E se todo recém-nascido pudesse imediatamente ao nascer ir para o colo aconchegante de sua mãe?

Por Rafaela Schiavo – 22 Julho 2016


O feto está se preparando para nascer, o útero um lugar aconchegante começa a ficar cada vez mais apertado para o feto que está crescendo, logo estará maturo o suficiente para sobreviver do lado de fora dele. Inicia-se o trabalho de parto, onde tanto mãe quanto bebê trabalham juntos de forma rítmica para que ocorra o nascimento. Chegou o momento e em poucos segundos o feto passará a ser o recém-nascido.
A descrição acima se refere à um nascimento via vaginal, infelizmente hoje no Brasil mais de 50% dos nascimentos não ocorrem mais por essa via, mas sim por meio da cirurgia cesariana, mas esse será um tema para outro texto, vamos nos concentrar no nascimento via parto vaginal.
Então o bebê nasce, e o mundo que o recebe em geral nos dias de hoje parece ser muito assustador ao bebê, pois ele estava em um local quentinho e é recebido em baixas temperaturas, no útero ele não estava em contato com a forte claridade, portanto, esse bebê terá que lidar também com isso, além de receber em seus olhos gotas de nitrato de prata, em geral, esse bebê será levado para pesa-lo, medi-lo, tomar banho entre outros procedimentos que podem tornar o momento do nascimento assustador, gerando ansiedade, estresse e ser sentido até mesmo como uma violência pelo bebê. Otto Rank um psicanalista discípulo de Freud descreveu esse momento como “O Trauma do Nascimento”.
Mas nascer não precisa ser um trauma, o ser humano pode nascer de forma a ser recebido por esse mundo de maneira mais calorosa, assim que a criança nasce ela pode e deve ir direto para o colo de sua mãe e de preferência com o pai ao lado, para que possam se conhecer e se enamorar, vários procedimentos podem ser realizados com o bebê junto aos pais, sem a necessidade de leva-lo para longe deles. Michel Odent, um famoso obstetra francês, fala a respeito do “Coquetel de Hormônios do Amor”, cuja principal substância é a ocitocina, presentes na hora do parto e nascimento. Isto significa que a primeira hora seguinte ao parto é um período crítico no desenvolvimento da capacidade de amar. Enquanto a mãe e seu recém-nascido estão próximos um do outro após o parto, eles ainda não eliminaram de seu sistema os hormônios que ambos secretaram durante o processo do parto. Os dois estão em um equilíbrio hormonal especial que durará apenas um curto período e nunca mais acontecerá.
Esse coquetel de hormônios do amor é importante para adequada vinculação mãe/bebê nos momentos iniciais ao nascimento, claro que existe vinculação mãe/bebê também em situações em que mãe e recém-nascido por algum motivo não puderem ficar juntos após o parto, essa possibilidade existe porque somos animais que criamos e somos moldados por uma cultura, não existe em nossa espécie o amor materno dado como instinto, ele ocorre, pois, participamos de uma cultura que diz que mães devem amar seus filhos, se fosse instinto não existiriam mães que colocam seus filhos para adoção, por exemplo. Mas fazemos parte de uma classe de animais que são chamados de mamíferos, e para os demais animais mamíferos se seu filhote recém-nascido for retirado de perto da mãe e depois de algumas horas recolocá-lo, essa mãe irá ignorar a cria, não cuidará desse como sendo seu. Nós seres humanos só não fazemos isso, pois vivemos de acordo com uma cultura.
Mas e a qualidade da vinculação será que é a mesma? Será que isso pode de alguma forma estar influenciando no elevado número de mulheres com problemas de saúde mental no pós-parto? Será que isso pode de alguma maneira estar influenciando no desmame precoce, ou seja, poucos bebês recebem aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida, será que isso pode de alguma forma estar influenciando no aumento da população de crianças, adolescentes e adultos que apresentam transtornos mentais? Será que isso pode de alguma forma influenciar na nossa capacidade de amar, de ter empatia pelo outro?
São questões a se pensar e a se pesquisar. Mas que se todo recém-nascido pudesse imediatamente ao nascer ir para o colo aconchegante de sua mãe, receber todo calor afetuoso dessa e inclusive de seu pai, poderia contribuir para uma vinculação mais adequada, além de receber a mensagem que esse mundo é um lugar bom de se viver e que se pode confiar nas pessoas. E poderíamos deixar para trás essa forma violenta com que recebemos nossos recém-nascidos que chegam a esse mundo com uma grande má impressão dele.

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