Qual o sentimento da mãe que não pode dar o peito?

Vanessa, 1 filha, funcionária pública, 28 anos


Desabafo Anônimo: Bom dia.
Gostaria de dizer que em meio a tantas campanhas de amamentação, qual o sentimento da mãe que não pode dar o peito.
Quando tinha 23 anos, fiz uma mamoplastia de redução. Apesar de ser uma cirurgia eletiva, de saber os riscos de não amamentar, eu optei por fazer. Eu tinha as mamas realmente muito grandes. Tirei dois kilos e meio de mama. O cirurgião se comprometeu a preservar o máximo possível de glândulas mamárias e ductos para que eu pudesse amamentar futuramente. Porém tive uma grave infecção. Uma de minhas areolas necrosou. Foram meses tentando reconstruir…. Vários procedimentos cirúrgicos… Por fim achei melhor acabar com o sofrimento e esse assunto ficou esquecido por anos.
Eu já tinha um relacionamento sério há muito tempo, noivamos, construímos nossa casa, casamos. Enfim resolvemos tentar nosso tão sonhado bebê.
Antes de tentar, quisemos ir ao ginecologista ver se estava tudo bem. Foi então que descobri ovários micropolicisticos. O estresse tomou conta. Dias e noites chorando. Mas mesmo sem tratamento conseguimos nosso positivo.
Durante a gravidez desenvolvi pré eclampsia e às 33 semanas de gestação tivemos que fazer uma cesariana para salvar as nossas vidas.
Minha bebê nasceu com 40 cm e 1,725 kg. Pelo baixo peso precisou ir direto para a UTI neonatal. Pude ver minha filha por poucos segundos.
Algumas horas depois do parto, meu marido conseguiu uma autorização para que de cadeira de rodas, eu pudesse ir até a UTI ver minha filha. Nesse momento fiquei muito feliz, pois sabia que ganhando um pouco de peso, iríamos para casa.
No segundo dia, os médicos notaram que ela estava com o abdômen distendido. Diagnosticaram uma severa obstrução intestinal. Com 4 dias de vida, minha filha, prematura, indefesa, passou por uma cirurgia. Foi o pior dia da minha vida!
Em vez de 40 dias, eu tive umas 40 horas de resguardo.
Graças a Deus ela vinha se recuperando bem da cirurgia.
Aí começou a guerra para amamentar.
Do seio “bom” conseguimos algumas gotas. Do outro, como já era esperado, nada.
As pessoas me diziam, fique calma, fique calma que o leite vem. Mas diante da minha situação, como eu poderia?
Ninguém sabe o que é descer as rampas da maternidade e deixar o bebê recém operado na UTI. E no outro dia subir as mesmas rampas sem saber as notícias que terá.
Aquilo é verdadeira tortura. Todos os dias temos boas notícias e más notícias.
Mas nesse primeiro momento o bebê, sedado, recebia alimentação parenteral total.
Enquanto isso as enfermeiras me ajudavam a massagear, ordenhar…
Eu fazia massagem e ordenha manual a cada duas horas, mesmo na madrugada, simulando o bebê. Durante dias.
Até que uma enfermeira especialista em amamentação, pediu que uma obstetra desse uma olhada em mim. Elas me encaminharam para um Mastologista.
Tomei plasil, domperidona. Usei ocitocina…. Nada, nada de leite. Comi canjica, suco de caju, litros de água.
Precisei ordenhar 1ml no primeiro dia de leite da minha bebê e não consegui. Senti uma incrível incapacidade. Um lixo de mãe.
Tentei ordenha com bomba. Usei compressa quente. Usei bico de silicone.
Meu seio já estava roxo e doendo. E nada de leite.
O que eu poderia fazer? Para podermos vir para casa, aceitei que usassem mamadeira com fórmula.
Foi um grande fracasso pessoal.
Que tipo de mãe é essa que faz uma cirurgia plástica que pode comprometer a amamentação? Que tem parto prematuro? Que faz cesariana? Que não se acalma?
Tudo isso dói muito. Dói pensar que eu poderia ter feito diferente.
Aí quando eu aceito a mamadeira, vem outra questão, além da nutrição, dos anticorpos.. e o vínculo??? Minha filha não vai se ligar em mim.
Depois da alta médica, todos podem dar mamá. Eu sou completamente descartável. Todos dizem que podem fazer igual ou melhor que eu.
O julgamento começa dentro da minha casa. Ninguém entende que sou seca. Ninguém respeita. Todos acham que se eu ordenhar mais um pouquinho, ou tomar mais uma canjica vai descer… Que eu não insisti o suficiente. Mal sabem que até hoje não desisti.
Não sei lidar com isso. Diante de todos os benefícios do aleitamento materno, como eu vou tirar uma mamadeira da bolsa? Como vou lidar com as perguntas? Com os olhares de reprovação?
Eu sei. Eu sei tudo que minha filha está perdendo! Eu só não sei o que eu faço.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Ana disse:

    Querida, não se culpe assim!! Passei pelo mesmo, morria de vergonha de usar a mamadeira em público, me sentia um fracasso a cada gotinha de fórmula que meu bebê tomava. A partir do ponto que relaxei e vi que ele ficava muito mais feliz e tranquilo de barriga cheia, vi que ele estava super bem, mesmo sem peito. O amor, o cuidado, o vínculo o bebê terá com você: você não é descartável, vc é a MÃE dele. A única e insubstituível.
    Esse é só o primeiro dos desafios. O meu tem só 8 meses mas já passamos por várias: introdução alimentar não é fácil, regularizar o sono não é fácil, entre várias e várias outras coisas. Saiba que você fez o seu melhor nesta etapa e se prepare para as próximas.
    Boa sorte e muita paz e tranquilidade para você!

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  2. Uiara Marcossi disse:

    Tive problemas com amamentação desde o 1º filho e sou psicóloga e trabalho exatamente com isso!!!! Lutei por 30 dias com meu filho no peito por 30 minutos em cada mama a cada tentativa de mamada… Tinha leite, mamas lotadas mas o leite não saia e ninguém me explicava Pq! Tentei ordenha manual, maquininhas manuais e elétricas e não saia quase nada!!! Não acreditava que isso pudesse acontecer, pois me preparei a gestação toa, pois tenho mamilos invertidos, mas não poderia acontecer comigo! Sabia de todos os benefícios da amamentação, do vinculo, dos anticorpos é comigo não dava certo! Todo mundo já entrava na minha casa e a 1ª pergunta era “mamou?” Aquilo me desesperava! Quase entrei em depressao. O que me salvou foi o apoio do meu marido, o fato do meu 1º filho ser muito calmo e, com um mês eu receber a visita de uma enfermeira amiga que me disse que “antes uma mamadeira bem dada que um peito com tanto sofrimento”… Nesse momento percebi que maternidade não é comercial de margarina! Para manter o vínculo, até o 6º mês eu era a única a dar a mamadeira para ele – quando me questionavam eu dizia que, se tivesse amamentando, não teria opção, portanto eu não abria mão disso! Com minha 2ª filha a história se repetiu, insisti na amamentação e foram uns 4 dias em que ela mamou sangue e pedaços do meu peito, que feriu e sangrava demais, mas insistia e mordia um pano para aguentar a dor. No 4º dia ela se recusou a pegar o peito… O pediatra chegou a nos deixar “internadas” por duas tarde com uma seringa presa ao meu peito para tentarmos simular o leite e ver que, se estulássemos e ela sugasse, o leite saísse… Em vão! O caçula mamou no 1º e 2º dias, sendo que nesse não fez nenhum xixi ou cocô, não estava sendo nutrido, ou seja, sugava e não saia leite, como os outros, portanto já entrei com fórmula… Sofri e sofro até hoje com essa incapacidade… Quando tive o caçula minha GO me disse que desconhecia um caso como o meu: produção de leite mas sem ejeção… Há poucos meses fiz uma mamoplastia de aumento e o cirurgião plástico ao me examinar me questionou sobre a amamentação e disse que, no meu caso, isso nunca iria acontecer! Queria ter ouvido isso no início, há 13 anos atrás!

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