Perda gestacional: como ajudar?

Por Fernanda Rangel – 18 Agosto 2016

Tanto no dia a dia do meu trabalho quanto nos desabafos que recebemos, muitas queixas se apresentam relacionadas a dificuldade de outras pessoas em entenderem o que se passa com a mulher que teve uma perda gestacional. Queixas como essas: “ninguém me entende” “Não tenho com quem conversar” “As pessoas ignoram o meu problema” “As pessoas fingem que não está acontecendo nada”. Então pensei em falar mais sobre isso e ajudar as mulheres que sofreram com a perda gestacional a entender o que pode provocar esse acontecimento, assim como trazer alguns esclarecimentos para quem gostaria de auxiliar uma mulher que está passando por esse problema.

Para falar sobre perda gestacional, precisamos falar inicialmente sobre morte. Culturalmente não somos acostumados a falar sobre isso, inclusive muitas vezes substituímos a palavra morte como uma forma de amenizar a situação. Falar de morte, de uma forma geral, já é difícil e falar da morte de um filho é mais difícil ainda. Aí você pode pensar, mas não foi um filho que morreu, foi um feto. Não! Foi um filho e junto com ele todas as expectativas, planos e esperanças já pensadas em relação aquela criança que estava sendo gerada. Ser mãe e ser pai não acontece somente quando a criança nasce, é um processo que se estabelece muito antes da gravidez acontecer. Sendo assim, a perda gestacional se configura como um fato marcante na vida das mulheres que não deve ser ignorado.

Vamos falar sobre quando a perda acontece, seja ela em qualquer etapa da gestação.  Todos os casos de óbito fetal, como são chamados no hospital, são atendidos em uma Maternidade. Sim, onde pode nascer também pode morrer. Não é fácil viver com essa ambivalência, uma hora o sorriso e a felicidade do nascimento, outra hora, o choro e a tristeza da morte. É assim que acontece e nesse mesmo espaço é preciso conviver da melhor forma tanto a mãe que “ganhou”, quanto a mãe que “perdeu”. Sendo assim, a experiência vivida dentro da Maternidade para a “mãe que perdeu”, pode ser determinante no curso da elaboração do luto e adaptação ao novo momento que não foi planejado, e que se apresenta muitas vezes, como a pior experiência na vida de uma mulher.

A internação da mulher acontece para que seja realizada curetagem, ou indução de parto. Sim, dependendo da idade gestacional é preciso induzir o parto e aquela mulher que ali está, passará por todo um trabalho de parto tão doloroso não só fisicamente, mas emocionalmente. É mais fácil aceitar que sentimos dor para nascer, mas não é fácil aceitar a dor para morrer. Esse período é perpassado por muitas fantasias e questionamentos relacionados ao filho morto que se encontra na barriga. Questões quanto a saúde da mãe, relacionadas ao tempo que o bebê está morto e pode ficar dentro da barriga, ao risco que a mãe corre nesse momento, assim como, questionamentos quanto ao nascimento, se ela vai querer ver o filho morto, pegar no colo e preocupações também quanto a burocracia, relacionadas a documentação e possível sepultamento.

Após o procedimento, a mulher precisa ainda permanecer um tempo internada para sua recuperação após o parto, o que pode gerar mais sofrimento ainda, pois ela estará em contato constante com outras mães e seus bebês. Essa é uma nova etapa onde se inicia o enfrentamento do luto propriamente dito, em que a aceitação da situação é um primeiro passo para o melhor enfrentamento. Após a alta hospitalar, a volta para casa também é um momento de grande crise, onde muitas vezes o quarto do bebê já está arrumado, as pessoas terão curiosidade em saber o que aconteceu e será preciso reviver a história muitas vezes.

Essas são as etapas que a maior parte das mulheres que vivenciam a perda gestacional passa. Assim, para quem nunca vivenciou, já é possível começar a entender a tristeza e a experiência vivida por essas mulheres.

Acolher uma mulher nessa situação não é fácil, pois temos a tendência em negar aquilo que nos traz sofrimento ou que entendemos que não poderemos lidar. É essencial estar disponível para escutar. Muitas vezes não sabemos o que falar, até com medo de piorar as coisas. Se você não se sente bem em falar qualquer coisa, acolha em um abraço, ou um simples “eu te entendo!” ou “você não está sozinha!” já pode fazer toda a diferença nessa história. Para isso, o que pode ajudar, é tentar se colocar no lugar dessa mulher e tentar responder essas perguntas: “O que eu gostaria de ouvir agora?” “O que eu gostaria que fizessem comigo agora?” Assim será mais fácil entender o significado que aquele momento está tendo na vida daquela mulher e da família e se posicionar diante dela da melhor forma.

Se mostrar presente também é fundamental para o acolhimento, pois ajuda a entender que não estão sozinhos nesse momento de crise. Muitas vezes não é preciso falar, somente estar presente e escutar e entender que quando olhamos para uma mulher que passou por uma perda gestacional, ela passou por todo um processo muito doloroso que pode durar muitos anos de acordo com o significado que é dado para cada história e que isso será uma marca na vida da família e que ao passar do tempo, não é esquecido, como as pessoas costumam falar, mas é aprendido a conviver com a falta e a se adaptar.

Você pode ter um papel importante nesse processo. Se essa mulher escolheu você para falar sobre esse momento difícil ou pediu a sua ajuda, é porque ela entende e espera que você possa realmente ajudá-la. Não sabe como? Pergunte! Não tenha medo de errar.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Rosimara Medeiros Silvério disse:

    Olá!!
    Que mensagem linda, é exatamente assim que me senti e me sinto até hoje.
    Só quando vivemos essa perda, conseguimos mensurar a dor. E aí pensamos, quantas pessoas não estão passando por isso nesse momento??!
    Gostaria de ser uma acolhedora, sinto que poderia ajudar muitas mãezinhas que hoje estão tristes e sem perspectivas.
    Contem comigo que estarei a disposição!
    Rosimara

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