A causa disso tudo – a misoginia

Desabafo Anônimo: Pautas feministas tem vindo à tona em todo o tipo de mídia. Desde o bárbaro estupro coletivo sofrido por Beatriz, uma menina de apenas 16 anos, as redes sociais estão em polvorosa (e com muita razão), e todo mundo que tem um coração batendo dentro do peito entende e clama pela necessidade de se ensinar gênero nas escolas. Afinal, o que Beatriz sofreu foi uma violência tão funesta que até algumas pessoas que falavam “ah mas ela pediu” começaram a entender que poucas mulheres “pediriam” para serem dopadas e estupradas por mais de três dezenas de crápulas. Algumas pessoas perceberam a gravidade das consequências que um crime como um estupro traz às suas vítimas.
Mas será que as pessoas sabem o que é estupro? Será que sabem o que é violência contra a mulher? Será que sabem pelo menos o que é a causa disso tudo – a misoginia?
Esse texto vai ser um desabafo. Toda a exposição que venho tendo ao caso, todos os relatos que vem aparecendo em suporte à Beatriz, todas as referências, todos os recentes acontecimentos que eu venho enfrentando em minha vida pessoal – e até um texto da faculdade, por coincidência – me levaram a uma necessidade de escrever isso aqui, para colocar pra fora, de algum jeito, episódios da minha vida que estão voltando à superfície com esse caso terrível. Eu já comecei e apaguei esse texto dezenas de vezes. Dessa vez irei até o fim.
Sabe quando a galera mais nova posta imagens dizendo que é “trevosa”, que no coração não tem nada além de trevas e que a solidão é a única amiga que eles tem? Acho que eles não brincariam com isso se soubessem o quão doloroso é realmente só ter a solidão como uma constante na sua vida. Eu cresci sozinha. Não é que eu não tive uma família, crescer sozinha tendo uma família é muito pior do que não ter. Até os dez anos fui criada pela minha avó, uma mulher muito batalhadora, mas analfabeta, que tinha que trabalhar muito para me sustentar, pois o salário de uma aposentada nos anos 90 mal dava para comprar pão todo dia (às vezes não comprávamos mesmo), então ela trabalhava fora como faxineira para complementar o dinheiro (aos 60 anos).
Quero que pensem em suas infâncias. Lembra como era legal o dia das mães na escola, ou o dia dos pais, as suas festinhas de aniversário que reuniam todos os seus amiguinhos? Lembra quando você dormia no sofá e acordava na cama? Lembra quando você tinha pesadelos e ia dormir com seus pais? Lembra como era chato quando sua mãe “tomava a matéria” (naquele esquema: você lia a matéria que ia cair na prova e depois sua mãe pegava o livro e te fazia perguntas sobre o que você tinha acabado de ler, ou então te perguntava a tabuada) antes das provas, mas de como ela ficava orgulhosa quando você tinha uma nota legal? Ou do medo quando a nota não era tão boa assim? Lembra como era sempre um suspense nas reuniões de pais e mestres, em que os professores iam falar de você na frente dos seus pais? Lembra de como foi a sensação de ir aprendendo a escrever e receber elogios por cada nova palavra escrita, corretamente ou não? Lembra como era esperar os pais chegarem do trabalho para que algum te ajudasse naquele dever de casa? Lembra como era chegar chorando em casa porque alguém mexeu com você na escola, e seus pais foram tirar satisfações?
Eu não.
Eu não tive nada disso. Minha vó usava o tempo que eu estava na escola para faxinar as casa alheias (e às vezes ela me deixava sozinha em casa e ia faxinar também me deixando só com as instruções de não mexer nem subir em nada, e comida separada em um pratinho, que em geral eu comia fria mesmo pois o micro-ondas não era uma realidade na época, especialmente para quem era pobre. Aliás, foi nessa época em que eu, então com 7 anos, peguei sozinha um elevador que caiu comigo dentro, me causando um belo trauma. Mas eu queria ir à padaria e não tinha ninguém para me levar) então ela não tinha lá muito tempo livre para ir à escola reclamar quando eu contava a ela que alguém tinha me maltratado. As outras crianças sabiam disso. Elas sabiam que eu era a única a nunca ter ninguém na plateia ver as minhas apresentações em peças de teatro. A única que não ficava empolgada nas atividades temáticas de dia das mães e pais. A única que nunca teve ninguém pra ir lá conversar com professores nas reuniões. Chegar chorando em casa e pedir ajuda nunca adiantou. Ela só me dizia para engolir o choro, porque não tinha tempo de ir lá resolver. E ela não fazia por maldade, ela realmente não tinha tempo. Aprendi a engolir o choro. Amiguinhos de escola? Nunca tive. Ajuda para aprender a ler, escrever, calcular? Também não. Algum elogio quando fazia uma coisa certa, como quando aprendia uma palavra nova? Jamais. Como ela poderia saber se estava certo? Ela não sabia ler. Como ia me tomar a matéria e a tabuada se ela precisava da ajuda de gente de boa índole para conseguir contar o dinheiro para comprar pão…? A solidão que eu sofri na infância foi terrível, mas engrandeceu meu caráter. Aprendi a não contar com as pessoas, e a ter gosto por estudar. Eu não podia ver TV, não tinha amigos nem alguém pra me fazer companhia ou me ajudar a aprender. Aprendi a ter gosto por estudar, pois esse era realmente o único hobby que eu tinha. E bem cedo eu aprendi que, se você é boa aluna, os outros alunos vão te odiar, mas os professores vão gostar de você.
Passaram alguns anos. Minha pré-adolescência foi pior ainda do que a infância. Me mudei para morar com meus pais e tive que aprender a conviver tanto com eles quanto com meus dois irmãos (imaginem o meu choque em descobrir que eu tinha mãe, pai, um irmão de 7 anos e uma irmã de 2?) Eu tenho histórias horríveis, horríveis desse período que considero um dos piores da minha vida. O período dos 10 aos 15 anos foi devastador para mim, e eu até hoje acho um milagre que eu tenha sobrevivido a ele. Era horrível estar entre uma família que não me amava, e eu me sentia um lixo por ter sido largada pra viver com minha vó enquanto meus pais criavam meus dois irmãos. Eu me senti totalmente descartável. Eu brigava muito com meus irmãos, e sempre que eles faziam algo errado meus pais batiam em mim. Eu tinha ódio dos meus irmãos por isso, e por achar que eles tinham roubado minha chance de ter tido uma infância. Eu batia muito no meu irmão. Descobrimos que ele tinha sopro no coração. Meu pai me disse uma vez que ele poderia morrer, e que se ele morresse a culpa seria minha, porque eu batia nele.
Ele disse a uma criança de 11 anos, desorientada, sofrendo e perdida, que ela era a culpada da possível morte do irmão mais novo.
Nunca tive carinho dos meus pais. Eu via a forma que eles tratavam meu irmão, num pedestal, tudo pra ele. Cheguei à conclusão de que era porque ele era homem. Tentei “virar homem” também. Comecei a fazer “coisas de homem”, como jogar videogame, ver animes, brincar de carrinhos, me recusar a usar franja, rosa, vestidos, sapatilhas. Aquelas modinhas dos anos 90, como os sapatos da Sandy, da Xuxa, de Melissa, todas essas coisas – nada disso eu vivi, porque eu tentava ser homem para ter o amor dos meus pais. Me lembro que me recusava a me depilar, pois meu irmão e meu pai não se depilavam. Mas teve um dia que minha mãe, revoltada, invadiu meu banho e depilou minhas pernas e axilas à força. Eu chorei até soluçar. Me senti terrivelmente humilhada. Porém, foi uma surpresa para absolutamente ninguém que a estratégia não tivesse funcionado, meus pais continuavam me tratando como lixo, então eu vi que não era questão de ser homem ou mulher (até porque eles tratavam a minha irmã com tanto zelo que eu entendi que o problema não era o sexo, o problema era eu mesma. À medida que minha irmã foi crescendo meu irmão e eu fomos nos aproximando, porque era quase como se a gente não existisse para nossos pais. Abandonados, a gente praticamente só tinha um ao outro), o problema era ser a Driele. E só podia ser, né? Na infância eu não tive amigos. Na pré-adolescência também não (e quando eu falo que não tinha amigos, eu não quero dizer que não tinha amigos bons, eu não tinha amigo nenhum mesmo). Meus pais tinham me jogado fora, meus irmãos não gostavam de mim. Algo de muito errado eu devia ter. Sempre sofri muito bullying, apanhava na escola, levava cuspida na cara. Uma vez eu menstruei na escola e manchei o short azul claro do uniforme. Uns meninos me agarraram e me levaram para o banheiro das meninas, onde um grupo delas me segurou enquanto outra esfregou um absorvente no meu nariz até ele sangrar. Quando sangrou, ela limpou o sangue com o absorvente e disse “viu, ele absorve sangue, é pra isso que serve. Tenta usar um da próxima vez”. Fiquei traumatizada por anos. Eu não saía de casa quando estava menstruada nem que fosse pra fazer uma prova na escola.
Dos quinze anos até os 24 eu vivi o que hoje avalio como a pior época da minha vida.
Além de todas as desgraças que eu já tinha vivido (se eu for parar pra escrever todos os traumas que meus pais me causaram, esse texto não conhecerá um fim hoje), com um pai ausente que só me trazia tristeza (especialmente quando estava bêbado, e ele ficava bêbado até cair toda noite), comecei a enfrentar outra barra: gordofobia. Eu engordei muito depois dos 14 anos, devido a um problema hormonal. Eu gostaria de dizer que tive todo o apoio da minha família para superar o bullying que eu sofria na escola (e da sociedade em geral) mas isso seria mentira. As piores ofensas eu sofri aqui em casa, meus pais eram os que mais me humilhavam, de todas as formas possíveis. Me lembro de um episódio bem específico em que estávamos todos no carro indo almoçar fora. Começaram a falar de um cantor (não lembro se era Fábio Jr ou Roberto Carlos) e de que ele parecia ter feito uma música pra tudo nesse mundo. Todos estavam brincando com o fato até que eu resolvi arriscar fazer uma coisa que não fazia nunca: participar da conversa (eu não considero que tenho pai e mãe. Tem duas pessoas aqui que sustentam a casa e me dão um teto e comida mas não vejo eles como meus pais. Existe um abismo gigante entre a gente que jamais será preenchido. Pra mim eles não são mais do que provedores, não sou mais próxima deles do que sou das pessoa que pagam meu salário). Disse brincando que sabia um tema que ele ainda não tinha usado nas músicas: eu mesma. Meu pai fecha a cara e diz “já tem sim. Para as baleias ele já fez sim”.
Eu comecei a chorar na hora. Tudo que meu pai e minha mãe disseram foi que eu sempre fazia “tudo o que podia” para estragar qualquer reunião familiar, que pra mim só interessava deixar tudo desagradável. Cheguei no restaurante sem vontade nenhuma de comer. Tinha um nó na minha garganta que não deixava. Eu vinha sofrendo gordofobia e humilhações há anos. Não tinha vontade de comer, especialmente com eles por perto, tinha vergonha. Ainda mais depois de ter sido chamada de baleia. Tudo o que meu pai fez foi dizer que não adiantava eu ficar sem comer, que aquilo não ajudava a emagrecer e que na verdade eu ia ficar ainda mais gorda.
Eu parei de comer. Por um mês. Depois de um desmaio na escola tive de voltar a comer, mas não foi fácil. Desenvolvi bulimia. Entre os 15 e os 16 anos já tinha tentado suicídio três vezes, e agora era bulímica.
No ensino médio eu tinha alguns amigos. Uma amiga bem preciosa na verdade, e foi ela que me deu vontade de viver de novo. Ela era gorda também, e foi a única que não me desprezou por ser gorda. Foi a primeira amiga mulher que eu tive. Até então eu até tinha tido alguns colegas – todos homens, pois, como eu nunca tinha cabido no estereótipo feminino, as mulheres me odiavam (tal como o patriarcado as instrui, infelizmente). Sendo gorda então, ninguém queria ser amiga de uma gorda. Porém, eu acabei entrando (sem querer, na verdade) naquele rótulo da “gorda engraçada”. Ah, como eu aprendi. Vi que, sendo gorda, fazer piadas era a única forma de ter amigos. E digo amigOs porque todos os meus amigos eram homens. E eu adorava isso! Eu era a diferentona. Não era como as outras, eu era mais legal que as meninas. Elas só queriam saber de Rebelde. Eu assistia DragonBall Z. Elas só se interessavam por maquiagem, eu jogava videogame. Elas eram ridículas e ouviam Britney Spears. Eu ouvia heavy metal. Minha única amiga mulher também era assim.
Mas havia um problema. Eu via todas as meninas da minha idade (e isso desde muito tempo atrás) começando a namorar, a ficar, pelo menos. Muitas já não eram mais virgens. Eu me senti deixada para trás. Afinal, eu nunca tinha sido mulher para meus amigos. A gorda engraçada é sempre um dos caras, especialmente se eu fazia de tudo para ter os mesmos gostos que eles. Eu me reunia com eles para falar de Digimon e Cavaleiros do Zodíaco, chamava eles para jogarem em casa. Mas diferentemente de todas as outras meninas, eu nunca havia recebido nenhum tipo de investida romântica… Nenhum flerte, nenhum carinho, nenhum bilhetinho. Eu fingia não em importar. Mas a verdade é que eu sabia que ninguém jamais se interessaria por mim, porque nunca alguém tinha gostado de mim. Nunca tivera amigos nem o carinho dos pais. Eu deveria ser muito chata, muito insuportável, e atém de tudo era gorda e usava óculos. Se ninguém nunca tinha me suportado o bastante nem para ser filha… Quem seria o idiota de me querer como namorada…? Eu não tinha a menor esperança. Decidi nem me importar. Para quem nunca tinha tido amor de ninguém, ter amigos já era incrível o bastante… Eu decidi não arriscar perder nenhum amigo os pedindo em namoro. Continuar sendo um deles.
Até que ele apareceu.
Ele era um cara muito popular aqui onde eu moro. Eu o conhecia da época que estudei no colégio aqui, do ensino fundamental. Ele era muito bonito e cobiçado por todas as meninas de todas as séries, apesar de ser bem mais velho que elas, e já havia reprovado algumas vezes. Nunca me interessei muito por ele, achava meio babaca. Ele era o cara popular que não se dedicava aos estudos e eu a nerd, uma combinação que nem me interessava cogitar, pois eu tinha muito orgulho de não me misturar com os populares, sempre tive muito orgulho de ser a nerd porque foi a única forma de fazer amizade que eu tive durante toda a minha vida. Mas teve um dia que ele me viu numa sorveteria (eu estava tomando sorvete sozinha) e veio conversar. Achei bizarro mas tudo bem. Não machucaria conversar com alguém. Ele disse que eu não tinha crescido muito, que eu ainda era muito baixinha. Disse que eu tinha engordado muito. Expliquei rapidamente que tinha um problema hormonal. Falou dos meus óculos e de como eles me deixavam com cara de “mais madura” e quando eu decidi ir embora ele pediu pra eu ficar e ficou conversando comigo sobre várias coisas. Parecia interessado em mim. Achei interessante, pois era a primeira vez que alguém se interessava em saber qualquer coisa sobre mim. Eu nunca tinha conversado sobre mim com ninguém, nem com meus próprios pais, e muito menos com um menino e especialmente sobre mim – meu assunto com meninos sempre foram animes e games em geral.
O assunto foi evoluindo para namoros. Disse a ele que nunca tinha namorado, nem mesmo ficado com alguém. Ele ficou surpreso, perguntou como era possível que alguém com 20, 22 anos ainda fosse “virgem de tudo”. Eu disse que tinha 16 anos. Ele brincou, falando que “ah mas você parece mais velha, deve ser os óculos né, achei que você tinha minha idade”. Aí me disse uma coisa que eu nunca tinha ouvido antes: ele disse que eu era bonita. Eu ri e neguei. Mulheres são ensinadas a desdenhar de si mesmas quando são elogiadas, especialmente as que não tinham nenhuma auto estima como eu, as gordas, baixas e “quatro olhos”, as impopulares. Ele disse que estava falando sério, que “mesmo gorda” eu era muito “linda de rosto”. Agradeci e decidi fingi receber uma ligação no celular, pedi licença e fui correndo pra casa. Meu coração estava a mil. Um cara lindo (repetente e irresponsável, mas bonito) tinha me chamado de linda “apesar de ser gorda”. Foi uma mistura muito louca de sentimentos. A primeira vez que um homem tinha flertado comigo. Eu estava vibrando. E muito confusa também. Sexualidade era (e ainda é) um tabu enorme na minha família. É um assunto que não se discute. Estamos em 2016, a pessoa mais nova da casa tem 20 anos, e até hoje meu pai troca de canal quando tem uma cena de beijo na tv. Até hoje ele reclama de cenas picantes em filmes ou jogos. Até hoje ele fica querendo saber “o que a gente tá vendo escondido” no celular, porque a gente deixa eles bloqueados com senha. Conversa sobre sexo? Só tive uma vez, e só eu tive. Foi com uns 13 anos, eu tinha levado uns amigos pra casa para ver Digimon. A gente estudava no horário que passava na Globo, aí eu, que era a que tinha o vídeo, programava ele pra gravar o episódio e a gente assistia depois da aula. Uma vizinha reparou que todo dia depois da aula eu levava dois ou três meninos pra casa começou a espalhar boatos sobre mim. Quanto chegaram aos ouvidos da minha mãe, primeiro eu levei uma surra, e depois, quando ela perguntou porque eu estava levando “aquele monte de homem” para casa na ausência dela eu falei que a gente assistia Digimon. Ela nunca se desculpou pela surra que me deu. Só disse que era para eu parar de fazer isso porque eu estava ficando “mal falada”. As palavras dela foram “você já está menstruando, você já pode engravidar, e se você aparecer grávida ninguém vai acreditar que vocês só assistem Digimon”. E essa foi a primeira e única vez que rolou uma “conversa” sobre sexualidade aqui em casa. Com meus irmãos, até hoje não existiu.
Enfim, eu fui pra casa e fiquei dias pensando nessa conversa. Não contei para meus pais (para que? A gente nem tinha intimidade mesmo, muito menos para um assunto desses). Uns dias depois ele me encontrou na rua enquanto eu ia à padaria. Ele me acompanhou até a padaria e até perto de casa depois, pediu meu celular. E aí começamos a nos falar por mensagem de texto e posteriormente por MSN.
Eu estava gostando daquela atenção. Ele me elogiava, dizia que “eu não era como as outras” e isso me enchia de orgulho – naquela época, para mim, aquele era o melhor elogio que eu poderia receber. Dizia que eu era mais madura que as meninas da minha idade e que admirava minha “beleza natural” ao invés de ficar usando maquiagem. Ele gostava do me estilo gótico, porém. A gente conversava pela internet, marcava de se ver às vezes, sempre escondido (“não quero que você fique mal falada”, ele dizia, e eu apreciava isso, não queria tomar outra surra por causa de boatos). Isso se arrastou por uns meses até que um dia ele me mandou uma mensagem de madrugada. Falou que tinha gravado um vídeo dele se masturbando e perguntou se eu queria ver.
Eu pensei muito. Eu tinha 16 anos, ele 22, mas eu era muito ingênua nesse assunto. Mas eu era madura, não? Aceitei. Pedi para ele me mandar o vídeo. Ele enviou pelo MSN e disse que queria uma foto nua minha. Eu suei muito, mas estava toda pilhada pelo vídeo e disse que ia mandar. Corri para o banheiro com meu Nokia flip e fiz várias, mandei para ele pelo MSN. Ele disse que adorou, mas que precisava ir dormir. Mas pediu para eu ir na casa dele no outro dia.
Eu fui. Lá, Ele tinha colocado umas latas de cerveja lá e perguntou se eu queria beber. Eu disse que não bebia. Ele riu de mim e me desafiou a beber, mas eu fui firme na minha decisão porque desprezava (e até hoje desprezo) a própria existência de bebida alcoólica. Ele disse que não beberia também então. Jogamos um pouco de Fifa e no meio da partida ele perguntou se eu queria ficar com ele. Eu não estava muito certa ainda, mas nem tive muito tempo de pensar, ele me agarrou e me beijou. Eu achei muito estranho, mas tentei curtir. Ele foi começando a pegar nos meus peitos por baixo da camisa e eu falei pra ele parar. Ele disse que tinha camisinha, que estava tudo bem, que os pais dele só chegavam à noite. Foi me empurrando pro sofá. Eu não estava muito a fim, mas lembro que acabei cedendo porque fiquei com vergonha de recusar. Achei que aquela talvez fosse minha única chance, já que eu era só uma “gorda bonita de rosto”. Ele me cobriu de elogios, disse que, apesar de ser gorda, achava meu corpo lindo. Colocou a camisinha e daí ele deitou em cima de mim e fez o que tinha vontade.
Eu me lembro que doeu muito, e que pedia para ele parar, mas ele dizia que era normal doer mesmo e que só com o tempo pararia. Quando ele terminou, eu disse que ia pra casa. Lá eu pesquisei e muitos sites diziam que doía mesmo. Fiquei aliviada! Tinha mesmo só sido um sexo ruim e não um estupro então, ufa.
No outro dia, eu estava voltando de uma aula particular que tinha dado e ele passou com o carro por mim. Me ofereceu uma carona até em casa, mas no caminho perguntou se eu queria “tentar de novo”. Eu concordei. Como eu tinha que “fazer até acostumar”, achei que quanto mais vezes fizesse, melhor. Ele só sorriu e disse que ia tentar alo diferente. Na casa dele, ele me tirou a roupa e me deitou na cama dele, mas dessa vez ele praticamente me obrigou a fazer sexo oral. Ele falou “fecha os olhos e abre as pernas” e de repente começou a passar o pau na minha boca. Eu disse que aceitaria, mas não ia engolir. E ele foi me ensinando como fazer. E assim nosso modus operandi foi sendo estabelecido. A gente ia pra casa dele, eu tinha que chupar até ele ficar duro, e depois ele me penetrava por uns seis minutos e terminava. Eu nunca gostava muito do que a gente fazia. Teve uma vez em que pensei em parar com esses encontros e ele me pediu em namoro. Mas tinha que ser escondido, e eu concordei, porque não me sentia à vontade de dizer aos meus pais que estava namorando. Até hoje eles não sabem.
Eu estava indo muito mal na escola. Eu estava enfrentando uma depressão muito severa e eventualmente eu larguei a escola. Meu “namorado” às vezes me buscava lá. Eu ia e voltava da escola numa van escolar, mas normalmente eu descia na porta da escola, esperava a van ir embora e ia andar por aí. Voltava na hora da van chegar e ia pra casa. Às vezes, nesse meio tempo, ele aparecia e me levava de carro para a casa dele, a gente “transava” e ele me levava de volta. Eu me sentia bem com ele. Ele me elogiava, me dizia que “apesar de tudo, gostava de mim”, que ele me amava “apesar da minha aparência”. Ele também sempre dizia que sim, concordava comigo, meus pais nunca gostaram de mim e por isso não iam querer saber que eu namorava, então o namoro tinha que ser em segredo. Ele começou a se incomodar com as roupas que eu usava e com minhas companhias. Às vezes eu ia jogar na casa dele e ele me humilhava enquanto a gente jogava (“ah mas é jogo de futebol, mulher é mesmo ruim de futebol né?”). Quando eu queria conversar com ele sobre a minha vida, ele dizia que “não tinha saco” pra me ouvir reclamando da vida o tempo todo, que isso era coisa de “menina histérica” e que ele tinha se apaixonado por mim justamente porque eu “não era como as outras”. Uma vez eu pedi um chocolate a ele, porque estava sem trocado. Ele disse “nossa mas você só pensa em chocolate. Se você engordar ainda mais daqui uns dias não vai caber no meu carro”. Tentei várias dietas, voltei à bulimia… Ele era um homem tão lindo, e eu parecia uma rolha (pequena e redonda) de óculos. Ele sempre dizia que eu tinha sorte de ser namorada dele, e eu concordava. Ele podia ter qualquer uma, e tinha logo a mim, a feia, a gorda, a insegura. Eu tinha medo dele me deixa e eu nunca mais arrumar ninguém, não queria voltar aos anos de solidão de antes, e ele dizia mesmo que ele só ficava comigo porque era “mente aberta”, outros homens não querem mulheres gordas. Nem mesmo os gordos. Afinal, eu tinha vários amigos gordos e realmente nenhum deles tinha me querido como mulher, só como “um deles”. Ele estava certo.
Até que um dia, depois de uma transa horrível (ele tinha me “lubrificado” cm cerveja, então eu estava toda ardida e esfolada), um amigo me ligou. Perguntou se eu queria ir no cinema com ele e eu aceitei. O namorado perguntou quem era e eu disse que era um amigo e que tinha me chamado pra ir ao cinema. Ele me proibiu de ir. Na verdade, ele não queria que eu saísse mais com nenhum amigo homem.
Eu contestei. Disse que ele não tinha o direito de dizer com quem eu podia ou não sair. Ele insistiu que tinha sim e eu mandei ele ir se foder, e fui pra casa. Ou tentei. Ele me agarrou pelo braço com tanta força que deixou as marcas dos dedos. Me deu um tapa na cara e me jogou no chão. Eu bati a cabeça, e ele veio pra cima de mim com chutes. Só que eu era boa de briga (tinha que ser né? Sofri tanto bullying na escola, tive que aprender a me defender) e consegui, mesmo com o nariz sangrando e toda dolorida, me levantar e me desvencilhar dele. Catei o telefone celular dele e disse que ia ligar pra polícia da FAB se ele não abrisse o portão da casa dele pra eu ir embora. Ele resmungou, mas concordou, abriu o portão e eu corri pra uma delegacia.
Contei o que tinha acontecido. Só o que eu ouvi foi umas broncas. “Menininha de 16 anos indo pra casa do namoradinho, uma hora ia acontecer mesmo. Que que você fez pra ele te bater assim?”. Comecei a chorar. Ele disse “ah, agora você se arrepende né? Pelo menos você lembrou de não abrir as pernas?”. Resolvi ir embora. Cheguei em casa e disse para meus pais que tinha brigado na escola. Meu pai só disse que “esse jeitinho” ia acabar matando ele de desgosto um dia. Tomei um banho, deitei na minha cama e chorei até dormir.
Só que a perseguição não terminou. O louco começou a me seguir por aí de carro, começou a me ameaçar, dizer que ia mostrar pros meus pais as fotos que eu tinha mandado pra ele, a dizer que ia contar que eu já tinha dado pra ele. Eu ficava apavorada, mas disse que se ele fizesse isso eu ia contar aos pais dele (os dois pastores) que o filho deles tinha feito sexo com uma menor de idade, que faria isso na igreja deles. Daí as ameaças pararam. Mas ele ficava rondando minha casa, mandando mensagens de ameaças, de fotos do pau dele e dele com outras meninas. Um dia resolvi printar uma conversa no MSN nossa, onde ele tinha me mandado uma foto dele se masturbando e levei pra delegacia. Ele foi preso porque eu era menor de idade. Saiu quando eu tinha 19 anos e voltou a me perseguir. Um ano depois foi preso de novo por se meter em uma briga uma vez quando tentou bater numa mulher grávida em um bar (mais tarde descobri que a mulher já era mãe de um filho dele, e ele decidiu bater nela por não aceitar que ela gastasse “o dinheiro da pensão” com cerveja) e uns caras se juntaram pra bater nele. Dessa vez ele ficou preso até eu fazer 23 anos. Quando eu fiz 25 eu já estava na UnB e ele começou a me perseguir. Teve um dia que uma vizinha me ligou dizendo que tinha visto um cara chutando o portão da minha casa, e que tinha chamado a polícia achando que era um bandido tentando invadir. Pela descrição que ela deu, eu soube que era ele. Ele mora perto da minha casa, às vezes me segue pelas ruas. Ele me ameaça. Descobriu contatos de amigos meus no face e às vezes tenta falar comigo pelo celular se passando por eles. Não sei se ele me segue na UnB ou se paga alguém pra fazer isso, nem quem passou meu celular e meu Facebook pra ele.
Vejam bem. Eu tenho 28 anos. Namorei esse cara por um ano quando tinha 16. Fazem 12 anos. Mas a misoginia dele ainda faz o louco me perseguir. Ele não se compadece do fato de ter me usado de brinquedo sexual e me estuprado várias vezes quando eu tinha 16 anos, nem me manipulado, nem me agredido. E eu sei que não fui a única vítima dele, assim como eu sei que ele também não vai parar de me perseguir nunca.
Mas o pior nem foi ter mantido tudo em segredo dos amigos e da família, nem a dor física de ter apanhado. A dor maior foi a sequela emocional que ele deixou.
Vivemos em uma sociedade misógina e gordofóbica. Os homens odeiam as mulheres, especialmente as gordas. Eu saí do relacionamento abusivo, mas ele não saiu de mim. Ainda hoje, doze anos depois desse relacionamento trágico, eu ainda lembro das palavras dele. “Apesar de ser gorda, eu gosto de você”. Ele (e muitos outros) gostam de destruir a auto estima de suas vítimas, essa é a forma mais eficiente de dominação. E no meu caso, a minha auto estima sempre foi ruim. Crescendo sem família e sem amigos, eu sempre acreditei que era uma pessoa impossível de gostar. Depois desse relacionamento, eu ainda acredito que seja. Eu tenho meus amigos, e os amo demais, eu os cubro de presentes e a coisa mais importante do mundo para mim é passar um tempo com eles, qualquer tempo. Afinal… É deles que vem a única fonte de carinho que eu já tive na vida.
Eu ainda não sei como é ter alguém dormindo ao nosso lado. Não sei como é sentir a carícia de alguém. Não sei como é ficar esperando alguém te ligar, nem ficar ansiosa para saber o que eu vou ganhar de dia dos namorados. Não sei o que é ter alguém em quem ficar pensando, não sei o que é me perguntar se outra pessoa está pensando em mim. Não sei o que é estar triste e ter um ombro no qual chorar, não sei o que é receber um carinho no cabelo e ouvir alguém dizer “eu estou aqui para você”. Não sei o que é receber um abraço. Não sei nenhuma dessas coisas. Porque, desde que eu me livrei daquele crápula, eu nunca mais tive a coragem ou a auto estima de tentar outra pessoa. Já gostei de outros caras. Mas nunca tive coragem de chegar neles. Primeiro era medo de apanhar de novo. Depois passou a ser mais uma questão de auto estima. Eu via os caras que eu gostava e pensava que eles mereciam alguém melhor do que eu. Que nenhum deles ia se interessar por uma mulher gorda. E, de fato, cada um deles apareceu despois desfilando por aí com uma menina linda e magra. A sensação que fica é de que realmente não teria valido a pena ter arriscado, que pelo menos eu me poupei de tentar.
Mas também fica uma sensação horrível de solidão, de que a gente não merece amor, uma sensação que você é boa o suficiente pra ser amiga, mas talvez nem tanto assim. É sempre uma sensação de que eu sempre faço mais por eles do que eles por mim (salvo algumas exceções), e eu nunca sei se eu tenho essa sensação porque é realmente verdade ou porque eu simplesmente exagero no quanto gostaria de ter eles perto de mim o tempo todo, porque, literalmente, o único momento em que eu estou com alguém que gosta de mim é quando estou com eles. O único carinho que eu tenho é o deles. Me pergunto se eu não pareço exagerada ou carente. Inconveniente. Ou se eles é que são indiferentes quanto a mim. Ou se é tudo obra da minha vasta imaginação. O que importa é que o machismo mata todos os dias. O meu ex matou a Driele, que nunca mais teve coragem de se relacionar com ninguém por causa dos traumas que ele deixou. A gordofobia mata também. Quando você vê que a forma do seu corpo não está em lugar nenhum, a não ser em comédias (boas ou ruins – mais frequentemente ruins), você aprende que você é legal o bastante para ser amiga, mas nunca nada além disso. Porque a maioria das pessoas até tolera uma amizade com uma pessoa gorda, mas um relacionamento sadio é quase impossível de se encontrar quando se é gorda. Invejo as que conseguiram. Eu, certamente, já desisti de tentar.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Leilane disse:

    Ei querida! Li o seu relato e fiquei muito triste. Como tantas coisas difíceis podem acontecer com uma menina só. Uma mal vai puxando o outro, outro…como num desenrolar de um novelo nocivo.Quanto nós adultos erramos ao não proteger e deixar vulneráveis nossas crianças, quanta ausência. Mas saiba que vc é uma sobrevivente, uma pessoa com muito valor. Acredite. Não sou eu que digo. Sua existência não é obra do acaso, vc tem muito valor.
    Que pena que não te conheço pessoalmente. Gostaria de te abraçar. De te dar um presente. Materializar a minha empatia, não só no belo discurso. Mostrar que amizades verdadeiras e desinteressadas são possíveis. Que vc não é um acidente ou acaso. Que voce é linda como pessoa, mulher.
    enorme abraço!

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