Não sei como não abortei depois de tanta violência!

Maranuska Cordeiro de Castro, quarenta anos. Uma filha, Giovana,19 anos.


Desabafo Anônimo: Quando conheci o pai da minha filha, foi “amor à primeira vista”. Acreditei durante anos, que aquilo era amor. Em pouco tempo de relacionamento, ele se tornou extremamente agressivo, ciumento e violento. Foi ensinado que as mulheres não merecem respeito. Que os homens da família, o pai, o cunhado, ele mesmo, tem todo direito em agredi-las verbal ou fisicamente. Me agredia por nada, tudo era motivo.Me afastei de amigos, cortei o cabelo para não chamar atenção. Não ouvia o que os familiares diziam, me tornei apática.

Quando estava grávida de um mês, eu ainda não sabia da gravidez, ele me bateu tanto, esmurrava com tanta força minha barriga, que durante muito tempo eu ouvia sua voz afirmando: “É assim que se bate em uma vagabunda, não vai ficar marca nenhuma”. Não sei como não abortei depois de tanta violência. Quando ele soube da gravidez, primeiro disse que não era dele, depois que eu deveria abortar. Eu estava tão feliz, não dei importância ao que ele falava.

Consegui um emprego, estava grávida de dois meses, mas eu precisei omitir, sabia que ele não me ajudaria com o bebê. Tive uma gestação clinicamente perfeita, os exames sempre ótimos, mas a tristeza, essa era imensa. Durante a gravidez, o pai dele adoeceu e a família precisou mudar para o interior de SP. Pouco nos víamos, mas, as agressões, continuaram, mesmo com um barrigão ele me batia. Nos separamos quando a bebê estava com um ano e oito meses, pois ele namorava há meses outra moça. Ele faleceu quando a filha tinha quase cinco anos.

Eu estava com 41 semanas e, dia sim, dia não, ia no hospital fazer o cardiotoco, tudo tranquilo. Na noite do parto, senti uma pontada muito forte na barriga, o tampão ja havia saído à tarde e as contrações começaram. Minha mãe, uma irmã e duas tias foram até o hospital comigo. Avisei o pai, que apareceu quatro dias depois do parto.  Ainda estávamos no hospital. Uma das tias me disse várias vezes, que a dor só iria aumentar, que eu não estava sentido nada ainda. Me internei, uma médica sem nome, sem avisar o que iria fazer, estourou a bolsa. Me levaram para o quarto, uma enfermeira muito estúpida veio colocar o soro, sem dizer para que servia aquilo. A dor era tanta, que eu não aguentava, chorava, gritava, ela e mais outra enfermeira me diziam que, na hora de fazer a criança, eu não tinha chorado, não tinha gritado, que não tinha doido né, que era para eu parar com aquele escândalo. Eu queria usar o banheiro, elas não deixaram. Desligaram a campainha da minha cama e me deixaram lá. As outras mães no quarto, diziam para eu tentar me acalmar, para eu morder o lençol quando as contrações viessem, porque as enfermeiras não iriam me ajudar. E ali eu fiquei, vez ou outra elas voltavam, porém os médicos não vi mais. Faziam o exame de toque, sempre sem ser explicado nada, comentários cada vez mais agressivos e jocosos. Eu pedia ajuda, não sabia que eram dores tão fortes assim, e elas iam embora. Então ela coroou, eu senti sua cabeça saindo, eu gritava chamando alguma enfermeira, mas demorou uma eternidade para aparecem. Quando uma delas chegou, já foi mandando eu parar com o escândalo. Eu disse que a nenê estava nascendo, ela abriu minhas pernas e disse bem irônica: ” Nossa, ela voltou para dentro de novo?” E ela coroou novamente, a enfermeira fechou minhas pernas, chamou a outra, me trocaram de maca, sempre segurando minhas pernas, andamos por um corredor imenso, depois elevador, me deixaram na sala do parto. Apareceu um médico, o anestesista, sem nome também, no cartão de nascimento consta o nome de uma médica. Disseram que não dava tempo de chamá-la porque já estava nascendo. Fez a episiotomia sem avisar, sem anestesia, e ela nasceu, chorou, cor de rosa, cabeluda, as unhas compridas e uma mancha avermelhada na testa. Me mostraram de longe, precisava gravar algo para identifica-la, não me deixaram tocar minha bebê quando nasceu. O médico perguntou se eu queria anestesia para fazer a sutura, mas disse que não faria efeito, ele não iria esperar fazer efeito, e costurou o local sem estar anestesiado. Tudo  foi feito sem explicação, a retirada da placenta, aquele monte de panos que enfiavam em mim, um tubo que foi colocado no meu ânus sem eu saber o por quê, o médico que saiu sem falar nada.

Me levaram para um quarto grande e vazio, eu tremia tanto de frio, pensei que fosse morrer, estava sem roupa, só com um lençol, a cama cheia de sangue, depois de muito tempo uma enfermeira me trouxe um cobertor. Fui para o quarto. Ainda não tinha visto a Giovana quando deu o horário de visita, dez horas depois.

Minha tia e eu estávamos olhando pelo vidro do berçário, tinha uma enfermeira banhando outro bebê, quando ela virou, já pegou a Giovana e levou para a UTI neonatal, ela estava tendo uma convulsão por hipoglicemia. Ficou cinco dias internada, eu tive alergia ao iodo usado para assepsia, a pele da região do períneo saía aos pedaços, os pontos abriram. Depois de quarenta e cinco dias de nascida, a Giovana foi diagnosticada com Síndrome de Morsier, uma má formação congênita. Umas das características da síndrome é a deficiência visual, ela enxerga em torno de 5% em um olho, o outro não tem visão alguma. Passou praticamente o primeiro ano internada: desnutrição, anemias profundas, pneumonias. Ela começou a andar com quatro anos, a mastigar com quatro e meio, médicos diziam que ela não sairia de cima de uma cama, que eu estava perdendo meu tempo.

Quando ela começou a andar, que felicidade, um milagre, uma glória de Deus! Liguei para o pai, falei para a avó que ela tinha andado naquele momento, pedi para ele me ligar, nunca houve o retorno. Ele a visitou somente uma vez durante suas diversas internações. Nunca a acompanhou em médicos, terapias, nunca me ajudou, com um abraço, com uma palavra de carinho, financeiramente, nada. Da minha família, poucas vezes tivemos visita, mesmo morando todos juntos. Passava dias sem tomar banho, trocar de roupa, a fome no hospital, não tinha dinheiro para nada. A tristeza, a raiva, me tornei uma mulher amargurada, sem alegria, sem vida. Eu queria tanto poder chorar, nunca pude chorar, eu não podia parar, não podia desistir.

Fiz tudo o que pude, e, ainda hoje, luto para Giovana ter uma vida digna. Fiquei traumatizada com o parto, com a gravidez, com tantos porquês sem resposta, tudo era contra a minha felicidade. Há pouco mais de três anos, hoje a Giovana está com dezenove, decidi que eu quero viver, que mereço ser feliz, que sou linda, posso amar e ser amada. E que, principalmente, eu nunca tive culpa sobre nada do que aconteceu.

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2 comentários Adicione o seu

  1. bianca disse:

    Nossa, me arrepiei ao ler sua história. Que mulher e mãe mais guerreira! Queria eu ter toda sua coragem e determinação. Que Deus te ilumine, que você seja muito feliz!

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  2. Giselle disse:

    Oh, querida!
    Um abraço e parabéns por ter seguido e lutado pela sua filha…

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