Desabafo Inoã

Inoã Viana, médica, 1 filho


E então o tão esperado positivo. Enfim grávida. Tudo estava saindo como o planejado. Até quando engravidar eu tinha conseguido controlar. Mal sabia que essa seria uma das últimas vezes que eu poderia controlar algo.

Tive um início de gestação complicado. Não tive nenhum problema grave de saúde, meu bebe se desenvolvia bem, mas eu sofria demais com náuseas e vômitos. Tive hiperêmese gravídica. A hiperêmese é quando o quadro de náuseas e vômitos, comuns no primeiro trimestre da gravidez, se tornam mais graves, algumas vezes levando a internação. Perdi peso, dias de trabalho e, principalmente, o prazer de estar grávida.

Por diversas madrugadas, chorei até acordar o meu marido, dizendo que não queria mais aquilo. Que estava vivendo um inferno e não queria mais. Cheguei a desconfiar de depressão. Mas mesmo tendo o conhecimento teórico de que, esta sensação vinha do quadro que a hiperêmese estava causando em minha vida, a culpa me tomava. Como assim não quer mais? Você não queria tanto? E assim a culpa foi chegando pouco a pouco…

Passado o primeiro trimestre, tudo voltou ao normal. E ao normal eu quero dizer ao normal mesmo. Nem parecia que estava grávida. Sem inchaço, sem desejos, sem indisposição. Chegava a brincar com o meu obstetra que não tinha nada para falar nas consultas. A sensação de controle da minha vida havia retornado, que bom! Continuei a trabalhar, morria de orgulho da minha barriga e da minha autonomia.

E aí veio o final da gravidez. Que parecia que não ia acabar nunca. Eu, desde o início, optei por tentar parto normal. Quer dizer, tentar não existia no meu vocabulário. Seria parto normal e ponto. Meu plano era um parto hospitalar, onde eu entraria espontaneamente em trabalho de parto e passaria pelo mínimo de intervenções médicas possíveis.

E então, nada desse dia vir. Não aguentava mais as mensagens diárias de amigos e parentes perguntando pelo bebê…

Mas no dia 05 de março, as 6 da manhã, começou. Tentei manter o controle. Sabia que por ser o meu primeiro parto, iria demorar. Então arrumei a casa toda, arrumei os últimos preparativos, acordei meu marido, tomei meu café e suportei até aonde dava. Ás 11 da manhã conversei com meu obstetra e optamos por irmos para o hospital. Chegando lá, uma amiga me examinou e disse: ihhh vai demorar… na realidade você nem entrou em trabalho de parto… (E aqui fica uma nota: Deus, como aquele toque dói!!!)

Como assim? Aquela dor toda era o que? Mesmo assim fui internada. Ao ser examinada pelo meu médico ele observou evolução da dilatação e disse que estávamos indo bem.

Ás 16 horas, ao ser examinada novamente, mais evolução. Estava com 4 cm de dilatação, sentindo uma dor moderada e conseguindo conversar. Mas em

meia hora a coisa começou a degringolar. A dor foi me dominando. Logo eu, que achava que suportava super bem. Não, ali o buraco era mais embaixo. Pedi que o anestesista fosse chamado. Lógico que eu queria parir sem anestesia, da forma mais sem intervenção possível. Mas quando você tem a sensação que seu quadril vai explodir a cada 3 minutos, você esquece ideologias.

Ás 19:00 chega o anestesista. Graças a Deus. Após a analgesia, a volta da dignidade. Conseguia conversar, me concentrar no que estava prestes a acontecer. Parir assim é moleza. Um novo toque: a dilatação estava em 6cm. A coisa estava séria.

Eis que as 21:30 a dor volta. Como assim? E volta com tudo. Novamente a sensação. E a classe foi embora. Só me lembro de gritar: meu quadril vai explodir!

22:30. Um novo exame. 6-7 centímetros. E a dor na escala máxima que eu podia suportar. E aí veio a pergunta: faremos nova analgesia? O bebê está ótimo, porém o seu colo já está edemaciado. E aqui eu abro um parêntese: nenhum desses sinais indicam cesariana. Apesar da evolução lenta o bebê estava bem, eu também. Quer dizer, eu estava bem, mas não estava. Eu não estava mais ali. Ali estava só a dor e o cansaço.

Então veio o obstetra. E aí Inoã, o que você quer? Aqui um novo parêntese: a minha vontade sendo respeitada em todas as etapas. E aí eu decidi: chega! Eu não aguento mais, esse é o meu limite. Eu quero cesárea. O parto é para ser um momento mágico. Eu não era mais eu, se eu seguisse em frente, meu filho nasceria de parto normal, mas será que era aquilo que eu queria?

E então, no dia 05 de março, ás 23:20, nasceu o Gael. De uma cesárea, nem um pouco planejada, mas que eu decidi reconhecendo o meu limite. Maduro não?

Não! Porque o que me pareceu uma decisão sensata no momento se tornou uma culpa. Porque eu não aguentei mais? Desde que o mundo e mundo as mulheres colocam seus filhos no mundo e porque eu não fiz isso? Como eu pude ser tão fraca mesmo com toda a assistência? Como alguém não consegue mesmo com anestesia?

Hoje, 2 meses, após o parto eu consigo conversar sobre isso com mais naturalidade. Mas a dor ainda está lá. Não consigo ver vídeos sobre partos e, sinceramente, me acho inferior as mulheres que tiveram parto normal. Logo eu, tão compreensiva com os outros, sendo tão dura comigo mesma? Vai entender… E aqui deixo mais uma nota: não tenho nada, absolutamente nada, contra cesáreas. Ela é uma cirurgia salvadora nas emergências e emancipadora nos casos de escolha consciente.

Por mais que todos apoiem a minha decisão a dor existe. E essa dor é só minha. Nós ainda vamos levar um tempo para nos entendermos, mas esse dia ainda vai chegar.

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