Intolerância

Por Letícia Penteado – 19 Novembro 2015 – Revista Fórum


Vamos viajar um pouquinho.

Um triângulo sai à procura de algum lugar onde se encaixar e encontra uma série de buracos. Ele experimenta entrar num. Por sorte, os buracos são triangulares e ele entra perfeitamente; seus três cantinhos são aconchegados sem dificuldade e ele fica lá, feliz.

Logo chega um quadrado, também à procura de um encaixe. Ele vê o triângulo, vê os buracos. Tenta entrar num. Não consegue. Tenta de novo. Não consegue. Dói, fica incomodando, ele tem um cantinho a mais que não entra. O triângulo não entende o problema, afinal, ele não tem dificuldade alguma para se encaixar ali.

O quadrado tenta explicar que ele é diferente, que talvez o buraco precise de modificações para que ele consiga encaixar-se nele, mas o triângulo não quer saber, afinal, “somos todos formas geométricas” e, logo, se ele é capaz de caber, todo mundo também é, é só uma questão de tentar de verdade. De querer superar essas limitações. Para o triângulo, o quadrado está é de má-vontade e tem que penar muito para aprender a se encaixar nos buracos que encontra, ao invés de ficar de mimimi.

Raras vezes na minha vida encontrei algum indivíduo que realmente se julgasse no direito de receber um tratamento diferenciado. Ou seja, aquele cara que de fato sente que deve ser permitido a ele fazer o que não deve ser permitido a outras pessoas – quaisquer outras pessoas. Normalmente isso vem da compreensão de si mesmo como acima de todo o resto do mundo. Em uma palavra, megalomania (ou escrotidão).

O que vejo bastante é a hipocrisia mesmo – fazer de conta que se exige de si o mesmo que se exige de outrem, mantendo-se essa ilusão por meio de racionalizações e distorções que sustentem que “no meu caso é diferente”. Para mim, entretanto, essa ginástica mental toda demonstra precisamente que a pessoa não se considera acima das demais, já que, do contrário, a incoerência de exigir de outras o que ela própria não faz, ou condenar em outras o que ela própria faz, não seria incômoda a ponto de ela precisar ou esconder isso de si mesma ou tomar uma atitude para desfazê-la. E que atire a primeira pedra quem nunca.

Assim, essa coisa do “eu posso porque eu sou eu” não é algo com que nos deparamos todo dia (pelo menos não escancaradamente). O que encontramos, contudo, frequentemente, é uma variação estranha dela, uma espécie de megalomania coletiva: o indivíduo não se sente digno de tratamento diferenciado e especial por si só, mas, diluindo-se num todo, num grupo ao qual pertence, arroga para si, em detrimento de outro grupo, regalias que passa a ver como “naturais”.

É a sensação discriminadora de que um conjunto de pessoas, do qual se participa, pode fazer o que é proibido a outro, do qual não se participa: homens podem encher a cara, mulheres não; pessoas magras podem mostrar a barriga, pessoas gordas não; pessoas heterossexuais podem existir, pessoas não-heterossexuais não; pessoas brancas podem apresentar a copa do mundo, pessoas negras não; pessoas sem deficiência podem participar da sociedade, pessoas com deficiência não; pessoas adultas podem participar da sociedade, pessoas crianças não...

A discriminação se baseia no ver outra coletividade como merecedora de “menos” do que aquela em que se está, que é merecedora de “mais”. Menos o quê? Varia. Mas, normalmente, o pano de fundo é respeito e dignidade.

Não se trata apenas de falta de ver como pessoa, como ser humano – muita gente tem empatia até mesmo com animais de espécies muito distantes da nossa própria. É algo que vai além. É saber que se está causando mal estar e achar que tudo bem, porque é assim mesmo que tem que ser. Que essa é a ordem natural das coisas. Não é a falta de noção de “se não têm pão, que comam brioches”, mas o descaso intencional do “se não têm pão é porque não merecem comer”.

E é chocante o quanto posicionamentos assim se apoiam numa suposta igualdade, ainda por cima. Como o triangulozinho obtuso (não resisti ao trocadilho, desculpem) lá em cima, eles costumam demonstrar um raciocínio meritocrático que gira em torno de “se eu sou humane e me encaixo neste padrão, então todas as pessoas que são humanas podem se encaixar nesse mesmo padrão de alguma forma”. A (falta de) lógica sendo a de que quem se é não é somente um ser humano, mas O ser humano – o modelo de ser humano a ser seguido pelos demais seres humanos. E quem não se enquadra que se vire, porque “quem quer de verdade dá um jeito”. Mesmo que esse jeito passe por cima de quem de fato se é.

Esse é o pensamento que está na raiz da intolerância, da dificuldade de conviver com as diferenças, de aceitar quem não é (ou faz, sente, pensa…) igual a nós. Inclusive, é o que está também na ideia de que tem o nosso jeito e o jeito errado. Sem análise de contexto, sem recorte, sem consideração dos próprios privilégios (por exemplo, ter-se precisamente o formato certo para encaixar sem ter que se mutilar).

A intolerância, no fundo, é uma espécie de autoritarismo, que determina que aquilo que é diferente cesse de ser, seja por “adequação” (normalização) ou por exclusão.


Fonte: http://www.revistaforum.com.br/leticiapenteado/2015/11/19/intolerancia/
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