança e tranquilidade favorecem o aleitamento; por outro lado, medo, depressão, tensão, dor e fadiga tendem a provocar o fracasso da amamentação.
O primeiro evento social da vida de uma criança ocorre com a interação entre mãe e filho na situação de amamentação. Apesar de evidências científicas dizendo o contrário, a amamentação na nossa época é considerada algo desnecessário, ultrapassado e primitivo. Por conta disso, há uma infinidade de chupetas, mamadeiras, leites artificiais, pitacos e indicações que acabam por atrapalhar a amamentação e a confiança da mãe.
A inclusão de bicos artificiais como mamadeiras e chupetas pode levar ao insucesso da amamentação. Quando as crianças se acostumam com a mamadeira podem acabar deixando o peito. Muitas mães dizem: “enjoou do peito” e a explicação mais popular é que “como a mamadeira é mais fácil, se tornam preguiçosos e não querem se esforçar pra mamar no peito”.
De acordo com o pediatra Carlos González isso não está correto. Nos trechos a seguir ele fala um pouco sobre a confusão de bicos: “A mamadeira não é mais fácil. O problema não é que seja mais fácil ou mais difícil, e sim que é diferente. O leite precisa ser tirado do peito, exceto as poucas gotas que saem sozinhas, e para isso a língua é empurrada ritmicamente para trás. Além de tirar o leite, este movimento tende a introduzir o peito cada vez mais dentro da boca, o que por sua vez permite que o bebê mame melhor. Já da mamadeira, ao contrário, o leite sai sozinho; o bebê precisa impedir que ele saia para poder engolir o que já tem na boca. Com a mamadeira, a língua se move ritmicamente para a frente. Esse movimento tende a tirar a mamadeira da boca.”
“Alguns médicos insistem que a confusão de bicos não existe e que dar uma ou várias mamadeiras ao recém-nascido não prejudica em nada a amamentação. O certo é que não existem provas experimentais, porque para isso teriam que oferecer mamadeiras de propósito a um grupo de bebês, escolhidos aleatoriamente, para ver o que acontece. Os que acreditam que isso não é ruim não se dão ao trabalho de fazer o estudo, os que acreditam que sim, que é prejudicial, pensam não ser ético conduzir um estudo assim. Mas alguns dos que não acreditam na confusão de bicos recomendam dar a todos os bebês de peito uma mamadeira por cada semana, no mínimo, para que eles se acostumem. Porque senão, quando a mãe volta a trabalhar, ou por qualquer outro motivo tenha que sair de casa, o bebê rejeitará a mamadeira. Vamos combinar que eles reconhecem que a confusão de bicos existe pela menos no sentido contrário, de que o bebê que se acostuma ao peito logo rejeita a mamadeira.”
A inclusão de outros alimentos que não o leite materno nas primeiras semanas de vida do bebê reduz a produção de leite materno, pois sacia o bebê. Um bebê saciado não suga o peito, quando o bebê não suga, a produção de leite é prejudicada, sem produção de leite a amamentação é prejudicada.
Deixar o bebê muito tempo sem mamar também pode prejudicar o processo e a produção. Neste trecho do livro Besame Mucho, o Dr Carlos Gonzalez ele explica isso de forma incrível:
“A mãe coelha deixa os seus filhotes escondidos na toca e somente lhes dá o peito uma ou duas vezes por dia. Para passar tantas horas sem comer, os coelhinhos precisam de um leite muito concentrado: 13% de proteínas e 9% de gorduras. O filhote da cabra acompanha sua mãe por todas as partes e mama de forma quase contínua. Por isso seu leite tem apenas 2,9% de proteínas e 4,5% de gorduras. (O leite materno tem 0,9% de proteínas e 4,2% de gorduras. Quanto tempo você acha que um bebê pode aguentar sem mamar com isso?) Como em uma delicada coreografia, o comportamento dos filhotes foi evoluindo em consonância com o de suas mães e com a composição do leite: os coelhinhos que saíam da toca tentando seguir a mãe morreram jovens, assim como os cordeiros que se sentavam para esperar pela mãe em vez de segui-la. Quando ficam sozinhos em sua toca, os coelhinhos estão totalmente quietos e calados, pois se chorassem chamando pela mãe poderiam atrair os lobos. Por sua vez, as cabrinhas que perdem a mãe de vista por um instante imediatamente começam a chamá-la desesperadamente.”
Ainda de acordo com Gonzalez, a quantidade de leite que uma mãe produz não é fixa. Aos quatro meses o bebê precisa de mais leite, e, portanto sai mais leite. Mas o peito não sabe que o bebê tem quatro meses. O bebê de alguma maneira teve de dar a ordem ao peito, fabrica mais ou fabrica menos leite. E a maneira de dar essa ordem é mamando mais ou menos.
Ou seja, muitos fatores estão envolvidos na amamentação e aí eu fico pensando, como será que as mulheres do começo do texto foram acolhidas quando se sentiram inseguras, em dúvida ou tiveram medo de não conseguir?
Algumas relataram se sentir “culpadas”, “incapazes” e “péssimas mães”: “Eu não percebi que meu filho passava fome!”, “eu não tive leite”, “meu leite era fraco”, “meu leite não era suficiente”. O sistema é tão cruel que faz recair sobre as mães o insucesso da amamentação.
E como é o acolhimento desta mulher que não amamentou? Há espaço para que ela possa falar sobre as suas frustrações, expectativas não atendidas e sentimentos? Ouvi de uma mãe que ela foi com o filho até a pediatra para a consulta dos “2 meses” como ela tinha mudado de cidade era uma nova pediatra.
A pediatra começou a fazer as perguntas de rotina e quando chegou na parte da amamentação a mãe respondeu: “Ele toma leite artificial”. A pediatra anotou e foi para pergunta seguinte. Essa mãe me contou que ficou muito triste com aquilo. “Como ela não me questionou nem o por quê? Ela nem quis me ouvir, nem se importou em saber a história. Eu acho que naquele momento e em muitos outros eu só queria alguém que me ouvisse verdadeiramente. A gente começa a contar que não amamentou e as pessoas querendo ajudar logo falam:  ‘Está tudo bem’ ou ‘Isso é comum’… Ninguém te escuta… É como se falar sobre frustração e sofrimento fosse proibido”.
Quando a Manuela estava com 5 meses de vida, eu fui até uma ginecologista para uma consulta. Ela questionou por quanto tempo eu ainda iria amamentar, eu respondi que não sabia e que não me importava porque a OMS preconiza que o ideal é que os bebês sejam amamentados por no mínimo até os dois anos. Ela me respondeu que isso era para as pessoas que não tinham acesso a leite artificial e nem comida e que eu estava em São Paulo e não poderia seguir esta recomendação.
Tudo bem, eu e várias outras mulheres podemos ter dado muito azar com profissionais despreparados, mas infelizmente não acredito que tenham sido casos isolados.
Ninguém pode garantir o sucesso da amamentação. Existem mulheres que não podem amamentar por diversos motivos, ou que só conseguem com muita dificuldade. Mas há alguns fatores podem ajudar: apoio real à amamentação (família, amigos e profissionais), atualização profissional e quebra de preconceitos e paradigmas. Honestamente acredito que ainda será necessário rodar muitos quilômetros por esta estrada, mas sou otimista em pensar que atualmente há muitos movimentos que visam mudar este contexto e que em algum tempo (espero que pouco) as coisas mudem para muito melhor.
É preciso olhar para o outro com um ser único, que possui uma história que precisa ser ouvida. Ao tentar enquadrar as pessoas e transforma-las apenas em casos clínicos e teorias acredito que algo muito importante é perdido: a humanização do atendimento. Por mais que a tecnologia e os avanços sejam relevantes temos que lembrar sempre que sem as pessoas eles não precisam existir.


Textos de apoio:
Carlos González.  Bésame Mucho, Editora Timo, 2015.
Maria Tereza Maldonado. Psicologia da Gravidez, 2005.
Confusão de Bicos Artificiais – Por Carlos González – Fragmento de Un Regalo para toda la vida e de Comer, Amar, Amar, de Carlos González. Tradução: Sandra Costa. Revisão: Luciana Freitas. Texto disponível no Grupo Virtual de Amamentação (GVA)- http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2013/11/confusao-de-bicos-artificiais-por.html

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