Coração de mãe sabe…

Duane, 1 anjinho, autônoma, 26 anos!

Desabafo Anônimo: Planejamos, e com meus 26 anos eu e meu marido fizemos nossa encomenda a Deus. Desejávamos nos tornar pais. Foi rápido, no quarto mês eu tive meu positivo. Até que uma semana antes de tudo comecei a sentir uma aflição , o Gael não estava mexendo, em cinco dias fui três vezes em médico, emergência, fiz eco. Tudo perfeitamente normal a não ser pelo meu sentimento. Eu conhecia meu filho.
Foram 27 semanas de amor, muito amor. Até que no dia do aniversário de 30 anos do meu marido, voltamos de um restaurante onde comemorávamos a vida dele, eu deitei em nossa cama e chorei. Desabei em um choro profundo, disse a ele que mesmo tendo feito uma eco dois dias antes não era normal, nosso Gael não estava mexendo. Coração de mãe sabe.
Eu tinha certeza que meu primeiro filho seria um menino. Eu dizia isso antes mesmo de conhecer meu marido. Mas não era um desejo do meu subconsciente, bem porque eu confesso que era bem o contrário, só tinha nome para Lívia. Mesmo assim, todos meus familiares e amigos ouviram isso a vida toda, grávida eu confirmei esse sentimento que até me assustava.
Quando confirmei na eco passei a falar que o Gael estava na porta do céu só me esperando. Isso me assustava, porque eu tinha essa certeza? E ele veio. Era mesmo menino meu primeiro filho que eu sempre profetizei que seria mãe.
Eu tenho dois úteros (!). Uma má formação uterina, que poderia transformar meu sonho de gestar muito difícil. Mas foi rápido, estava programando a cirurgia para operar o útero quando 4 dias depois de sair do consultório com as guias, eu vi o positivo. Fiquei muito aflita, afinal o que esperar, mas muito, muito feliz. O temido primeiro trimestre foi muito, muito tranquilo. Sem enjoos, sem sono, isso até me incomodava. Afinal queria me sentir grávida. Minha barriga apareceu bem rápido, e ficou bem grande, ainda bem. Nessas últimas semanas já inclusive achavam que eu estava nos finalmente, e eram só quase sete meses. Foi na morfológica das 13 semanas veio o primeiro baque. O ossinho do nariz não apareceu. Isso era um indicador de síndrome de Down.
Meu chão desabou, não contamos a quase ninguém. Essa parecia ser a reposta pra pergunta que eu fazia. Era isso. Eu seria a mãe de um menino especial. Ele estava me esperando, essa seria minha missão. Por isso foram dias tão angustiantes até os exames, eu sentia que era essa a resposta. Foram quase dois meses até fazer um exame nos EUA que descartou qualquer má formação genética. Mal eu sabia que isso era o de menos.
Como eu agradeci a Deus. Mas voltei a me perguntar o porquê daquela certeza? Se não era isso, o que Deus reservava pra nós? Aquele sentimento me assustava e era muito forte. Sempre teve um menino esperando por mim.
A música que cantei pro Gael durante minha gravidez inteira foi a mesma que canto pra minha avó depois que ela partiu. Isso também me assustava. Como pode uma música ser minha lembrança de alguém que se foi, a mesma pro meu filho que vai chegar. Isso também pesava na minha cabeça, mas eu não conseguia mudar.
Sou uma pessoa muito intensa. Essa é uma característica muito forte em mim. Meus amigos e familiares chegam até classificar como defeito às vezes. Duane intensa, que ama demais, se entrega demais.
Agora, passado alguns dias e ainda sofrendo muito eu tive minha resposta. Há uma teoria divina em que os bebês que morrem são almas tão puras que não precisam viver nesse mundo, só passam por aqui para viver a promessa de ter um corpo. Mas retornam para Deus puros, anjos.
Aquele menino que estava me esperando na porta do céu, o Gael, sabia que iria ter pouco tempo nessa terra. Mas ele precisava ser amado. E por isso ninguém mais poderia ser sua mãe, ele me escolheu. Eu, a Duane criticada pela intensidade com que ama, vivi minha gravidez da maneira mais intensa possível. O amei dia e noite, sem pudor e limite. Ficava horas na cama conversando com ele, vendo ele mexer, conversando. Tirei muita foto, alisei muito minha barriga. Comprei todas suas coisinhas com muita alegria e carinho. Esse amor todo que desabou em dor naquele dia e me fez cair em desespero. Mas como eu posso reclamar? Se esse era o plano de Deus pro Gael, se ele me escolheu pois sabia que ia ser amado. Ele esperava por mim, pelo meu amor para fazer sua breve passagem. Eu amo meu filho.
Hoje, poucos dias depois desse grande trauma, eu consigo reconhecer o amor de Deus sobre mim. Ele me deu o maior dos fardos e dores que eu podia imaginar carregar. A maior dor da minha vida. Mas também plantou sentimentos de que essa seria minha história. Essa certeza sem explicação que eu sentia desde muito jovem que ia ter um menino e ele me esperava, a música da minha avó, a minha aflição antes mesmo do coraçãozinho dele parar ,de que algo estava errado mesmo quando todos os exames diziam estar tudo bem. E ainda houveram outras coisas. Mas Deus proveu formas de amenizar, colocando tanta gente boa no meu caminho desde o início da gravidez, até aquele hospital. Desde a médica de plantão que me abraçou e chorou junto, como os enfermeiros, anestesista, instrumentador e meu obstetra, um ser abençoado.
Meu filho se foi, dia 09 de Abril de 2016. Pesando quase 1kg, devido a uma torção em espiral no cordão umbilical. Tinha o nariz da minha mãe, dedos compridos como o do pai, minha orelha, cabelo escuros, pele clarinha, um pezinho perfeito. No instante em que coloquei os olhos naquele anjinho, senti que eu e meu filho tínhamos uma missão. A do amor. E ela estava estampada naquele serzinho tão perfeito e angelical. Eu e seu pai o amamos dia e noite, durante todos seus poucos dias. Ele veio puro e se foi puro, sem respirar o ar desse mundo tão difícil, mas sentindo o amor mais verdadeiro e intenso que já habitou dentro de mim.
Apesar de toda essa paz, essa certeza de que essa história já estava escrita e que foi ele quem me escolheu, mesmo assim a dor é inevitável. O vazio que habita no meu ventre e invade o fundo da minha alma é dilacerante. Meu filho, como a mamãe te ama, como eu sinto sua falta…

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