E no final disso tudo fica a gratidão

Lissa, 33 anos, mãe do Mateus e da anjinha Olívia


Desabafo Anônimo: Meu nome é Lissa, tenho 33 anos, mãe do Mateus e da anjinha Olívia.
Casei em 2010 aos 27 anos e meu marido veio com pacote completo: 5 filhos! Todos já crescidos, temos um relacionamento muito bacana.
Logo no início do namoro ele me contou que havia feito vasectomia. Eu nem se quer me imaginava tendo filhos, mas se um dia resolvesse ser mãe, sabia que haviam recursos.
Logo a vontade de ser mãe começou a bater, e em dezembro de 2012 fizemos a primeira consulta com o especialista em fertilidade em Belo Horizonte, a 400km da nossa cidade. Tantas informações, procedimentos, índices de probabilidade.. Levamos para casa e fomos digerindo, amadurecendo. Somente um ano depois é que iniciamos o processo para a fertilização in vitro. Em abril de 2014 fiz o tratamento para estimular a ovulação. A parte de aplicar os hormônios é chatinha, mas é tranquila. Já a parte de enfrentar os hormônios dentro do meu corpo (ou seriam demônios?) o marido vai dizer que foi um pouco tenso, rsrs.. Em maio os óvulos viáveis foram fertilizados e os pré-embriões congelados para que eu pudesse cumprir algumas agendas e viagens antes de engravidar (ah! eu e meu jeito planejador de ser… ainda levaríamos muitas rasteiras durante a gravidez). Em setembro fizemos a primeira transferência, de apenas um pré-embrião. Alguns dias depois veio o resultado do BhcG: negativo. Uau, que tapa na cara, não imaginava que sentiria tanta frustração. O médico da fertilidade sugeriu para tentarmos transferir os dois pré-embriões remanescentes logo no mês seguinte, e lá fomos nós novamente. E o BhcG veio positivo! A sensação de saber que tem uma vida sendo gerada dentro de você é surreal. Bom, 4 semanas depois eu descobriria que não era uma vida dentro de mim, mas duas! Gêmeos! Ficamos todos eufóricos.
E alguns dias depois, a minha lua de mel com a gravidez começou a virar de cabeça para baixo… Comecei a enjoar, e os enjoos foram só se intensificando. Frequentava o hospital toda semana, pois me desidratava de tanto vomitar, cheguei a ficar internada algumas vezes. O obstetra diagnosticou hiperemese – enjoo da realeza como dizem minhas amigas (se referindo a Kate Middleton, casada com o príncipe William da Inglaterra e que teve hiperemese durante a gravidez). Mas não tem nada de realeza. Passei 4 meses prostrada na cama, lutando para fazer meu corpo absorver qualquer caloria ou líquido. Eu, que havia comprado livros de nutrição e atividades físicas para grávidas (ah! Lissa planejadora..). Emagreci 7 kg nos primeiros 3 meses. E o pior ainda estava por vir…
No ultrassom da translucência nucal, um dos bebês estava com uma alteração. Levei o resultado para o meu GO, que me encaminhou para um especialista. O especialista deu um prognóstico muito impreciso, mas não muito bom. Provável que seria uma cromossomia. Algumas semanas depois repetimos o ultrassom (que durou 3 horas), tive a imensa alegria de receber a notícia de que era um casal, mas logo veio a bomba: o menino era saudável, mas a menina tinha um problema congênito e estava retendo líquido, quadro denominado hidropsia fetal. Meu mundo caiu. Minha filhinha não iria viver. Entrei no Google para tentar entender essa tal hidropsia, só serviu para eu ver imagens fortes e que me deixaram pior. Por alguns dias tive os piores pensamentos possíveis, me culpei, questionei a Deus por que aquilo estava acontecendo comigo. Era um vazio e uma frustração sem fim. Depois fui entendendo que aquela era a minha missão: gerar meus filhos independente do destino deles. E assim fui seguindo, com alma mais serena e agradecida por Deus me escolher para ser mãe destes dois bebês, e preparada para o que viesse.
Lá pelo quinto mês, comecei a sentir umas coceiras absurdas pelo corpo. Depois de 3 semanas coçando, veio o diagnóstico: Colestase intra-hepática, um distúrbio de fígado ocasionado pela gravidez e que precisava ser acompanhado de perto. Eu já estava me sentindo uma enciclopédia médica a essa altura do campeonato.
Quase completando 28 semanas de gestação, amanheci com uma dorzinha no ventre. Imaginei que fosse a barriga começando a crescer. Fui me certificar com o Obstetra à tarde. Diagnóstico: contrações e 4cm de dilatação, eu estava entrando em trabalho de parto. Devido aos vários fatores de risco da minha gestação (bolsa com excesso de líquido por causa da bebezinha com hidropsia, meus exames de fígado que não normalizavam, a prematuridade em si) meu GO me aplicou corticóides para inibir as contrações e me encaminhou para Belo Horizonte.
Em BH, após 36 horas monitorando meus níveis do fígado e meu quadro clínico, fui diagnosticada com Esteatose Hepática (mais um nome para minha enciclopédia), uma doença também do fígado, também devido à gravidez, que poderia levar meu fígado à falência, e que me levaria a precisar de um transplante urgente. Então optaram por efetuar o parto. Nunca senti tanto medo na vida… Entrei na sala de parto às 18 horas. Primeiro nasceu Olívia, que foi imediatamente encaminhada para os cuidados da equipe Neonatal (ela sofreu uma parada e foi reanimada, mas não respirava sozinha pois tinha líquido nos pulmões devido à hidropsia). E logo nasceu Mateus, que pôde vir para os meus braços por alguns segundos, para logo ser encaminhado para o UTI Neonatal. Depois me permitiram ver e dar um beijo na Olívia antes que ela também fosse para o UTI. Os dois mediram aproximadamente 38cm, pesaram aproximadamente 1 quilo e estavam com 28 semanas, eram prematuros extremos.
Ao retirar minha placenta, detectaram um acretismo (placenta aderida ao útero), desencadeando uma hemorragia; o anestesista me sedou, e fui acordar somente às 22 horas. Caí nas mãos de um anjo de cirurgião, que conseguiu estancar minha hemorragia e preservar meu útero. Devido ao fígado e à hemorragia, me encaminharam para o CTI por 3 dias. Chegando no CTI, recebo a notícia que a minha princesinha havia partido. Olívia guerreira viveu por 4 horas, e então foi ao encontro com o Papai do Céu. Pedi para vê-la. Peguei ela no colo e a agradeci imensamente, por ter aguentado tanto tempo dentro da minha barriga para que o irmãozinho tivesse chances de sobreviver, e por ter me dado tanto amor.
Entrei na maternidade com dois bebês na barriga, e saí sem nenhum nos braços. Mateus ficou 70 dias no UTI neonatal. Além de estar longe de casa, a rotina de UTI neonatal é um caso à parte. É orar por cada grama aumentada no peso, é agradecer por um fio a menos ligado no bebê, é se tornar um pouco médica/enfermeira, é se entristecer pelo bebê ao lado que acaba de virar um anjinho e orar pelos pais que estão em total desamparo.

Essa semana meus filhos fizeram 1 aninho. Ainda sinto a contradição da felicidade pelo Mateus estar lindo e saudável, e da dor da saudade pela Olívia. Às vezes sou cobrada por ainda me sentir em luto… Mas sei que isso somente o tempo vai resolver. E me permito sentir esse luto sim, mas sem prejudicar a alegria em criar meu filho.
E no final disso tudo fica a gratidão, pela minha vida e a do Mateus, pela família e amigos que me apoiaram em todos os momentos, pelos excelentes profissionais com os quais me deparei nessa jornada, e principalmente minha gratidão a Deus por me propiciar essa incrível experiência de provação e crescimento espiritual.
Bom, esse foi o meu relato. Não sou muito de falar sobre a minha vida, mas senti o desejo de compartilhar a minha experiência. Talvez alguma mãe se encontre perdida agora vivenciando algo parecido, assim como eu fiquei na época; gostaria que ela soubesse que não está só. E que tudo vai ficar bem.

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