Eu achava que nós poderíamos sentar para conversar…

Já li muitas reportagens sobre o abandono paterno e as consequências disso na vida da mulher e da criança. Contudo, tenho a impressão de que, quando o assunto é abordado na mídia só se fala dos desencadeamentos à curto e médio prazos. Na verdade, acho que poucas são as pessoas que tem a possibilidade de minimizar o período pelo qual sofrem os danos psicológicos decorrentes disto.

É importante dizer que se não olharmos estes danos com carinho e seriedade, o abandono paterno pode deixar marcas e dificuldades que duram décadas.  Mesmo depois de reconhecidos, são feridas que custam a cicatrizar.

Minha mãe engravidou na faculdade, meu pai era só um namorado e por causa da pressão da família os dois se casaram. O casamento acabou quando eu ainda era um bebê e por algum tempo eu tive contato com meu pai, mas depois nunca mais o vi. Foi perto dos 25 anos que tive coragem de ir atrás dele para saber quem era. Eu me lembrava vagamente do rosto dele, lembrava de ser levada de cavalinho pelo corredor de uma casa antiga, mas eram recordações tão distantes que a sensação era de que eu as tinha visto em um filme.

Encontrá-lo já adulta foi ainda mais estranho do que viver sem saber quem ele era: eu esperava emoções transbordando de ambas as partes, mas tivemos um abraço desajeitado e uma tarde de conversas que não engatavam. Aquele homem era, literalmente, um desconhecido que calhou de ser o cara que me deu metade do meu DNA.

Seria injusto equiparar a minha vida à de outros filhos de pais ausentes porque nunca me faltou nada. Eu tive um padrasto que me deu carinho e atenção, eu tive uma mãe presente sempre que possível. Minha mãe foi extremamente corajosa e me serve de exemplo. Mas as recordações da minha primeira infância, invariavelmente, envolvem um pai que sumiu sem um motivo que eu pudesse compreender e isso deixou sequelas emocionais que eu reproduzo em meus relacionamentos.

Eu achava que encontrando meu pai nós poderíamos sentar para conversar, esclarecer esses anos todos, e enfim eu estaria livre das dificuldades emocionais que o sumiço dele me deixou. Mas eu estava bem enganada. Depois do reencontro ele continuou tendo importância nenhuma na minha vida e nos meus sentimentos. Não o odeio, mas também não consigo gostar.

Ele não me deu nenhuma explicação para os mais de 20 anos de abandono, provavelmente porque não há uma explicação lógica e plausível. Ele não me pediu desculpas. Na versão dele, as coisas caminharam assim: minha mãe e eu mudamos de cidade, o filho dele com a nova mulher nasceu, eu já tinha meu padrasto, e nós simplesmente “perdemos contato”.

E então, ficamos eu e meu punhado de frustrações e questionamentos. Nosso reencontro não resolveu nenhum deles, talvez tenha até criado novo e eu ainda passei um bom tempo sem saber lidar com tudo isso. Crises cada vez mais fortes de ansiedade me levaram a procurar uma psicóloga e foi assim que comecei a mexer no que ficou guardado no armário.

Primeiro, eu não me sentia digna de nenhum amor. Eu era desesperada para que um homem gostasse de mim mas só me envolvia com gente incapaz de demonstrar afeto. Namorei um cara dez anos mais velho, que me tratava bem quando achava conveniente e me tratava como idiota quando queria. Quando você está saindo da adolescência e seu namorado já é um cara chegando nos 30, fica fácil te manipular.

Depois passei cinco anos arrastando um relacionamento psicologicamente abusivo, com uma pessoa que me dizia que eu estava ficando cada vez mais gorda. Me chamava de preguiçosa, porque eu trabalhava em uma cidade, fazia faculdade em outra mas não ia pra academia.  Ria dos meus gostos e das minhas opiniões, falava que meus amigos não gostavam de mim e que se não fosse por ele eu ficaria sozinha. Eu acreditava do fundo do coração que ele era a melhor pessoa com quem eu poderia me relacionar. Quando criei coragem e terminei essa porcaria de namoro me senti culpada, errada, injusta (a gente não muda 100% do dia pra noite).

Me puni, passando alguns meses com alguém bem pior e realmente violento, física e sexualmente. Enfim, aprendi que estava criando um padrão de relacionamentos infelizes. Relacionamentos que machucavam e com os quais somente eu poderia romper, para enfim ter uma vida plena e feliz comigo. Fosse sozinha ou acompanhada.

Quando uma mulher está em um relacionamento abusivo, a culpa pelos abusos nunca é dela, obviamente. Mas ela precisa cuidar de si para reunir forças e, além de por um fim naquela relação infeliz, não começar outra igual ou pior. Ela precisa enxergar o próprio valor e entender que merece uma vida muito melhor do que essa.

Por conta própria eu provavelmente não teria conseguido olhar tão profundamente para dentro. Acho que quando temos um problema, ficamos fixados olhando para ele, para fora, para as pessoas envolvidas nele e fica muito difícil enxergar quem somos naquele emaranhado todo.

A psicanálise foi o caminho que peguei para entender que eu sou um indivíduo e eu sou responsável pela minha felicidade. Os outros podem fazer comentários crueis, me destratar, me bater, mas eles ainda são os outros e os problemas deles não fazem parte de mim. Então eu mereço, sim, me livrar disso. Na teoria é óbvio, mas vá viver isso na prática.

Compreendido o padrão de relacionamentos que estabeleci, que para mim estão totalmente relacionados à experiência do abandono do meu pai. Achei que estava livre desta etapa da minha vida. Consegui ficar sozinha. Consegui manter um relacionamento respeitoso. Aparentemente me libertei. Mas foi só outro dia que enxerguei outro problema recorrente, que me desencadeia crises de ansiedade e de choro. Eu sempre tento fugir dele, este problema sempre volta e eu sequer enxergava que tantos episódios de angústia faziam parte de uma mesma questão.

Em um relacionamento passado, uma amiga do cara atormentava a minha vida. Ela de fato era daquelas pessoas inconvenientes, que fazem comentários inoportunos e brincadeiras sem graça. Mas, ela era uma garota cheia de problemas, que não lidava bem com muitas pessoas além de mim. Talvez tivesse os mesmos problemas que eu ou outros bem maiores. Contudo, não merecia ganhar um espaço enorme na minha mente só por causa disso.

No entanto, foi o que aconteceu. Eu tinha pesadelos com a garota, passava mal e vomitava quando ia encontrá-la, suava frio e mal conseguia falar na presença dela. Sentia meu estômago embrulhar. Ao mesmo tempo que eu queria que ela gostasse de mim, eu sentia raiva e pavor daquela menina.

Os anos passaram, o namoro acabou, a vida seguiu. Engatei outro namoro e foi a vez da sogra e da cunhada fazerem o papel de tormento. Uma me olhava de cima a baixo e criticava minha aparência, a outra me chamava de esquisita. Eram uma senhora frustrada e infeliz, também cheia de problemas e uma moça oprimida pela criação que recebeu.

Assim como a amiga do ex-namorado, nenhuma das duas merecia grande espaço na minha mente. Eu não namorava com nenhuma delas, não precisava que me aprovassem. Mas eu sofria querendo que gostassem de mim, ao mesmo tempo sentia raiva, queria fugir dos encontros com elas e quando não podia evitar me trancava no banheiro para conseguir respirar.

Agora meu problema é com uma ex-namorada, amiga e colega de trabalho do meu marido. Não dava a ela nenhuma importância e sequer nos conhecíamos. Ele havia me dito que a relação com a garota era tranquila, eles eram amigos antes de namorar e depois do término reataram a amizade, mas nada muito próximo com unha e carne. Um coleguismo, mesmo. Então beleza, se quisessem ficar juntos, ficavam, não é?

Nem pensava nisso, até um dia perceber que a moça havia me bloqueado no Facebook, aí fiquei com a pulga atrás da orelha. Eu não a importunava, nunca nos falamos, então qual era o problema? Aí, certa vez, passamos por ela na rua. Meu marido acenou de longe, ela acenou de volta, eu falei oi e ela nada. Acho que evitou olhar para a minha cara. Também não esboçou aquela expressão natural de alegria, de quem encontra um amigo e a respectiva de surpresa na rua, mais parecia incomodada do que surpresa ou animada.

Meses se passaram e nos encontramos em uma festa e ele me apresentou a menina.  Ela novamente não pareceu muito feliz em me ver, ficou reticente sobre dizer oi, com aquele beijinho na bochecha que a gente dá ao cumprimentar alguém. Eu sorri, a cumprimentei como fiz com todas as outras pessoas da mesa e a moça conversou com ele e outros amigos sem esforço para me incluir nos papos.

Tudo bem, eram todos sobre trabalho e eu não faço parte desse universo deles. Eu não conhecia quase ninguém ali e muita gente foi solidária e se empenhou para me incluir nas conversas. Ela, realmente não. Ok, não é obrigação de ninguém gostar de mim e muito menos ser solícito, então nada disso faz dela uma escrota. Mas, lá estava eu querendo que o chão se abrisse e que a Terra me engolisse de uma vez por todas.

Eu sentia as mãos suadas e trêmulas. Tentava respirar fundo e pausadamente no banheiro para me acalmar. Mas era a sensação de ser o alvo maior do bullying na sala de aula: você fica exposta, fragilizada, assustada e com medo de esboçar qualquer reação e a chacota se intensificar.

No fim, ela estava indo embora e se aproximou da roda em que eu estava, bateu papo e fez brincadeiras com meu marido. Despediu-se de um por um com beijo e abraço. Mas só pra nós dois, que estávamos lado a lado, deu um aceno sem se aproximar e foi embora.

Pronto, fiquei arrasada. A noite já não tinha sido fácil, porque eu sentia os olhos da menina sobre mim. Só conseguia pensar que ela estava me avaliando, me julgando e o não-tchau me deixou triste de verdade porque eu não havia sido aprovada. Disse ao meu marido que gostei de todo mundo, mas em casa chorei no banheiro. Triste de verdade porque (achava eu), que não havia sido tratada bem pela fulana. Mais triste ainda, porque já conhecia esse desespero e essa sensação de desamparo, de ser detestada por alguém próxima de quem você ama e não poder fazer nada além de aguentar as alfinetadas.

Era como se a qualquer derrapada minha com ela eu pudesse perdê-lo e eu já comecei derrapando, mesmo sem nem ter a chance de tentar fazer direito. Eu sei lá em que momento dos dias seguintes veio finalmente a epifania da minha vida. Até então eu chorava e sofria porque alguém me detestava, alguém queria estragar minha vida de novo, alguém a quem eu mal conhecia. Alguém que tinha um sentimento ruim por mim, que eu nada fiz para que existisse e tampouco podia desfazer e consertar.

Mas, de uma hora para outra me caiu a ficha e tudo fez sentido. A minha tristeza e a minha vontade de fugir não são por causa da ex-namorada, da sogra, da cunhada ou da amiga desagradável. Todas elas reproduzem um mesmo papel padrão e óbvio: o da minha madrasta.

Antes de nunca mais aparecer para me buscar aos finais de semana, meu pai arranjou outra mulher. Ela não me agredia, mas também não me tratava bem. Só me dei conta de que ela não gostava de mim quando minha avó me disse, décadas depois, que isso era nítido. Mas eu, que na época era muito pequena, sentia emoções sem saber que nomes elas tinham. Nas minhas lembranças, meu pai brincava comigo, era um cara legal e ela parecia sempre impaciente ou incomodada. Estava sempre presente nos meus encontros com ele, o tempo todo, até nunca mais nos vermos.

É inegável que a culpa por não assumir a criação da filha é inteira do meu pai. Mas para uma criança que pouco entendia o que estava acontecendo, o que ficou foi que meu pai – um cara legal, foi embora porque a mulher dele não gostava de mim e eu a irritava. Na minha cabeça de criança, eu fazia bagunça e a incomodava. Eu precisava aprender a me comportar melhor. Mas mesmo que eu não corresse, não brincasse, não falasse, ela continuava irritada.

Desde sempre tenho crises de ansiedade diante dessas figuras, que para mim representam a mulher do meu pai. Diante de todas elas, tudo o que eu construí em minha vida toda some  e só sobra a menininha vulnerável, prestes a ser abandonada.

Eu antes me culpava por ser machista. Achava que eu carregava comigo aquela rivalidade entre mulheres tão comum quanto desnecessária. Também já achei que a culpa fosse exclusivamente do meu transtorno de ansiedade e que talvez remédios pudessem resolver tudo. Mas agora entendo que a minha dificuldade não é em lidar com cada uma dessas mulheres, individualmente. Elas também devem ter suas dificuldades, mas não há motivo para ter pavor de cada uma. Eu posso me impor em algumas situações, ignorar outras e acolher sempre. É o melhor a fazer e é aí que eu quero chegar quando estiver pronta.

Porque o meu verdadeiro problema é com a atitude de um homem lá atrás, que tinha junto dele uma mulher a quem todas elas me remetem. O que é que eu faço com isso agora? Ainda não sei. Tento travar diálogos comigo mesma em que esclareço novamente tudo o que aconteceu com meu pai. Tento ver leveza nas situações e dissipar todo esse medo que eu carrego na bagagem.

Sou testemunha do quanto um pai negligente, que deixa a mãe criando um filho sozinha para viver a própria vida, como se nada lhe tivesse acontecido pode causar angústia e sofrimento. Estou grávida e me sinto em uma corrida contra o tempo. Quero que tudo se resolva na minha mente para não passar para o meu filho, de alguma forma, os meus medos e frustrações.

Não quero mais chegar em casa e chorar depois de uma festa em que nada aconteceu. Quero ser um bom exemplo para ele, quero me relacionar bem com as pessoas e não quero prejudicar meu casamento porque eu realmente estou feliz com ele. Para mim, já passou da hora de deixar esse problema no passado, não aguento mais carregá-lo.

Sempre me lembro de um trecho de música do Smiths: “…é tão fácil rir, é tão fácil odiar, é preciso força para ser gentil e bondoso”. É isso que tento tirar desta questão. Que todo mundo, absolutamente todo mundo, passa por batalhas dificílimas e que muitas delas a gente nem imagina.

Portanto, por mais que essas pessoas façam coisas que doam na gente, ser bondoso (que não é sinônimo de ser trouxa), é uma boa saída. Isso vale pra nossa relação com quem somos também.

Queria que todas as mulheres soubessem que um relacionamento abusivo, a dificuldade profunda em lidar com uma gravidez ou um filho, ser feliz em uma relação, superar uma questão familiar às vezes é consequência de problemas ainda maiores e mais complicados. Problemas que carregamos e que nem conseguimos, ainda, enxergar.

Quando nos culpamos, nos maltratamos e nos subestimamos em função destas dificuldades, cometemos uma crueldade com nós mesmos que não merecemos. Assim como não merecermos preservar qualquer relação que só nos faça sofrer. Nós temos batalhas profundas e passamos a vida juntando forças e armas para lutá-las. Acho que eu não encarei as minhas antes porque eu ainda não tinha reunido todos os recursos de que precisava. E é assim mesmo, a gente não nasce pronto para tudo na vida.

Então, por favor, vamos combinar uma coisa: todas seremos bondosas com nós mesmas. Cuidaremos bem da nossa mente e da nossa alma, procuraremos ajuda, olharemos com mais carinho para nossas falhas e dificuldades. Elas muitas vezes são consequência de coisas que cada uma de nós viveu mas que são, ao mesmo tempo, comuns a todas as mulheres.

Então estamos todas juntas e podemos nos ajudar. Vamos começar combinando que cada uma de nós vai se olhar sempre com carinho. É difícil, vamos voltar a falhar algumas vezes (e precisaremos do próprio perdão nessas horas), mas a gente pode tentar um dia de cada vez.

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1 comentário Adicione o seu

  1. TATIANA disse:

    Eu sempre leio as postagens deste site, mas nunca havia me identificado tanto com alguém como me identifiquei com você! Passei por coisas diferentes na vida, mas que de alguma forma são semelhantes às suas experiências e às conclusões que você foi chegando… Saiba que estou torcendo de longe para que você supere suas angústias e possa ficar em paz consigo mesma S2

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