Nutrição Comportamental na Alimentação Infantil

Por Dra. Danielle Fava, Nutricionista -CRN 3 26112


A Nutrição Comportamental um conceito que tem crescido muito nos últimos anos, pois envolve todos os aspectos que abrangem o ato de comer: aspectos fisiológicos, sociais, emocionais, culturais, antropológicos, cognitivos, psicológicos que nos permite vivenciar as experiências alimentares e nos propõem que, equilibrando a nossa mente e o nosso corpo temos autocontrole e autopercepção do que comemos, como comemos e quanto comemos, podendo assim, manter a saúde, o bem estar e o controle das doenças.

Passamos muito tempo ligados no “modo automático” ou com uma gama de pensamentos o tempo todo. E isso influência muito no momento de comer: comemos distraídos, com o celular ou televisão, pensando na reunião que teremos após o almoço, preocupados com as contas, com as calorias, sentindo culpa por achar que não deveria comer uma “gordice” e pensando em quantas horas de academia levarão para queimar a “jacada” do dia e muitas outras coisas…

Com isso, a comida é engolida tão rápido que mal se sente o gosto e nunca ficamos satisfeitos. Daqui a pouco estamos procurando outra coisa para comer e assim vai ao longo do dia.

Mas o que isso tem de tão prejudicial?

Fazer isso uma vez ou outra, nada. O problema é quando fazemos isso com muita frequência, o que é bem comum, além de envolver menor percepção dos sinais de fome e saciedade, leva a uma menor assimilação daquilo que foi consumido, o que pode levar a pessoa a comer mais na próxima refeição e também influenciar, inclusive, na escolha da qualidade nutricional da refeição. Imagine-se fazendo isso em longo prazo, quais consequências podem ser geradas para a sua saúde?

E quando falamos da alimentação infantil então? Quantas e quantas crianças comem na frente da televisão, ou correndo pela casa enquanto pais e mães ou cuidadores desesperados, correm atrás delas, tentando fazer com que comam ao menos uma única colherada.

Muitas vezes usamos a desculpa de que, mas ele só come se colocar o desenho tal e eu prefiro que ele coma. Será mesmo? O que estamos fazendo com os nossos filhos? Apenas enfiando comida? Será que não é importante desenvolver o contato com o alimento, as percepções de fome e saciedade para que, essa criança, tenha total controle alimentar no futuro? Para que ela tenha prazer em comer, para que ela saiba que pode comer um chocolate, mas que apenas um quadradinho é o suficiente para satisfazê-la ou que os sabores da cenoura são tão gostosos, tão crocantes quando crus e tão macios quando cozidos, mas que definitivamente ela não gosta do sabor da beterraba?

Frequentemente, as causas das rejeições alimentares somos nós mesmos que introduzimos nas crianças, pela forma como conduzimos a alimentação delas. Precisamos estar do lado dos nossos filhos durante esse processo, dizendo para eles que tudo bem não gostar de algum alimento, que nós também não gostamos de alguns e que isso é natural. Faz parte da vida. Assumir nossas vulnerabilidades para eles deixam eles seguros, ao contrário do que pensamos. Por que eles se sentem seguros para assumir as vulnerabilidades deles também e com isso conseguimos entender e propor soluções. Por exemplo: se você ofereceu brócolis cozido para o seu filho na salada fria e ele não gostou, tudo bem, talvez ele goste picadinho no arroz ou no macarrão. Mas, dependendo da forma como foi aquele dia do brócolis na salada, se não houve empatia, se não houve acolhimento da criança, ela pode nem querer experimentar o brócolis da próxima vez.

Se você não estiver realmente presente, se a família não estiver vivenciando este momento, se as refeições estiverem sendo feitas na sala, com o celular e com a tv, esse momento, extremamente importante, vai se perder. E lá na frente, as dificuldades alimentares, os problemas com peso ou transtornos alimentares, poderão surgir. Um pequeno momento, vivenciado de forma plena, pode mudar uma relação de longos anos com a comida. É claro, que mesmo quando adultos, temos a oportunidade de mudar isso, mas quando mais cedo fizermos é sempre melhor.

Vale lembrar que, o não julgamento é um fator primordial para a mudança comportamental, bem como a compaixão. O foco no momento presente, do que se come, do quanto se come, do onde se come e do como se come é o grande “x” da questão para a tomada da consciência. Então, quando falamos sem julgamentos, precisamos ter compaixão por nós mesmos, se, naquele dia, eu cheguei extremamente cansada e acabamos fazendo uma comida que talvez eu não considere tão saudável, tudo bem, mas que ela seja desfruta de forma consciente e plena, sem culpa e sem julgamento, sem o peso nas costas que muitas vezes, nós mães, nós pais, nós cuidadores, carregamos sempre.

Outro dia eu estava com meu filho na fila da padaria, e uma mãe, estava com dois filhos na minha frente. Uma menina, que devia ter em torno de 10 anos e um bebê com idade em torno de 1 ano e meio. O bebe queria algo do balcão e a mãe não deixou o bebê pegar. A filha mais velha questionou a mãe sobre o porquê o bebê não poderia comer aquilo e a mãe falou que ela já tinha comido “muita porcaria naquele dia: papinha industrializada, salgadinho, pão de queijo…”. Uma mulher olhou para a mãe na fila e ficou horrorizada, comentando com a outra do lado: “Nossa, como a mãe dá tanta porcaria para o filho assim? ”

Sabe, de verdade, eu fiquei pensando: “O que será que aconteceu no dia dessa mãe para que ela tenha alimentado o filho dessa forma? Será que isso aconteceu somente hoje ou é rotina na vida dessa família? Como é a dinâmica e a logística familiar para que isso tenha ocorrido? Quanta culpa está indo no coração dessa mãe?”

Então, que tal tornar a nossa a alimentação e a de nossos filhos mais leve? Sem culpa, sem medos, sem cobranças, sem dicotomias de pode x não pode, de bom x ruim, de alimento do bem x alimento do mal. É possível conversar de uma forma mais leve, para que eles entendam que em uma alimentação equilibrada todos os alimentos podem ser consumidos e as crianças adquiram um comportamento alimentar saudável em todos os sentidos.

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