A romantização da maternidade – amamentar

Por Letícia Contilde – 06 Agosto 2016


Na primeira vez, há 15 anos, eu havia romantizado tudo o que eu podia e conseguia. Queria amamentar, ficar linda, ser uma mãe jovem e cool, casamento ótimo.

Não foi assim. Eu tenho seios grandes e parece que por causa disso eu deveria ter leite. Mas eu não tinha. Quer dizer, eu tinha sim, mas eu achava amamentar um saco.

Demorava, incomodava e doía muito. Lá pelos 15 dias da minha filha meus seios racharam e eu amamentava enquanto chorava. E chorava enquanto amamentava. E sangrava. E parecia que a criança tinha dentes, e como esse bebê de 2,850kg conseguia sugar com a força de uma moreia? Lembro de perguntar à minha mãe se ela achava que era um castigo, se a minha filha não gostava de mim. Depois me acostumei, mas achava chato. Quando ela fez três meses eu já estava acostumada, ela dormia a noite toda (sim, eu segui a instrução da minha terapeuta que me disse que era para deixá-la chorar até dormir), por quase doze horas, acordava de manhã, mamava e não ficava saciada. Aquilo começou a me desesperar, ela chorava por horas e não tinha nada. Descobri, em uma consulta ao pediatra, que a criança chorava de fome. Eu não queria acreditar. Eu era a mãe e não conseguia perceber uma coisa tão simples: minha filha estava com fome. Assim, aos três meses e meio ela parou de mamar e começou a tomar leite de caixinha (sim, foi o que o pediatra me mandou fazer). Passei mais de mês me sentindo um lixo. Uma nada, uma bosta. Não servia para o que eu deveria servir, ou seja, não servia para mais nada.

Tá, vá lá… passou. Essas coisas passam, viu? Se não passar a gente pede ajuda. No meu caso, passou. Não sem me deixar virada num caco. O médico me disse que era melhor pegar a mamadeira do que ficar mamando numa mãe que estava estressada, chorando. Hoje, eu acho que ele tinha razão. Mas acho que eu queria mais. Mais estímulo, mais paciência, mais calma, mais apoio. Queria ter ouvido que “ok, não deu, mas tá tudo bem”. Acho que eu ouvi isso mil vezes, mas eu me cobrei cinco mil.

Eu tive uma segunda chance. Em janeiro tive outra filha, ela tem seis meses e três semanas e não quer comer as frutinhas que deveria porque é o legítimo piercing de mamilo, passa dependurada. Eu fico feliz, acho lindo.

Não fiz nenhuma preparação desta vez, nem bucha, nem óleo, nem creme, massagem, banho de sol. Nada. Deixei-a nascer, amamentei nos seus primeiros cinco minutos de vida. Foi lindo, e tem sido assim. Meus seios não racharam, e a amamentação doeu durante uns quinze dias. Mas… e sempre tem um “mas”, ela não quer muitos alimentos se eu estou em casa, não dorme mais de três ou quatro horas seguidas – neste caso nem eu, que ando feito um zumbi. Falei um monte para dizer que… não romantizar, viver o seu ritmo, o mundo real. Se dá, que ótimo, lindo maravilhoso. Dá trabalho também. Se não dá, que ótimo, curta o bebê, alimente-o com o que for, fórmula, leite de soja, leite de amêndoas. Ame-se, cuide-se para cuidar do seu bebê. Não julgue, a tendência agora é uma coisa meio tribal (eu estou falando porque eu tive um parto de cócoras e defendo a amamentação exclusiva e o desmame tardio) mas nem sempre dá certo. Nem sempre. É lindo, maravilhoso, só que não é bolinho.

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