Traduzindo: não posso ser mulher e mãe!

1 filho, estudante


Desabafo Anônimo: Sou mãe de um menino de seis anos. Engravidei aos 19, ganhei ele um mês antes de fazer 20, o pai foi meu primeiro namorado. Eu tinha ensino médio completo, um curso técnico em administração e uma vida cheia de sonhos. Não vou entrar nas questões que levaram a gestação, nem dizer que os planos foram frustados, não é a intenção do desabafo.
Optamos (ele optou) por morarmos juntos, e eu na época, insegura, imatura, aceitei, acreditando que assim seria melhor. Aqui sim posso colocar que sonhos foram frustados, pois me descobri num relacionamento com uma pessoa que não conhecia. Me vi perder amizades, me afastar da minha família, sendo colocada apenas no lugar de dona de casa, esse era meu papel e tudo que saia dele era bruscamente reprimido, e eu com um bebê pequeno e com sentimentos que mal conhecia, apenas me deixei levar. Hoje entendo que meu ex companheiro nada mais é do que o produto de uma cultura machista enraizada em nossa sociedade. Não me levem a mal, não critico quem deseja se dedicar a vida do lar, mas sempre tive sonhos altos.
Nos separamos quando meu filho tinha 1 ano e 9 meses, ao descobrir que meu ex companheiro tinha outra mulher e família. Foi a melhor coisa que fiz, me libertei, iniciei a faculdade, consegui uma colocação melhor no mercado de trabalho e agora estou quase me formando. Mas mal sabia eu que esse seria o início de outros pré-julgamentos.
Desde a separação lidamos com desencontros, com finais de semana em que o pai some e não dá notícias, em que marca de buscar nosso filho e não vai, em que atrasa a pensão alimentícia e quando paga me joga na cara, como se fosse um favor que me fizesse, não uma obrigação de ambos. As disputas judiciais parecem não ter fim, o valor da pensão é tão irrisório que consigo pagar apenas a van escolar de meu filho. Entendo que as despesas são divididas, mas as necessidades de uma criança vão além. Atualmente temos seis meses de pensão em atraso, e uma resposta de que ele não irá pagar.
Ademais e de forma irônica ele entrou com um pedido de guarda do nosso filho. A guarda hoje é minha, e quando ele disse que pediria, eu sugeri a compartilhada, visto que acho ótimo que ele possa participar mais da vida do nosso filho. Ele não aceitou e quando questionei o motivo a resposta veio ríspida: eu trabalho, eu estudo e eu tenho uma vida social.
O engraçado é que aquilo que me mobiliza por buscar um futuro melhor e mais seguro ao meu filho é o que é utilizado como argumento para afasta-lo de mim. Mas o ódio (sim ódio, pois não vou colocar aqui os termo que ouvi) de meu ex companheiro não é voltado somente a isso. Como posso ser mãe e ter uma vida social? Sair tomar um café com uns amigos e assistir ao show de uma banda que eu gosto? Pois, nas palavras dele, isso é “ignorar o filho que se tem”, ou traduzindo, não posso ser mãe e mulher.
Esclareço que eu somente saio nos finais de semana que meu filho está no pai dele , o que ultimamente tem sido raro também. Meu filho é prioridade no meu tempo fora do trabalho e faculdade e ele sabe disso. Talvez essa necessidade de explicação venha justamente das repressões que já sofri, pois possivelmente ela nem seria necessária, e percebo que as falas de meu ex companheiro vão de encontro ao que a sociedade espera de uma mãe: “seja somente mãe”.
As pessoas me dizem que sou forte, batalhadora, que me admiram por conseguir conciliar as coisas que faço (tenho mais alguns projetos), mas faço tudo com amor, então não se torna difícil e participo de tudo com meu filho. O irônico é que essas mesmas pessoas soltam frases como “não gostaria que meu filho namorasse uma mãe solteira”, “mas quem sabe tu larga a faculdade pra se dedicar a criação do teu filho”, “o que tu fala pro teu filho quando sai?”.
A resposta é simples, falo a verdade, não escondo nada dele, e conto as coisas conforme a sua capacidade de compreensão. Faço o máximo de coisas possíveis com ele, compartilho minhas experiencias e ele é a criança mais amada que conheci. Não quero largar a faculdade (embora saiba que o faria se isso significasse o risco de perde-lo), quero que ele cresça fora desses paradigmas sociais.
Meu ex companheiro reconstruiu sua vida, casou-se novamente (esse não é meu ideal, não planejo casar), mas teve suas vivencias e a ele nada foi questionado. Possivelmente quando ele tem uma entrevista de emprego não perguntam a ele se ele pretende ter mais filhos, ou quem cuida dos filhos deles, ou até mesmo como é a relação dele com a ex (como já me perguntaram).
Talvez esse desabafo seja egoísta, imagino que muitas mulheres passam por isso, e passam de forma pior, mas uma hora cansa e falar é bom. Eu só gostaria de ter paz e sei que muitas outras também.

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