Não existem regras para a felicidade, apenas uma busca incansável

Renata Fernandes

Desabafo Anônimo: Aos quinze anos descobri que seria mãe. Confesso que enquanto isso ainda era uma dúvida, tive medo, neguei e entrei em desespero. Quando tive a confirmação algumas sensações mudaram, outras não, pois eu ainda sentia medo e desespero, apesar de já sentir amor por esse outro coração que habitava meu corpo. Com o passar das semanas o desespero passou e deu lugar pra mais amor. Eu estava confiante de que esse fenômeno mudaria minha vida, e que a partir disso, nada seria como antes. Depois de quatro meses que descobri a gestação, eu já estava com dezesseis. Agora eu não era mais uma mãe de quinze, e por incrível que pareça, isso tirou um enorme peso das minhas costas. Porque apesar dos olhares de reprovação na rua, eu sabia que agora eu tinha um ano a mais, não me sentia tão menina, embora eu ainda fosse.

Depois de um mês e treze dias com dezesseis anos, eu soube que a Giulia chegaria ao mundo prematuramente, com trinta e quatro semanas e dois dias. Foi um choque que eu só senti na pele depois que passou. Estava tudo perfeito, até que dia dezoito de novembro tive dores de cabeça bem fortes, e no final daquele mesmo dia, tive febre e corri para o hospital. Chegando lá eles fizeram todos os tipos de exame, passei a madrugada para o dia dezenove tomando soro e sendo virada do avesso, até que as oito horas da manhã os médicos disseram que minha filha estava perdendo os batimentos cardíacos e tendo que fazer muito esforço para recuperar, eles não sabiam até que ponto ela aguentaria, minha bebê corria risco de vida e eu também, então, resolveram fazer minha cesárea. As nove e quarenta e quatro ela foi tirada de mim, ainda sem o efeito completo da raqui, senti o corte, senti quando eles arrancaram as pressas a Giulia de mim, senti o vazio dentro do meu útero. A sala estava fria e eu estava perdendo a lucidez. Lembro que só conseguia mentalizar um pedido: para não morrer. E não morri. Eu fui forte.

Algumas horas depois já no quarto, soube que minha filha havia nascido com algum problema, mas eu não fazia ideia do que. Eu só queria o meu bebê nos braços. Então as horas se passaram e eu soube que ela nasceu com uma doença congênita que eu peguei na gestação, o citomegalovírus. Naquele momento minha cabeça foi a mil, nunca tinha ouvido nome mais estranho. O que me passaram aquele dia era que minha filha poderia ser cega, surda, não andar, não sentar e que tinha que ficar internada por sei lá quanto tempo, até conseguir tratar o vírus para que não deixasse mais sequelas. Com sete dias de vida ela foi removida do Hospital onde nasceu para um Instituto da Criança. Lá ela ficou quase dois meses, eu ia todos os dias de manhã e ficava até a noite, vivi os dois primeiros meses da minha filha dentro de uma UTI neonatal. Vi rasparem o cabelinho pra colocar o acesso na veia da cabeça, vi ela tomando meu leite por sonda, vi ela tendo que interromper o tratamento do vírus por que a medicação usada era muito forte e deixava o nível de plaqueta baixos. Foram dois meses difíceis, a cada manhã que chegava no hospital, eu recebia uma notícia. Duas hemorragias cerebrais grau 2, ausência bilateral da audição e até ouvi de uma médica que ela não andaria e nunca seria uma criança normal, pra eu me contentar se ela sentasse. Óbvio que aquela não foi a minha verdade, ao ouvir isso, retruquei, disse a essa tal, que ela não sabia de nada e que minha filha ia fazer tudo.
Eram dias intermináveis, eu não suportava mais ver o berço vazio, não ter meu neném em casa comigo, mas ai chegou o grande dia. Dia 14 de janeiro ela teve alta, com três quilos e dez gramas, era o renascimento da minha filha. Ela chegou em casa e minha família preencheu a entrada com balões de ar e frases bonitinhas. Esse dia foi o recomeço da minha vida como mãe, por que apesar de estar ali todos os dias com ela na UTI, era em casa que eu poderia exercer minha função. Aqui era eu e ela, não tinha enfermeiras. Eu era a mãe que eu queria ser.

O tempo passou, a Giulia começou terapias ainda com meses de vida. Fisioterapia, fono, terapia ocupacional, acompanhamento com neurologista, fisiatra, oftalmologista, pediatra…Nossa rotina era corrida. Mas valeu a pena. Aos poucos a Giulia foi vencendo as batalhas da vida dela. Sustentar o pescoço, sentar, engatinhar, ficar em pé e andar. Tudo no tempo dela. Aos três anos e nove meses, ela conheceu o som, através do implante coclear. Sim, ela é surda, e o fato de ouvir por um aparelho não muda essa condição. O som é um apoio. Hoje ela está com seis anos e é extremamente saudável, inteligente e amorosa. Ela vê graça na vida e sente fome de viver. É uma criança simples e risonha, sem grandes ostentações, ela vê na graça no ato de existir. Eu sou mãe e hoje me sinto menos menina do que com dezesseis, os olhares continuam, porém, eu aprendi a lidar com eles. Abstraio e transformo em força pra nós duas.
Ser mãe não é tarefa fácil, requer paciência, entrega e amor incondicional. E ser mãe de um filho especial, é tudo isso e mais um pouco. Confrontar o conceito de normalidade a cada ida num parquinho, explicar o diferente nas filas de loja de brinquedo ou no super mercado, é isso que vivo, e modéstia parte, faço isso muito bem.
Aprendi que o tempo é algo que não podemos controlar, e que cada ser humano tem o seu tempo. Não existem regras para o tempo. Não existem regras para a felicidade, apenas uma busca incansável.

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