Sobre ter uma criança com autismo em casa

Por Gabi Gabriela – 14 Fevereiro 2016 – Medium


Eu tenho um filho com Síndrome de Asperger.

SA é classificada como um transtorno de desenvolvimento. Algumas pessoas chamam pessoas Aspies de doentes.

Autismo não é doença. E eu também não gosto do termo ‘transtorno’.

Eu encaro pessoas com espectro de autismo como seres de personalidade diferente, apenas uma personalidade entre tantas outras existentes.

Leônidas tem um modo próprio de ver o mundo. Um modo que eu venho tentando entender e aprender.

Ele adora dinossauros e pode passar muito tempo falando sobre isso. Ele não entende que as demais pessoas talvez não tenham o mesmo interesse que ele sobre coisas tão restritas.

Ele precisa de consistência, rotina e organização. Atividades sem planejamento o deixam ansioso. Às vezes é muito difícil lidar com o irmão menor que não respeita o sistema rígido de organização do quarto, que faz barulhos que o desconcentra, que ainda não entende como algumas coisas são primordiais para que a brincadeira seja tranquila.

Ele tem uma memória fantástica. Hoje ele lembrou sobre uma viagem que fizemos há mais de dois anos atrás. Falou com detalhes sobre o ônibus na rodoviária, o local onde guardamos nossas malas, sobre como é diferente dormir num ônibus.

Se eu prometo algo, ele me cobra. A professora sempre diz que ele é um desafio. Ele cobra dela cada promessa, mudança na rotina, organização das atividades.

Ele é curioso e questionador. Ele faz perguntas o tempo todo. Ele espera respostas detalhadas sobre cada dúvida.

Apesar de não ter problemas no desenvolvimento da fala, a comunicação dele não é exatamente como a nossa. Ele não sabe interpretar linguagem corporal ou expressões faciais, não entende figuras de linguagem ou sarcasmo. Ele absorve o uso de termos ou frases de outras pessoas e tenta aplicar isso no seu falar. O resultado é uma fala repetitiva, pobre de argumentos e com expressões típicas de adultos. É o que os médicos chamam de Ecolalia. Apesar disso ele pode dar uma aula sobre qualquer tema que ele assista num documentário e vai fazer isso de um jeito encantador.

Em função das dificuldades de comunicação, a socialização dele é também é afetada. Ele pode ser encarado como antipático ou egoísta. Mas com certeza está bem longe disso.

A motricidade dele é prejudicada. Ele tem dificuldade de equilíbrio, não consegue chutar bem uma bola, não anda pé-por-pé em cima do cordão da calçada e não pula amarelinha.

Mas ele tem muitas habilidades. Joga muito bem dominó, Uno, faz desenhos muito detalhados, aprende com muita facilidade, tem apreço por outras línguas e gosta de estar em contato com a natureza (a maior paixão dele é a horta da escola e pede todos os dias para viver num sítio com muitos animais e espaço para plantar).

Ele se frustra facilmente. Ele tem forte apego à ‘rituais’ e rotina. Ele não gosta de qualquer pessoa, prefere adultos a crianças. Ele não gosta de ser tocado por estranhos e algumas vezes se sente aflito se as pessoas o olham com mais insistência. Ele foge de contato visual. Ele não aceita mudanças de última hora.

Ele é seletivo com muitas coisas. Com as pessoas que quer ter por perto, as atividades que o interessam e mesmo com a comida.

Coisas comuns para pessoas típicas podem gerar superestímulo. Barulhos altos o incomodam e assustam.

Ele tem crises que chamamos de ‘Colapsos’. Nós levamos muito tempo para entender como as crises poderiam ser evitadas e / ou controladas. Pessoas que o veem de fora em geral o chamam de manhoso ou birrento.

Colapsos vão muito além de birra. É uma sensação de frustração, desespero e ansiedade. Ele chora, se debate, se joga no chão, se descontrola. Se não contornado rapidamente, fica cada vez mais intenso.

As principais razões para desencadeamento de crises são: Interrupção da rotina, Frustração, Sobrecarga, Dificuldade em ser compreendido.

Não é possível dizer que ele tem autismo só de olhar para ele. Mas a maioria das pessoas nota que ele é ‘diferente da maioria’.

Algumas vezes nós fomos magoados e atacados por pessoas incapazes de entender as particularidades do Leônidas.

Nós amamos o nosso menino especial. Ele não é doente, ele não precisa ser medicado, não é egoísta, não é problemático, não é birrento. Ele tem uma personalidade diferente da minha e da tua. Ele e todas as pessoas, cada uma em suas particularidades, merecem o teu respeito e compreensão.


Fonte: https://medium.com/@Gabi.p/sobre-ter-uma-crian%C3%A7a-com-autismo-em-casa-68aa316fb855#.tt294w6li

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1 comentário Adicione o seu

  1. Liz de Angelo disse:

    Olá! Entendo bem como é, tentar fazer com que as pessoas entendam que esses meninos e meninas encantados são, antes de tudo, pessoas. Possuem gostos, vintades, personalidades próprios. Meu irmão é um autista clássico, com limitações de comunicação e linguagem mais profundas do que as do seu menino mas a luta diária parece ser a mesma, sempre. Obrigada por divulgar a Síndrome. Beijos!

    Curtir

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