Como esquecer que não se pode mais gerar filhos por erro médico?

Mãe, autônoma, 31 anos

Desabafo Anônimo: Vida corrida, trabalho, casa e uma filha crescendo e pedindo cada dia mais para ter um irmãozinho. Ela com 6 anos e uma vontade enorme de não ser sozinha, de ter um bebê em casa. Antes dessa idade eu meu marido não pensávamos em ter o segundo filho. Medos e inseguranças… Mas ao mesmo tempo sempre vinha aquela dúvida se era o melhor ter uma filha só. Estamos sendo egoístas, eu tenho 2 irmãos e os amo, meu marido tem 11 irmãos família grande e iríamos privar nossa filha dessa convivência maravilhosa, de dividir uma casa, os pais, uma vida…
Fomos a cada dia amadurecendo a ideia e eu reduzi minha rotina de trabalho tão logo decidimos que sim, iríamos parar com o anticoncepcional e estávamos prontos para amar mais um filho. Minha filha já dizia, que no coração dela sempre teve um espaço reservado para o irmãozinho.
Primeiro mês sem remédio e já? Sim… bem no primeiro mês já recebemos nosso positivo e foi uma felicidade imensa. A felicidade durou pouco, em 4 dias tive um sangramento e na maternidade foi constatado: aborto espontâneo… Uma sensação de vazio me invadiu… Como assim? Por que comigo? Em uma semana voltei ao médico que me disse que não havia motivo para esperar, que não precisava tomar anticoncepcional. A natureza é sábia, quando tiver que engravidar novamente vai acontecer…
Nesse momento já desejávamos outro filho com todo o coração, planos e mais planos e nada de anticoncepcional… Mês seguinte positivo novamente, que felicidade!!!
A família toda empolgada com tanta fertilidade e nós ainda com receio. Ainda com muito medo de outro aborto mas com fé de que nada iria dar errado. Minha filha deslumbrada com a notícia e muito feliz por finalmente ser a vez dela de ganhar um irmãozinho(a) e eu. muito apreensiva, decidi só fazer planos realmente depois de 12 semanas, quando passa os 3 meses mais delicados.
Pequeno sangramento, exames normais e foi só um susto. O bebê se implantou baixo, nada preocupante, o médico me tranquilizou. As semanas foram passando e minha felicidade foi ficando plena. Barriguinha crescendo, sem enjoos, sem nenhuma preocupação maior.
23 semanas e já sabemos… Yuri a caminho.
De repente, uma cólica me faz acender a preocupação, e fui à maternidade. Fiquei internada para investigar. Dia após dia e uma sequência de informações desencontradas. Possível infecção uterina, colo dilatando, aborto inevitável, bebê inviável. Como assim? Estava tudo bem, ultrassom normal e meu bebê não tem chance? Na minha cidade não tem UTI neonatal e me desesperei. Realmente ele não tem nenhuma chance, disseram. Insistimos em uma transferência e não indicaram, pois a infecção estava resistente. Não acredito que tudo isso está acontecendo, não é possível que não tenha jeito de paralisar essa dilatação, fazer alguma coisa. Os médicos foram categóricos: feto inviável.
Continuamos a pedir a transferência de hospital e após 9 dias finalmente fui para uma maternidade. Mas já cheguei em trabalho de parto, com 6cm de dilatação e pouco líquido. Meu bebê nasceu de parto normal, com 670 grs, mas aparentemente bem.
Eu tive acretismo placentário que não havia sido diagnosticado em minha cidade, causando hemorragia intensa no pós-parto. Os médicos não conseguiram estancar a hemorragia e me operaram, ocasionando a retirada do meu útero (histerectomia). Fiquei na UTI 3 dias, mas me recuperei. Meu tão sonhado filho foi guerreiro, viveu 6 dias na UTI neonatal, mas teve uma complicação e faleceu.
Hoje não posso ter mais filhos, meu Yuri foi meu por 6 dias e tornou-se um anjinho em nossas vidas. A irmãzinha sabe que teve seu tão sonhado irmão por pouco tempo e ele voltou pro céu.
Agradeço à Deus pela vida e saúde de minha filha, que é uma bênção em nossas vidas. Nosso pequeno Yuri, que me ensinou muito em tão pouco tempo conosco. O valor da vida, do tempo, da oportunidade que tive de ser sua mãe e fazer parte dessa linda passagem dele na terra.
Muitas pessoas acham que estou bem, que superei…Mas como superar a perda de um filho? Como esquecer que não se pode mais gerar filhos por erro médico? Como superar tantas reviravoltas da vida? Não sei… Mas tento ser forte e viver bem, cuidando de tudo aquilo que Deus me deu. Focando em tudo que ganhei ao invés de tudo o que perdi.

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