Ninguém fala sobre seus insucessos!

Sem filhos, 26.

Desabafo Anônimo: Ontem fez um ano que eu engravidei. Sei o dia certinho e lembro de tudo, apesar de não imaginar, nem estava tentando. Era a nossa primeira gestação, fomos pegos de surpresa, mas a hora era ótima, tínhamos acabado de realizar o sonho do imóvel próprio, meu marido tinha trocado de emprego pra um muito melhor. Eu tinha acabado um projeto muito legal, estava agora desempregada, mas com tudo certo. Aos 25 anos, com uma saúde perfeita eu estava grávida, com um bom plano de saúde fui atrás de um obstetra humanizado, escolhi o melhor, que tinha conhecido exatamente um ano antes de engravidar, era um sinal…Todos os exames indo bem, evoluindo com tudo certinho, muitos enjoos mas isso era um bom sinal, certo? Até que no terceiro ultrassom que foi o da translucência nucal dessa vez com 13 semanas, saberíamos o sexo, estávamos muito alegres…Deitei, o médico disse “vamos ver como está esse bebê”, passou o instrumento na barriga, fez uma cara ruim, disse um ts….não temos boas notícias”, imediatamente comecei a chorar, foi uma sensação muito ruim, terrível, como viver um pesadelo mesmo. Meu marido segurava forte a minha mão atrás de mim. “O bebê está sem batimentos e não estamos vendo que deveria ser pra 13 semanas”, disse o médico e me ofereceu água e lenços pra parar de chorar. E logo teve que passar pra transvaginal pra terminar o exame, imaginem fazer esse exame tensa, chorando…Ele pedia que eu relaxasse, mas era impossível. Fiquei olhando aquela imagem do meu bebê parado, morto e o médico ia me mostrando algo esquisito, uma bolsa de cistos no que deveria ser a placenta. Não ouvi, não entendi, não liguei, o mundo tinha parado naquela imagem do meu bebê sem vida. Mas entendi que tinha mais problemas além de ter perdido o bebê. Ele ligou pro meu obstetra, que logo me recebeu e na consulta marcou a curetagem pra manhã seguinte e me receitou um calmante, ele foi super humano, competente, até hoje me acompanha, um profissional admirável que confio muito. Quando ele falou que teríamos que fazer a curetagem eu tive outro ataque de choro, eu nunca havia feito nenhuma cirurgia, nunca tinha sido internada, natureba que não toma remédio nem pra dor de cabeça. Pensei se daria tudo certo, no perigo da anestesia, em ser mutilada, em tudo. Na cirurgia ocorreu tudo bem, meu médico fez um rolo para que ele mesmo pudesse fazer a curetagem no hospital que meu plano cobria, ele levou seu próprio aparelho pra fazer a aspiração, método menos invasivo. Tive medo de ser mal tratada e humilhada sob a suspeita de ter causado aquilo, uma das minhas melhores amigas passou por isso na curetagem dela, foi tratada mal pelas enfermeiras que desconfiavam dela. Tive sorte, elas me trataram muito bem, era inverno e a minha cidade é muito fria, eu só com aquela camisola aberta humilhante pelo hospital, tremia! Elas me arrumaram cobertor, me cobriram com carinho e disseram que logo eu estaria lá grávida de novo e que tudo daria certo. Sim, sofri muito indo me recuperar sozinha, sem meu marido, junto com mulheres que amamentavam felizes com seus bebezinhos. Sofri com muitas questões que não caberiam aqui. Alguns dias ou semanas depois eu decidi enfrentar o trauma do ultrassom, pois aquilo me perturbava, lutava pra não lembrar, aí lembrava, mas ainda  era como um pesadelo. Resolvi que tinha que enfrentar para poder seguir. Peguei as imagens e o laudo da ecografia, olhei cada detalhe do meu bebê, encarei. Li o laudo e achei um termo estranho e fui pesquisar. Assim comecei a entender um pouco o que tinha acontecido. Mais umas semanas depois chegou o resultado do laboratório que tinha examinado os “restos ovulares”, deu as seguintes informações: doença trofoblástica gestacional, mola parcial, 69 XXX. Resumidamente, o erro aconteceu logo na fertilização, ou meu óvulo foi fecundado por dois espermatozoides ou foi fecundado por um só com o dobro de carga genética. Era incompatível com a vida, se a gravidez continuasse eu estaria em risco e se tivesse conseguido nascer teria alguma síndrome grave, provavelmente viveria pouco. E mais…essa doença fazia crescer um tumor no trofoblasto (onde viria a ser a placenta). Eu saí de uma gravidez linda e saudável para uma perda, uma curetagem e um tumor, com possibilidade de quimioterapia. Passei três meses fazendo SEMANALMENTE o exame de beta hcg (hormônio que aumenta demais e demora a baixar nessa doença) pra saber se era benigno ou maligno. Três longos meses me deparando com a possibilidade de uma quimio semanalmente, toda quinta-feira. Quando também me deparava com as sensações desagradáveis de tristeza, inveja e revolta enquanto esperava na sala de espera junto com grávidas felizes e cheias de esperanças. No mesmo hospital onde eu tinha descoberto a gravidez, acompanhado tudo e também feito a curetagem. Foi demais, me exigiu muito. Depois desses 3 meses e meio, passei a fazer o exame mensalmente, durante 6 meses, para me certificar que era mesmo benigno e que tinha dado tudo certo. Ou seja, ainda não tinha a confirmação que tinha mesmo dado tudo certo, me sentia sempre na berlinda. E desde o primeiro dia que soube que perdi o bebê até o fim do meu tratamento tive que lidar com mil notícias de gravidezes de conhecidos, com tudo lindo e perfeito. Me senti defeituosa, amaldiçoada, incapaz. Me deparei com essa sombra horrível da inveja das barrigas, da revolta, sentimentos horríveis, indizíveis e que eu tenho profunda vergonha. Ressignifiquei e aceitei o que me aconteceu, recuperei a alegria de viver, mas ainda não consigo ter coragem de engravidar de novo, fiquei com uma sensação de fracasso, de incapacidade de gerar um filho com saúde. Comecei a fazer psicoterapia para aprender a lidar com isso. Fiquei também com uma certa obsessão em fazer exames e medo de outras doenças. Me sinto sozinha porque ninguém fala sobre seus insucessos, suas mágoas, seus sentimentos feios, seus medos e suas cicatrizes.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Vera disse:

    Olá, eu também passei por isso em 2015, aborto por mola parcial, fiz todo o acompanhamento e exames que você teve que fazer, até a alta. Hoje estou grávida novamente. Que Deus nos dê a graça de termos nosso bebê com saúde. Abraços.

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  2. gabi disse:

    Querida, continue na terapia, mas saia do foco do eu. Você não é a única que passa por isso, você não está só nessa dor.. Passe por isso como uma expriência de transformação, de mudança em sua vida. Isso agora dói muito, mas vai passar um dia. Você será mãe. E pare com esse sentimento de inferioridade , de fracasso, isso em nada vai te ajudar, muito menos ficar se acabando em inveja, isso só te tornará ainda mais infeliz. Deixa eu te contar um segredo, nem todas as mães são felizes, nem toda gravidez é um mar de rosas.

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