Em que eu me transformei?

Raquel, 1 filha, Jornalista, 34


Desabafo Anônimo: Minha bolsa rompeu de madrugada. Eu e meu marido fomos de taxi pra maternidade. Bebê pronto pra nascer com 40 semanas. Chegamos lá, fui examinada e mandada pra sala de pré parto. Ocitocina na veia e começou a tortura. Oito horas de dor. Muita dor. Até que não aguentei. Mandaram eu agachar e levantar da cama. Comecei a chorar, gritar de desespero. Diziam que era assim mesmo. Quando comecei a sangrar me levaram pra sala de parto. Me deram anestesia na coluna. Faz força!!! Pressionaram minha barriga e nada da minha filha nascer. Foi quando percebi que havia algo errado. A médica parecia perdida e chamou outra médica. Os batimentos do bebê caindo. Meu marido e outros médicos entraram na sala. Fizeram uma cesárea e minha filha nasceu roxa e sem chorar. Comecei a me desesperar. Me apagaram. Acordei horas depois ainda sob efeito da anestesia. Uma médica veio me dizer que fizeram uma cesárea de emergência ou meu bebê morreria e que ela aguardava uma vaga na CTI. Vi minha pequena no outro dia. Ela ficou internada onze dias, teve convulsão no segundo dia e tomou remédio até os dois meses de vida. Hoje graças a Deus é uma criança saudável e feliz. Mas eu me tornei uma mãe neurótica que não sai de casa, que vive tensa, que não conseguiu amamentar. Uma mãe traumatizada por um parto marcado pelo descaso e pela violência. Sequelas físicas não ficaram, graças a Deus, mas as psicológicas ainda estão aqui em nós e sangram todos os dias. Sinto-me ingrata por reclamar. Minha filha está viva e saudável. Obrigada Deus. Agora eu preciso voltar a viver. Ninguém me entende. Ninguém entendeu. Só nós na solidão do nosso apartamento. Não é frescura, não é ingratidão. É medo. Muito medo. É vontade de esquecer tudo e seguir em frente ao lado da minha filha, minha vida, meu amor… Hoje gritei com ela e cada vez que faço isso, a ferida sangra. Ela ficou comigo. Foi forte. Respirou. Não tenho esse direito. Tenho medo do castigo de Deus. Ele me deu uma segunda chance e não vou desperdiçar. Mas estou com vontade de chorar e pedir colo. Minha filha nasceu há um ano de parto cesária emergência e ficou internada 11 dias. Nunca me recuperei daquele dia apesar de que hoje ela estar saudável e se desenvolvendo normalmente.
Me sinto sozinha, entediada de passar o dia todo em um apartamento sem poder trabalhar fora, ver gente. Vivemos isoladas. Me tornei uma mãe com medo. Medo de tudo. Minha filha sente isto e chora… Chora… O seu choro me leva ao desespero. Não me dou o direito de estar triste depois de tudo que passamos. Mas estou. Triste e sem paciência pra tudo. Tarefas domésticas são como tortura. Minha filha está na época da pirraça e eu querendo voltar a minha vida de onde parei. Trabalhar, me arrumar, almoçar. Para ser mãe a gente tem que deixar de ser mulher? Ninguém me visita mais, ninguém oferece ajuda, colo. Eu preciso de colo, carinho, atenção. Estou exausta e também choro. Choro porque não pensei que seria tão difícil e solitário. Ninguém me avisou. Mas não posso reclamar. Mãe não reclama. Mãe não sente…. Mãe cuida. E quem cuida dela? Acabei de brigar e gritar com a filha por não querer comer. Em que eu me transformei?

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1 comentário Adicione o seu

  1. Val disse:

    Raquel, tive uma experiência muito parecida com a sua. A bebê nasceu de parto normal, desacordada. Tentaram reanimar e não conseguiram. Foi entubada e passou 18 dias na UTI. Por muitos meses vivemos assombrados pela possibilidade de sequelas e por convulsões reais. Eu conheço esse seu medo, de perto. Eu olhava pra minha bebê, recém-nascida, e sentia medo. Um medo difuso, do que ia acontecer com ela, e medo dela também. A figura dela me causava medo.
    A amamentação também não prosseguiu por aqui. Essa foi a ferida que mais demorou pra fechar.
    E eu, com aquela dor tão grande, fui percebendo que as pessoas não queriam mais me ouvir. Além do apoio zero que tive no puerpério (zero mesmo, passei meses comendo bolacha água e sal, pois minha bebê não tirava sonecas), algumas pessoas com quem achei que pudesse contar literalmente me silenciaram, dizendo que não havia motivo mais para eu continuar falando sobre a tristeza do meu parto. Aquilo já tinha passado.
    Tô aqui pra te dizer que essa dor passa. Minha filha hoje tem dois anos. Passou. Só agora. Sinto que você não tem com quem conversar… Então escreva. Eu tenho um caderno aqui para essas dores.
    Raquel, não se sinta culpada por perder a paciência, você perderia tendo ou não passado pelo que vocês passaram. Mas, se eu puder dar uma opinião, tente olhar no fundo dos olhos dela e ver que ela é sua fonte de felicidade, toda aquela inocência, tudo isso tem um valor tão tão grande! Toda vez que a raiva vier, o cansaço extremo, a tristeza, tente se lembrar de toda a pureza que compõe aquele ser… Isso vai ajudá-la a prosseguir sem se exaltar. Também fico só com a bebê; sinto tanta falta de encontrar as amigas, de pegar ônibus, de sair para trabalhar… Quando a exaustão bate, eu tento me focar naquele pequeno período do dia que terei só para mim, o curto intervalo entre a hora que ela dorme e a hora que eu durmo. Eu penso que a minha pequena hora vai chegar e arranco forças pra continuar ali sendo mãe em plenitude. Tem dia que não dá, não…
    E uma coisa que me chamou a atenção foi você dizer que perdeu a paciência com o fato de ela não querer comer. Bebês, quando fazem um ano, param de comer. É verdade. Dê uma busca. Fiquei tão desesperada nesse período. Busquei uma nutricionista que me explicou essa fase e me deu dicas preciosas de como lidar. A mais importante é: nunca perca a paciência no momento da refeição. Se precisar, chore no banheiro, nunca na frente da criança. Elas são esponjas, gravam tudo, e podem acabar associando comida a sentimentos ruins. Aí a coisa demora ainda mais para voltar nos eixos. Comemore com certo alarde cada vitória. Se ela encostou na comida, comemore. Se colocou na boca, então, comemore ainda mais. E respeite o tempo dela. Em alguns meses esse comportamento vai embora e ela volta a comer.
    É isso. Um grande abraço. A dor vai passar. Tenha confiança.

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